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Sem a loucura o que é o homem?

por Pedro Correia, em 19.05.16

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Por vezes alguns dos aspectos mais secundários de um quadro são os que o tornam mais significativo. Acontece isso no célebre O Grito, de Edvard Munch (1893), peça essencial da iconografia do nosso tempo. Vi pela primeira vez esta tela densa e misteriosa ainda criança, reproduzida num selo norueguês que me fascinou. Norge, lia-se nesse selo branco e azul, como atestado de proveniência. Mirei-o e remirei-o incessantemente, sem nada saber da arte de Munch nem da sua existência atribulada. Fascinou-me ao primeiro olhar: jamais vira – jamais vi – os abismos da mente humana captados de forma tão verosímil pelos caprichos de um pincel lançado numa espécie de liturgia do expressonismo. Há vida neste quadro. Vida transtornada, transfigurada, trepassada por uma dilacerante angústia existencial, indescritível por palavras.
Só vendo se percebe.

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De há cem anos para cá, multiplicaram-se as teorias sobre a origem deste ‘grito’ tão singular. Houve quem mencionasse a hipótese de um ataque de pânico que o artista transportaria para a sua tela, falou-se em ansiedade e neurose. Houve até quem arriscasse que tudo se terá devido às frequentes libações alcoólicas de Munch. Não faltaram as teses psicanalíticas, aludindo à sucessão de dramas na infância do pintor, que ficou órfão de mãe muito cedo e viu a irmã mais velha desaparecer de forma trágica.
Filho de médico, o artista noruguês (1863-1944) habituou-se a acompanhar o pai, em criança, a diversas visitas domiciliárias que lhe causariam um permanente assombro perante os abismos da doença e o rasto inevitável da morte.
É o próprio Munch que nos ajuda a desvendar o que terá ocorrido naquele fim de tarde de 1892 numa rua de Cristiânia [a actual Oslo]: “Caminhava com dois amigos. O sol, vermelho-sangue, descia no horizonte – e senti-me invadido por um sopro de tristeza. Parei, num cansaço de morte. Sobre o fiorde negro-azulado e a cidade caíam línguas de fogo. Os meus amigos prosseguiram – eu fiquei, tremendo de medo. Senti um grito infinito através da natureza. Senti como se conseguisse de facto escutar esse grito.”
Não tardou a fazer um esboço daquele que viria a tornar-se um dos quadros mais célebres de todos os tempos, cheio de linhas irregulares e convulsivas: terra, água e céu parecem atingidas pela mesma vaga demencial de sangue e fogo. A paleta de Munch é única. E a sua visão sombria da existência também. No rosto da figura principal – de algum modo um símbolo do mundo contemporâneo – estampa-se a “imagem primária do medo”, como acentuou o britânico Iain Zaczek, autor da obra The Collins Big Book of Art and Masterworks.

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Regresso ao princípio para acentuar um daqueles pormenores que fazem toda a diferença nos melhores quadros: as duas figuras de cartola que caminham impávidas na direcção oposta à da personagem principal. Elas – e só elas – nos elucidam de que tudo quanto ali vemos se passa apenas na mente perturbada do autor, estabelecendo um evidente contraste entre o que este imagina por sugestão de um pôr-de-sol e a realidade objectiva daquele plácido fim de tarde na capital norueguesa.
“Só podia ter sido pintado por um louco”, escreveu Munch, a lápis, numa das cópias deste quadro que lhe deu projecção universal. Um seu contemporâneo português, Fernando Pessoa, bem poderia responder-lhe nestes versos antológicos, adaptáveis a todas as estações da vida: “Sem a loucura o que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”

 

Outro quadro: Auto-Retrato com Cigarro, de Munch (1895). Tal como O Grito, pertence à colecção do Museu Munch, em Oslo.

 

Texto reeditado, assinalando a sua inclusão em Encontros, manual de Português do 11º ano da Porto Editora, elaborado pelas professoras Noémia Jorge, Cecília Aguiar e Inês Ribeiros, com revisão científica de Maria Antónia Coutinho - certificado para o ano lectivo 2016/17. Nas páginas 296-297, incluindo reprodução (não integral) do texto, questionário e ficha de leitura. Com menção expressa ao DELITO DE OPINIÃO, que agradeço.

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14 comentários

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De Anónimo a 19.05.2016 às 13:03

Parabéns, Pedro, pelo excelente texto e pelo merecido reconhecimento do mesmo.
O Delito ainda consegue surpreender-me: mais uma série que eu desconhecia e que vou já espreitar.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 19.05.2016 às 13:15

Obrigado, Antonieta. Essa série sobre "os quadros das nossas vidas" terminou infelizmente cedo de mais. Talvez possa ser retomada aqui um dia destes.
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De Maria Dulce Fernandes a 19.05.2016 às 13:27

Que somos loucos, é uma certeza. A loucura pode ser genialmente bela ou aterradoramente louca. Não há meio termo. Só existem níveis de controlo, camadas de polimento, cortinas translúcidas de civismo.
Não há certezas quanto à loucura. Nem nas pedras lascadas, nem nos nanochips.
No fundo , é o que define o ser humano : saber controlar o louco irracional que tem dentro de si.

Este texto é tão bom, mas tão bom, que merece ser estudado e ainda bem que há quem assim pense.
Parabéns ! :)
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De Pedro Correia a 19.05.2016 às 20:58

Partilho muito dessa opinião, Dulce. Todo o século XX destruiu as ilusões positivas e racionalistas daqueles que tinham uma visão desfocada da natureza humana, circunscrevendo o ser que somos ao intelecto, centrado nas Luzes. Como se o ser humano não tivesse sombras. A melhor literatura, de Kafka a Borges, demonstra-nos o contrário.
Todos nós somos muito mais e muito menos que razão. De uma complexidade que nenhuma doutrina abarca e nenhuma ideologia consegue descrever.
Também por este motivo gosto tanto destes versos do Fernando Pessoa. Do melhor que já houve na poesia portuguesa.
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De sampy a 19.05.2016 às 14:05

Precisões:

Embora se mencione que O Grito pertence à colecção do Museu Munch, a verdade é que há várias versões. E a que é reproduzida na abertura do texto, talvez a mais conhecida, pertence à Galeria Nacional de Oslo.

Relativamente às palavras de Munch - o poema que ele deixou gravado na moldura da versão de 1895 -, a última frase citada não faz parte do original.
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De Luís Lavoura a 19.05.2016 às 14:10

Questionei-me se as professoras, ao inserir este texto no livro, o teriam colocado na nova ortografia, certamente que contra a autorização do Pedro. Então reli o texto e apercebi-me de que o texto não tem (salvo erro) uma única palavra cuja ortografia tenha mudado. Mais uma prova de quanto a nova ortografia é tímida nas modificações que introduziu.
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De Costa a 19.05.2016 às 17:16

Grato, Lavoura. Preparava-me para reler o texto em busca da palavra susceptível de mutilação acordita e que me levaria a perguntar se tal patifaria se concretizara (tratando-se de coisa da Porto Editora - e manual escolar, ainda por cima - a questão seria aliás decerto meramente retórica). Mas graças a si, já o posso reler, ao texto, pelo simples gosto de o fazer.

Mas não nos quererá iluminar por aqui, revelando-nos, em seu douto entendimento, em que mais áreas se deveria a "tímida" malfeitoria do AO90 ter alargado?

Costa

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De Luís Lavoura a 19.05.2016 às 17:48

não nos quererá iluminar revelando-nos em que mais áreas se deveria o AO90 ter alargado?

Poderia ter suprimido os H mudos no princípio das palavras (tal como no italiano, essa tão bela língua, na qual Dante escreveu).

Poderia ter substituído alguns X por Z em palavras como "exausto" e "exato".
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De Costa a 19.05.2016 às 22:40

Rumo às cavernas, enfim...
P.s. A boa educação mandaria que entendendo citar-me o fizesse sem omitir fragmentos relevantes para a contextualização e respeito pelo sentido da questão que lhe coloquei. Não por meu mérito, sequer, apenas, e bastaria, por essa elementar boa educação. Mas você é um "progressista", notoriamente, e esses são muitíssimo hábeis - ou apenas descarados - na manipulação da realidade e na desconsideração do opositor. Mesmo, como se vê, nos mais banais gestos.
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De Helena a 20.05.2016 às 01:01

A paleta de Munch é única. Adorei o texto. Identifico - me muito com o que está escrito.
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De Pedro Correia a 20.05.2016 às 08:39

Obrigado, Helena. Este é um dos quadros da minha vida - tal como 'As Meninas', de Velázquez, e 'A Persistência da Memória', de Dalí.
Apetece entrar neles e decifrar tudo quanto lá encontrarmos.
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De Justiniano a 20.05.2016 às 09:23

A primeira vez que me cruzei com o Munch foi com o grito, que sobressaía, expressivo e singularmente impressivo, de um prensa em papel rude e a preto e branco, próprio das fanzines de então!!(a grande marcha do mundo, de Siqueros, foi também, para mim, na altura, inolvidável e marcante) Era bastante jovem, eu. Sem cor e apenas a impressão pictórica de um processo de serigrafia estafado e precário!! Foi, assim, impressivo e indelével, caro Pedro Correia. Ao lê-lo, aqui, revejo-me!! É, pelo menos, assim que me recordo, como diria o Munch!!
Munch e o friso da vida ou como a pintura se converte num poema sobre a vida, o amor e a morte. Ninguém pintou o desespero, a angústia, a melancolia e o ciúme como Munch conseguiu pintar!! E tudo e mais!
Um grande bem haja,
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De Pedro Correia a 27.05.2016 às 19:31

Muito obrigado, Justiniano.

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