Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Sebastião, de grata memória

por Pedro Correia, em 11.02.18

1198678[1].jpg

 Sebastião Fernandes (1947-2018)

 

Devo esta nota a Sebastião Fernandes. Ao "senhor Sebastião" ou simplesmente Sebastião, como era assim chamado por muitos clientes que o iam acompanhando de restaurante em restaurante. Alguns desde o desaparecido Velha Goa, em Campo de Ourique - pioneiro dos estabelecimentos de comida goesa na capital, numa época em que Lisboa estava muito longe de ser o actual mostruário de gastronomia transnacional.

Na segunda metade da década de 80 fundou o Cantinho da Paz, que continua a ser lugar de romagem obrigatória para gastrónomos de diversos quadrantes. Já este século, inaugurou a Casa de Goa, de existência efémera, na Calçada das Necessidades. Nos anos mais recentes, abriu as portas do Nova Goa, entre a Avenida de Roma e o Campo Pequeno. Era lá que recebia, com a bonomia de sempre, dispensando uma palavra gentil a cada cliente.

 

Como aqui assinalei, era um dos restaurantes onde me habituei a abancar sem necessidade de pedir ementa. Sebastião conhecia a minha preferência pelo magnífico sarapatel da casa.

Em regra, chego cedo aos restaurantes: gosto de ser dos primeiros a ser atendidos, seja ao almoço ou ao jantar. Havia tempo para conversar com o proprietário, senhor de muitas histórias, desde a Goa natal de onde saiu ainda adolescente - paixão e devoção que nunca se lhe apagou da memória e dos afectos.

Conhecia muita gente - da política, da banca, da vida empresarial, do jornalismo, do desporto, dos meios artísticos e intelectuais. Sabia receber todos sem nunca trair confidências: esta é uma regra básica de quem quer singrar no ingrato mundo da restauração.

 

Almocei lá pela última vez num domingo de Dezembro. Achei-o um pouco abatido, talvez em consequência de um resfriado. Trouxe-me o sarapatel, com o delicioso arroz basmati servido à parte. O restaurante ia receber um grupo, dessa vez não houve tempo para conversarmos.

Na mesa ao lado, quatro trintonas obcecadas com dietas consultavam interminavelmente a lista, sem se decidirem. "Detestamos picante. Não queremos nada picante nem muito calórico", disse enfim uma delas, aparente porta-voz do grupo, com ar visivelmente enfastiado. Sebastião, com aquela paciência que apenas os orientais têm e a suave ironia em que são exímios, sugeriu: "Posso fazer-vos um bifinho grelhado..."

 

Faleceu há dias, de morte súbita, aos 70 anos. Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim - embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs - unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.

Devo à grata memória de Sebastião Fernandes outra deslocação ao Nova Goa. Onde talvez pela primeira vez me estenderão a ementa. Embora eu já saiba o que irei comer. E que vinho beberei em sua invocação.

Vão-me fazer falta o seu ar bondoso e a sua palavra inspirada em relatos da antiga Goa colonial e da Lisboa de outras eras. Relatos que davam um livro que muitos gostariam de ter escrito. Eu também.

Autoria e outros dados (tags, etc)


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 11.02.2018 às 10:14

Lembrança bonita dedicada a quem lhe deu bons momentos e, pelo lido, de inesquecível paladar. Mas o senhor Sebastião era um octagenário (se a data estiver certa e eu ainda saiba de subtracções).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 11.02.2018 às 12:25

Obrigado. Havia uma gralha na data de nascimento. Já corrigida.
Perfil Facebook

De Manuel Sousa a 11.02.2018 às 11:34

Comi no "cantinho" várias vezes. década de 80 e 90. Era bom.
Muita inglesada como clientela.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 11.02.2018 às 15:41

Tornou-se um local de referência no seu género. Como hoje acontece com o Jesus É Goês, ali às Portas de Santo Antão.
Perfil Facebook

De Manuel Sousa a 11.02.2018 às 11:36

Manuel sousa é o falecido plumitivo belial, um blogchato...
Sem imagem de perfil

De Fatima MP a 11.02.2018 às 14:21

Uma homenagem assim, tão bonita, é certamente merecida. Fez-me bem essa leitura, a abrir o meu domingo, hoje tão longe de Lisboa. É gratificante confirmar que os sentimentos bons, ou os caracteres bons, não se diluem, numa qualquer mudança de latitude ou longitude, num qualquer pequeno ou grande restaurante de uma qualquer cidade. Sempre haverá alguém que os reconheça e os valorize, e se importe com isso. Bom domingo! Bom Carnaval!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 11.02.2018 às 15:42

Muito obrigado por essas palavras tão inspiradoras e generosas, Fátima.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 11.02.2018 às 19:30

É por estes textos que me dá prazer Ler o Delito de Opinião.
Textos simples mas cheios de alma, parabéns Pedro Correia.
Aqui na província também existem memórias assim pena que (quase) ninguém escreva sobre elas.

WW
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 12.02.2018 às 10:30

Bem gostaria eu de escrever histórias como essas, WW. Obrigado.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 12.02.2018 às 19:54

Oh, não sabia! Era uma simpatia, delicadíssimo. Fez um belo caril para o meu livro, e por causa disso passei a ir muitas vezes à Casa de Goa almoçar, embora já o conhecesse de antes. Depois perdi-o de vista, tenho muita pena que tenha desaparecido.

Comentar post



O nosso livro





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D