Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Selecção Nacional - 5

Inês Pedrosa, 07.07.16

19757841_atBYT[1].jpg

 

"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.