Seguro: a vingança serve-se fria

Aconteça o que acontecer a partir de agora, António José Seguro tem motivos para se alegrar nesta campanha presidencial que se aproxima do fim. Todos aqueles que no PS andaram anos a denegri-lo levaram um duche gelado ao verem-no como candidato a Belém. Suspiravam por alternativas que nunca se concretizaram: o Dom Sebastião canhoto não se dignou vir em socorro dos aflitos.
Este mesmo Seguro que o ex-secretário-geral Pedro Nuno Santos atirou para a praça pública em Outubro de 2024 não a sério mas com intuitos irónicos, embrulhado entre vários outros nomes. Também isto - como quase tudo - lhe saiu ao contrário. O feitiço virou-se contra o feiticeiro: o "neto de sapateiro" acabou enfim, há escassos dias, por anunciar que irá votar nele, com adjectivos do mais fino quilate. Num cortejo de serôdios apoiantes do candidato que inclui Fernando Medina, Ana Catarina Mendes, Carlos César e Ferro Rodrigues, entre outros.
Até o inenarrável Augusto Santos Silva, que nunca se coibiu de zurzir o antigo secretário-geral do partido, se verga agora ao peso da conveniência política, revelando que votou em Seguro por antecipação no passado domingo por ter concluído ser «aquele que mais se aproxima dos requisitos mínimos» para assumir a chefia do Estado.
Virou por completo a casaca: em Janeiro de 2025 dizia exactamente o contrário. Com a arrogância dos pseudo-iluminados, imaginando que a nação lhe bebia as palavras, concluiu em voz alta que Seguro «não [cumpria] os requisitos mínimos».
Nem agora parou de destilar veneno: mais valia ter ficado em silêncio. Tal como alguns palradores da pantalha que, em sintonia com Silva, foram disparando farpas ao candidato presidencial socialista, sem lhe reconhecerem pedigree de esquerda. Lá terão também eles (e elas) de enfiar a viola no saco, ensaiando novas piruetas verbais para fingirem que nunca afirmaram o que realmente disseram.
A vingança é um prato que se come frio. Seguro não será pessoa vingativa, mas certamente vai sorrindo. Seja qual for o veredicto que sair das urnas, a vitória sobre os detractores internos já não lhe escapa.

