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Se eu votasse nas eleições holandesas

por João André, em 14.03.17

Vivo na Holanda, directa (registado como tal) ou indirectamente (registado noutro país mas tendo o domicílio familiar no país) desde Dezembro de 2003. Isto dá-me a possibilidade de conhecer o país um pouco mais que a generalidade dos portugueses e compreender aceitavelmente a sociedade do país. Não me arvoro em especialista. Há coisas nos holandeses que nunca entenderei. Há particularidades de que desgosto profundamente e, confesso, só não estou fora do país porque circunstâncias familiares têm conspirado para que isso não suceda.

 

Isto não quer dizer que a Holanda seja um país mau. Pelo contrário. É ordeiro, com baixos índices de criminalidade, ruas limpas, pessoas essencialmente educadas, muito pouca pobreza, bons sistemas sociais, etc. Se uma pessoa aceita os preceitos sociais (e o clima), o país é excelente para viver e será mesmo dos melhores possíveis. Só acontece que não se coaduna com a minha personalidade.

 

É por isso que nunca pedi a nacionalidade holandesa, apesar de ser capaz de preencher todos os requisitos para tal. Por isso e porque para o fazer teria que perder a nacionalidade portuguesa, algo que não contemplo em favor da holandesa. Se tivesse a nacionalidade, teria amanhã a possibilidade de votar nas eleições holandesas.

 

 

As eleições

Não farei nenhuma análise detalhada das eleições. Não vale a pena e há muitos meios melhores para o fazer, com análises independentes ou ao sabor de preferências político-ideológicas. O panorama político holandês é algo suis generis com o seu círculo único nacional e representação independente a permitir que os partidos elejam deputados com votações muito baixas. O actual panorama político está altamente fragmentado, com 28 partidos, o que no actual sentimento de revolta contra os partidos tradicionais garante que nenhum partido poderá governar sem uma larga coligação.

 

Até recentemente o partido que vinha a liderar as sondagens era o PVV (Partij Voor de Vrijheid, Partido da Liberdade) de Geert Wilders. Mais recentemente parece ter perdido a liderança nas sondagens para o VVD (Volkspartij voor Vrijheid en Democratie, Partido Popular para a Liberdade e Democracia), liderado pelo actual primeiro-ministro, Mark Rutte. As sondagens valem o que valem e hoje em dia isto ainda será mais verdade que no passado, mas o PVV tem uma história de desempenhos piores nas eleições que em sondagens. O seu declínio recente estará também muito ligado à recusa de Wilders em fazer campanha após indicações de riscos para a sua segurança (há já mais de uma década que vive sob protecção policial 24 horas por dia).

 

Isto no entanto poderá convir a Wilders. Ele sabe que nenhum partido estará interessado em governar com ele (ou sequer com o seu apoio). No passado o PVV deu apoio parlamentar a outro governo para o retirar quando lhe conviu. O PVV é um partido de protesto e estar ligado ao governo não lhe interessa, a não ser que possa fazê-lo sem necessidade de coligações.

 

Estas eleições estão marcadas essencialmente pelo assunto da emigração. Rutte escreveu recentemente uma carta aberta onde convidava os estrangeiros que não aceitassem os "valores holandeses" a saírem. Wilders tem vindo a radicalizar-se cada vez mais nos últimos anos e a simplificar ao máximo o seu pensamento (sic). O seu manifesto eleitoral tinha uma simples página, nenhum detalhe e apenas apresentava valores contrários à democracia e liberdade.

 

Falar destas eleições obriga a falar do PVV. E falando do PVV temos que falar de Wilders, uma vez que aquele não existe sem este. Wilders saiu do VVD quando se começou a radicalizar e fundou um partido que é uma fundação e tem apenas um membro: ele próprio. Os outros "membros" do PVV são apenas figuras de cera que levantam o braço quando Wilders ordena e provavelmente não terão opinião própria sem Wilders a sancionar. O próprio Wilders, que faz campanhas sob a égide de ser "diferente", é dos deputados com mais tempo de parlamento, não tendo tido qualquer existência fora da política. É um amontoado de ódio, populismo (no passado, além dos muçulmanos, insurgiu-se contra os polacos) e contradições.

 

O VVD para mim não é excepcionalmente melhor. Rutte tem derivado fortemente para a direita e para posições populistas, de que a carta é um exemplo. Num país que conseguiu conter uma crise crescente (apesar de beneficiar imensamente da política do BCE), tem baixo desemprego, está em crescimento e continua a inovar, Rutte não deveria estar a preocupar-se em ocupar o território de Wilders. Deveria antes explicar aquilo que está a correr bem e aquilo que está em causa votando na xenofobia do PVV. Só que os seus instintos, que também ficaram bem à vista com as suas atitudes perante a crise do Euro, não vão nesse sentido.

 

Após as eleições Rutte poderá ter que acabar a escolher entre o PVV ou o GroenLinks para governar. A forma como escolher poderá condicionar o futuro da Holanda, mas também o da Europa. Se optar, apesar do que disse no passado, por Wilders, poderá ter que pagar o preço com um referendo à UE. E isso poderia ter consequências imprevisíveis. A ver vamos, até porque ainda há muitos indecisos e há estimativas que apontam para 15% de eleitores só decidirem o voto no próprio dia.

 

O meu (não) voto

Dos partidos existentes penso que me aproximarei mais do D66, um partido liberal e de esquerda. O PvDA (os trabalhistas) e o GroenLinks (VerdeEsquerda, ecologistas) também estão perto das minhas posições. Foram estes 3 os partidos que me ficaram mais próximos quando segui o teste do StemWijzer, que ajuda os eleitores a decidirem o seu voto ao responderem a questões e comprarem as suas respostas com as dadas pelos partidos. Já no passado, quando fiz um teste semelhante para as eleições europeias, descobri que o partido em toda a Europa do qual as minhas posições mais se aproximavam era precisamente o D66.

 

Não é um partido que vá vencer. Tem posições pouco populistas e não necessariamente populares. Mas cumpre a sua função de uma certa consciência e isso, num sistema como o holandês, basta-me. E no panorama actual poderá acabar no governo através de uma coligação.

 

Nisto estou muitíssimo longe da opinião de Rentes de Carvalho (RC). Ele escolheu, como também cidadão holandês, votar no PVV. Pessoalmente não considero incoerente para um imigrante votar em Wilders. Pode-se ser contra a imigração ou, neste caso específico, contra a emigração de muçulmanos. É talvez estranho, é certo, mas perfeitamente possível. Estou no pólo oposto mas isso é diferente. Aquilo que me choca é como é possível alguém que quer exercer um voto de protesto escolhe alguém que dificilmente poderia se rmais establishment, como pode esperar oposição construtiva de quem não vai a debates nem aceita outros filiados, como é possível viver há tanto tempo no país e pensar que os cuidados de idosos, deficientes e pobres é insuficiente (ainda se pensasse nas mulheres...) e depois julgar que Wilders vai ligar um chavelho a tais coisas.

 

No passado tive uma ou outra divergência com Rentes de Carvalho. Tendo menos anos de Holanda não vejo razão para o desafiar, mas sempre ficou a impressão que as minhas experiências com holandeses é distinta. Hoje estou ainda mais convencido de tal. Não que faça diferença, afinal de contas, cada um não é mais que o somatório das suas experiências. Mas deixo aqui a minha perspectiva em contraponto. O meu voto, certamente, nunca iria para Wilders. O de Rentes de Carvalho, independentemente do que pense, irá contra o seu interesse pessoal e o do país que ele adoptou e o adoptou a ele. Só espero que não haja muitos holandeses a segui-lo.

 

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3 comentários

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De Costa a 15.03.2017 às 00:36

Uma pergunta que pouquíssimas vezes vejo formulada é aquela pela qual, e sem um prévio elenco de precisões cautelares e distanciadoras de quem se ocupe do tema, se procure, mais do que questionar o bom senso, a lucidez, os pergaminhos democratas, a simples inteligência mais elementar, perceber porque votam como votam, ou se antevê venham a votar, tantos milhões de pessoas.

Serão todos irremediavelmente estúpidos (muito que seja passatempo consagrado ridicularizar "os americanos") e fascistas os milhões que votaram em Trump? O mesmo se pergunte quanto ao que pode acontecer em França. Ou, claro, na Holanda e outras paragens. Até, em analogia não muito forçada, o recente resultado no Reino-Unido.

O que leva tanta e tanta gente a aceitar, mesmo que como "protesto", essas opções, claramente de corte, de "murro na mesa" mesmo que a todo o custo, com custos enormes, potencialmente esmurrando multidões sem culpa?

Um subitamente renascido e razoavelmente generalizado fascínio pela estética fascista, já por aqui mencionada, e a sua ideia - como a da estética comunista, conviria não ignorar, partilhando tronco genealógico - de um Homem Novo? Mas por onde anda um pujante movimento intelectualmente organizado de proselitismo fascista, descendo até às bases (por cá, até, constitucionalmente proibido)?

O desespero perante a política tradicional e o seu cortejo, por estes anos tão exuberante, imutável e largamente impune de ruína, de corrupção, de nepotismo, de clientelismo, de casta, de ascensão à fortuna de gente a quem se não confiaria, fora dela, uma qualquer banalíssima responsabilidade?

Uma urgência de defesa perante uma comunidade que cresce robustamente e se guia por uma "estética" que nada tem a ver com a que moldou a (ainda) maioria europeia ou ocidental, que nada tem a ver com ela e se lhe opõe objectivamente, que manifesta largamente bem pouca apetência por um mínimo de integração, que usa empenhadamente das liberdades e dos direitos cívicos próprios das terras a que chegou para proclamar a missão sagrada de nelas fazer imperar valores em absoluto incompatíveis com tais liberdades e direitos?

Em que difere então a intolerável radicalidade (de "direita", evidentemente...) de um político holandês, da ameaça de um clérigo muçulmano que afirma o futuro islâmico das Ilhas Britânicas ou a reconquista do Al-Andaluz (sem que se ouça e veja uma minimamente proporcional rejeição pública por parte da sua própria gente)? Porque arrepia, num tremendo frémito de indignação, a primeira as supostamente boas consciências e a segunda não lhes produz o menor tremor, ou é mesmo aceite por conta de não sei que nunca expiada culpa ocidental ou cristã (por isso ou já nem se sabe por que dogma).

Costa

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De Einstürzende Neubauten a 15.03.2017 às 13:47

Sim. A estupidez é o bem melhor distribuído. O mais democrático
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De Costa a 15.03.2017 às 17:21

Valham-nos então os Neubautens deste mundo, a quem caberá a incompreendida missão de guiar paciente e paternalmente as legiões de cretinos sempre ingratos que ousam chamar-se cidadãos e reclamar o que por tal condição lhes é legítimo.

Você até tem alguma razão: a estupidez é entre o povo coisa, parece, de distribuição universal e copiosa. Então por cá... É-o entre o povo e é descaradamente fomentada e explorada quanto mais o poder (veja-se o nosso actual) é desprovido do menor pudor, da mais remota réstia de honestidade.

Ora seguindo o seu raciocínio até às suas naturais e derradeiras consequências, acabe-se então com a democracia. Desde logo poupa-se ao povo o esforço sempre aborrecido de se educar e instruir, e isenta-se o poder, expressamente e sem hipocrisias, da maçadora obrigação de aparentar o respeito por valores tido como civilizacionais. E organize-se a sociedade de forma cristalinamente simples: uns obedecem ou levam pancada e sabem que sempre será assim; outros ordenam e dão pancada, como e quando querem, e sabem que sempre o poderão fazer.

Perfeito, simples, de funcionamento escorreito e sem a chatice - tomando como mero exemplo o caso em apreço - de haver gente a votar em holandeses "de extrema direita" e ainda por cima com o desplante inadmissível de o afirmar. Coisas, uma e outra, a que parece ser imperativo de higiene elementar pôr fim (mas entendo, do que escreve, que, por exemplo, os fanáticos do Islão permanecerão livres de nos querer converter a todo o custo, e impor os seus costumes, na nossa terra).

Quererá você, já agora - e com igual e lapidar poder de síntese -, iluminar-nos quanto às que sejam as ditaduras aceitáveis (melhor, urgentemente desejáveis). Já sabemos que fascistas, não.

Costa

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