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Semana sangrenta

por Luís Naves, em 16.07.16

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Frase

“Mais injustas do que qualquer sanção são as palavras da dra. Maria Luís Albuquerque”, António Costa, primeiro-ministro, reagindo em Bruxelas à acusação da ex-ministra das Finanças de que o Governo não defendeu o legado recebido. 12 de Julho de 2016

Um post

Suzana Toscano, em Quarta República

Um livro

Pierrot Meu Amigo, de Raymond Queneau

Sentido de humor delirante, diálogos precisos, numa linguagem cheia de invenção; a história é simples e as personagens têm complexidade e um pouco de loucura. O ritmo da prosa é alucinante. Como a França era engraçada. Apesar de ter sido publicado em 1942, este romance não tem referências políticas e mostra uma cultura optimista e alegre, que celebra a vida.    

 

Domingo, 10 de Julho

Portugal venceu a final do campeonato europeu de futebol, num jogo repleto de emoção e drama, com um suplemento de alma que parecia improvável. Fica para a História a imagem das lágrimas de dor e alegria de Ronaldo, fica na nossa memória a tenacidade do seleccionador Fernando Santos, que durante semanas foi vergastado por mil tudólogos. É bem ténue a linha que separa a vitória da humilhação: muitos observadores já afiavamas facas para criticar todos os que deram o litro em campo, incluindo o extraordinário Cristiano Ronaldo. Ironia das ironias, o golo da vitória foi marcado pelo ‘patinho feio‘ da equipa, Éder, aquele que ninguém achava à altura dos nossos longos pergaminhos de derrotas morais. Éder desmentiu os sábios da farinha amparo e ainda nos deu uma vitória que levará anos, talvez décadas, a ser repetida.

 

Segunda-feira, 11 de Julho

Portugal celebrou nas ruas, onde se acumularam multidões eufóricas. Buzinas, cânticos, danças, alegria, o esvoaçar de bandeiras, a explosão da cor no dia quente. Este povo, que as elites tanto subestimam, teve sempre nos momentos de adversidade a mesma coragem e resistência que a sua equipa de futebol mostrou em campo, quando tudo parecia perdido. Neste texto, o historiado Rui Ramos, notou com lucidez que assistimos ao “sequestro da selecção” pelos políticos, espectáculo embaraçoso que teve momentos de algum ridículo e mostrou o “desespero do regime”. Está a tornar-se um hábito: aquilo que a esquerda tanto criticou nos tempos do fascismo, os famosos três F (de fado, futebol e Fátima) são agora uma banalidade praticada pelos mandarins da nova ordem.

 

Terça-feira, 12 de Julho

Portugal ficou sob ameaça de sanções da União Europeia. Negando o óbvio, entre nós prossegue a operação de mistificação da opinião pública. O actual Governo tenta culpar o anterior por não ter cumprido o défice de 2015 e afirma que não fará alterações de política, mas as autoridades europeias exigem medidas. A coligação PSD-CDS desbaratou a oportunidade de sairmos do procedimento por défice excessivo, onde nos encontramos por nunca termos atingido o objectivo de 3% do PIB no défice orçamental, no entanto as sanções não resultam de duas décimas de PIB (o que seria pouco mais de 300 milhões de euros), mas do afastamento continuado da trajectória de redução. O Governo de António Costa adiou pagamentos, subestimou o abrandamento económico e aumentou a despesa. Portugal financia-se nos mercados e estes estão a reagir com crescente desconfiança à reversão das reformas. Perante a ameaça de sanções, o primeiro-ministro terá de escolher entre austeridade e risco de bancarrota; os partidos que o apoiam podem aceitar medidas duras ou avançar para uma ruptura que cortará o PS em pedaços. Isto seria o dilema racional, mas há sempre a hipótese de querer bater o pé à Europa, estratégia que deu tão bons resultados na Grécia.

 

 

Quarta-feira, 13 de Julho

Excelente artigo de Rui Zink sobre a questão racial na América. Obama fez ontem um discurso extraordinário sobre o tema e explicou que a sociedade americana “está menos dividida do que parece”. A frase aplica-se também às divisões europeias ou à crispação política nacional. Estamos menos divididos do que afirmam os meios de comunicação ou do que sugerem as frases tremendas que se escrevem sobre adversários políticos. A Europa enfrenta muitos problemas, mas continua a ser a região onde se joga o poder mundial. É assim há 500 anos. Apesar de tudo, persiste a sensação geral de declínio e os europeus precisam de resolver as contradições na sua moeda única. Em Itália, espreita uma nova crise: após anos de estagnação ou baixo crescimento, os bancos ficaram carregados de crédito malparado. As novas regras europeias de resolução bancária exigem que a factura seja passada também a detentores de obrigações e isso implica a destruição da poupança de dezenas de milhares de italianos. A situação pode tornar-se num devastador terramoto político. Salvar a banca italiana exige atingir milhões de pessoas, para evitar o risco de uma epidemia de falências; a alternativa será alterar as regras e destruir a credibilidade da união bancária. Estamos perante um no exemplo do velho trilema europeu: não é possível ter simultaneamente mais integração económica, mais democracia e mais soberania nacional; só é possível ter duas destas; por exemplo, mais democracia e soberania com menos integração; ou mais integração e democracia, mas sacrificando a soberania.

 

Quinta-feira, 14 de Julho

O Governo estica a corda e compra uma nova guerra com a União Europeia, o que só se entende se quisermos pensar no ‘day after’. Os números do défice serão simpáticos até ao final do ano, quando chegarem as contas que foram empurradas com a barriga e as facturas relativas a medidas tais como as 35 horas ou o IVA da restauração. Mesmo com sanções, a máquina de spin pode dizer que está tudo a correr bem, no entanto o BCE deixará em breve de comprar dívida portuguesa e as taxas de juro vão começar a subir mais depressa. Do Presidente da República, da oposição ou dos partidos que apoiam o Governo não há pretextos razoáveis para justificar uma demissão, portanto António Costa precisa de procurar no exterior o bode expiatório, antes que os erros cometidos mostrem os seus piores efeitos. Em bombardeamento diário, está a ser criado um clima anti-europeu, com ajuda preciosa do Bloco de Esquerda.

 

Quinta-feira à noite, 14 de Julho

A multidão assistia em Nice ao fogo de artifício da festa nacional francesa quando, de súbito, um camião a alta velocidade atropelou quem não conseguiu sair da frente. Num monstruoso atentado que durou poucos segundos, morreram 84 pessoas e ficaram feridas mais de cem, incluindo dezenas de crianças. O terrorismo islâmico procura atingir a civilização Ocidental e os seus valores. Neste caso, o autor agiu sozinho, mas conhecia a propaganda do Estado Islâmico que circula nas redes sociais. A França transformou-se num território de caça ideal para os terroristas: células de radicais islâmicos bem escondidas, o fervilhar de uma reacção de extrema-direita, a ideia de declínio e vulnerabilidade. Eles querem destruir as liberdades ocidentais e a democracia, usando tácticas de terror especialmente perigosas, com meios de baixa tecnologia que a polícia tem dificuldade em detectar. O objectivo é causar o máximo de vítimas e, ao contrário do que aconteceu no terrorismo político europeu do passado, não se visam oligarquias e alvos militares, que estão bem protegidos; pelo contrário, procura-se fazer o máximo de vítimas entre os cidadãos comuns. O atentado de Nice parece inserir-se numa campanha de terrorismo islâmico com efeitos económicos imediatos e profundos. O Estado Islâmico usou estas tácticas horríveis na sua expansão em território iraquiano e sírio, baseando-se na surpresa e na violência extrema, com meios simples, em células minúsculas, procurando vítimas indefesas, em acções extremamente difíceis de contrariar.

 

Sexta-feira à noite e sábado de madrugada, 15 e 16 de Julho

Um inesperado golpe militar na Turquia provocou horas de combates envolvendo tropas rebeldes e forças governamentais, com muitas vítimas. O Presidente Recep Erdogan usou as redes sociais para um apelo desesperado a que as pessoas saíssem à rua e a população enfrentou os golpistas, desafiando o estado de emergência. Devido à intervenção popular, o golpe parece ter falhado. Foram detidos milhares de soldados e demitidos juízes: o Governo acusa os golpistas de pertencerem a uma facção de ‘gulenistas’, adeptos do movimento de Fethullah Gulen, académico que vive no exílio nos EUA e defende um Islão político caracterizado por tolerância, modernidade e pacifismo. A explicação não convenceu inteiramente os aliados da NATO.

Erdogan e Gulen são os dois chefes políticos de movimentos islâmicos cuja aliança, em 2002, permitiu ao AKP, chefiado por Erdogan, a primeira de uma série de maiorias absolutas. O partido islâmico moderado venceu de novo em 2007 e 2011, mas falhou a maioria em Junho de 2015, o que levou a eleições em Novembro desse ano, com nova vitória estrondosa. Em 2014, Erdogan (até aí primeiro-ministro) venceu as presidenciais e iniciou a alteração do regime, retirando poderes ao parlamento. Pouco antes, o líder turco entrara em conflito aberto com Gulen, por razões pouco claras, acusando o seu antigo aliado de criar um ‘estado paralelo’. A imprensa controlada por Gulen começou a publicar histórias sobre a corrupção no círculo próximo de Erdogan e o poder respondeu com o fecho dos jornais financiados pelos ‘gulenistas’.

O golpe de ontem na Turquia permite fazer algumas observações adicionais, por exemplo, a velocidade na circulação de informação torna improvável um golpe militar numa sociedade com boas redes sociais. A qualidade dos armamentos criou combates rápidos, extremamente letais e destrutivos. Um exército moderno e bem equipado, como é o caso do turco, pode ter facções capazes de organizar um golpe complexo. O regime de Erdogan vai provavelmente reforçar as tendências autocráticas, mas o presidente também provou que é uma figura invulgarmente popular, com quatro vitórias em legislativas, três em eleições locais e uma eleição presidencial. O período de eleições livres dominado pelo AKP teve grandes benefícios para os pobres: em 14 anos, o rendimento per capita (medido em paridades de poder de compra) aumentou mais de 50%. No mesmo período, a economia real cresceu dois terços. Não admira, pois, que as pessoas tenham saído à rua em defesa do presidente. Para as próximas semanas, colocam-se muitas incógnitas, sobretudo sobre o futuro do movimento islâmico, a evolução da república secular e o papel das forças armadas na sociedade turca.

 


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