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Ser de esquerda ou de direita

por Pedro Correia, em 11.09.18

freeskipper.destra_sinistra_politica_252129926[1].

 

Não passa um dia sem que leia alegados analistas políticos usando e abusando de rótulos identitários sem um menor esboço de rigor. Incluo nestes rótulos a estafada dicotomia "esquerda/direita". Que tenho cada vez mais dificuldade em aceitar como forma de interpretar o mundo contemporâneo, caracterizado por fracturas de outro género.

O que é ser "de direita"? Quais os requisitos necessários para meter alguém na gaveta da "esquerda"? E quem está habilitado a emitir certidões deste tipo?

 

Estes dísticos têm, desde logo, o defeito de nunca valerem por si: necessitam sempre de uma bengala. Neste caso, uma bengala geográfica. Porque quem se diz de esquerda ou de direita situa-se invariavelmente em função de terceiros: ninguém está à esquerda ou à direita de si próprio.

O que nos conduz ao aparente paradoxo de qualquer de nós poder ser, em simultâneo "de esquerda" e "de direita". A menos que se trate de alguém tão colado a um extremo do espectro político que tenha a leste ou a oeste, conforme o caso, apenas um muro.

Falo por mim: sou de esquerda e de direita. Porque me situo muito mais à esquerda do que o PNR e muito mais à direita do que o MRPP. Seguramente 99% dos meus compatriotas estarão como eu.

 

Os cenários podem multiplicar-se, estreitando as margens da equação mas conduzindo ao mesmo resultado: não faz sentido alguém assumir-se politicamente em função de coordenadas geográficas que dependem sempre do contexto e das circunstâncias.

Tomemos alguns exemplos: Ramalho Eanes, eleito em 1976 como hipotético "candidato da direita" à Presidência da República, seria reeleito quatro anos depois como suposto "candidato da esquerda" - sem nunca ter deixado de ser a mesma pessoa nem abdicado do essencial do seu pensamento político. E o Mário Soares que combateu Álvaro Cunhal em 1975, perante a fúria da "esquerda", não seria estruturalmente o mesmo que colidiu com Cavaco Silva no seu segundo mandato em Belém, escandalizando parte da "direita"?

 

Um ser humano é muito mais do que a soma ou a subtracção de pontos cardeais. Gostaria que os comentadores e os jornalistas que reduzem a vida partidária aos gestos mecânicos de um polícia-sinaleiro se lembrassem mais vezes disto, rejeitando rótulos que podem ser úteis para os amantes da taxidermia mas empobrecem o debate político, reduzindo-o a tosca caricatura. Cada ser humano é demasiado complexo para caber por inteiro numa etiqueta.

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24 comentários

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De Rui Henrique Levira a 12.09.2018 às 03:17

Pois... Um dos grandes problemas do momento é que causas de esquerda - o internacionalismo e a relativa liberdade de costumes - foram recicladas em supostas causas de esquerda crismadas de "cosmopolotismo multicultural" e de "políticas de género". Escusado será apontar que essas mesmíssimas novas causas têm sido mais um útil instrumento no arsenal da extrema-direita neoconservadora e globalista e têm prestado um belíssimo serviço no ataque a países e desenhos políticos que se opõem à vontade e aos projectos dessa mesma extrema-direita.
A quase generalidade da esquerda pós colapso do Muro de Berlim embarcou alacremente em coisas tão de esquerda como o desmembramento da Jugoslávia, o massacre de um milhão de iraquianos, o bombardeamento da Líbia até ao retorno à pedra lascada e o apoio a um golpe neonazi em Kiev.
Das preocupações das novíssimas "esquerdas" questões tão pouco relevantes como que Educação, que Saúde, que Emprego, que Remuneração, que Habitação quase não constam ou só constam por uma questão de serem o último resquício de um passado lá muito atrás na infância ideológica: o que verdadeiramente interessa é se o João pode casar-se com o Manuel e a Carina com a Diana, se o António pode cirurgicamente metamorfosear-se em Vanessa e a Júlia transformar-se no Carlão, sendo de magna importância interditar o consumo de carne de porco nas cantinas escolares (não vá a coisa bulir com os petizes das comunidades muçulmanas ou judaicas) e introduzir a saudável dieta vegetariana para que haja muitíssima "variedade" e se dê um toque modernaço à coisa, enquanto se chora muito (esquecendo-se que se aplaudiu a mãos ambas aquilo que foi a génese das suas desgraças) a morte daqueles que jazem no fundo do Mediterrâneo. Tudo isto, meus amigos, é de esquerda a valer. Nem me atrevo a perguntar o que será, então, de direita a valer.

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