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Saramago e o Portugal de sempre

por Pedro Correia, em 08.10.18

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Vivi com José Saramago um dos momentos mais gratificantes da minha vida profissional. Aconteceu em Maio de 1981, quando o Círculo de Leitores, a propósito do lançamento da sua Viagem a Portugal, convidou um grupo de jornalistas a acompanhar o escritor numa deslocação ao interior do País em que ele próprio fez de cicerone. Foram três dias à descoberta de um Portugal que muitos de nós desconhecíamos, com etapas em locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe. Eu era um miúdo, ainda a dar os primeiros passos na profissão, e talvez por ser o benjamim do grupo tive mais facilidade em travar longos diálogos com o escritor. No início daquela que seria talvez a década mais feliz da sua vida, Saramago estava ainda longe do reconhecimento público de que gozou mais tarde. Estivera longos meses desempregado, na sequência do 25 de Novembro de 1975, e aplicara toda a sua férrea força de vontade na escrita. Desse labor nasceu a obra que confirmaria a sua vocação de romancista: Levantado do Chão, lançada meses antes.

Mas esses, para o futuro Nobel da Literatura, ainda eram tempos de incerteza. O êxito de Levantado do Chão não foi imediato: o romance foi maturando entre o público e só ganhou projecção à medida que se sucediam as críticas favoráveis, com semanas de intervalo. O lançamento da Viagem a Portugal ocorreu nessa altura em que conheci pessoalmente Saramago e fui testemunha directa da paixão que o escritor tinha pelo País. Aqui e ali, revoltava-se com atentados notórios à nossa memória histórica. Uma vez e outra, maravilhava-se perante jóias do nosso património natural e cultural, procurando transmitir esse deslumbramento aos seus companheiros de jornada.

 

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Publicada a reportagem no jornal onde então trabalhava, liguei ao escritor, pedindo-lhe uma entrevista. E ele acedeu de pronto. Era o tempo do balanço de Levantado do Chão, o Memorial do Convento vinha a caminho. Longe da imagem pública que transmitiu nos anos posteriores, Saramago era uma pessoa tímida, que procurava disfarçar essa característica - reflectida também numa ligeira gaguez - com um rosto fechado e até um pouco duro. Mas os seus traços fisionómicos logo se suavizavam à medida que a conversa progredia e se estabeleciam pontos de contacto com o interlocutor. Lembro-me de lhe ter dito na altura que também o apreciava como poeta: os seus Poemas Possíveis (1966), que lera pouco antes, deixaram-me uma excelente impressão. "Agradeço-lhe, mas sei que nunca serei mais do que um poeta mediano", disse-me. Não voltou a editar outro livro de poesia.

Depois dessa longa entrevista, seguiu-se outra, por ocasião do lançamento d' O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Guardo uma grata memória de uma tarde passada no seu apartamento na Rua da Esperança, em Lisboa, com a conversa a fluir para o gravador ao som das partituras de Bach e Mozart que enchiam a casa. Era já evidente, nessa altura, a consagração literária do escritor que 14 anos mais tarde se tornaria o único autor em língua portuguesa até hoje distinguido pela Academia de Estocolmo.

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Saí de Portugal, andei longos anos fora. Só voltei a ver José Saramago depois do Nobel, quando o escritor foi recebido no Diário de Notícias com uma estrondosa ovação dos jornalistas, por iniciativa de Mário Bettencourt Resendes, então director do jornal. Um gesto que pôs fim simbólico a uma traumática etapa da vida do centenário periódico onde Saramago, enquanto director-adjunto, escreveu alguns dos mais inflamados editoriais do Verão quente de 1975 - textos que o perseguiram durante o resto da vida.

Nunca partilhei das ideias políticas de Saramago nem apreciei um certo culto narcísico que o escritor foi alimentando nos anos imediatamente anteriores e posteriores ao Nobel, aliás bem patentes em dezenas de páginas dos seus Cadernos de Lanzarote. Alguns dos seus livros são projectos falhados, como Jangada de Pedra ou A Caverna (que deixei a meio, farto de tanto ataque primário ao "capitalismo"). Mas é incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.

Mas o meu livro preferido será sempre a Viagem a Portugal: costumo ter à mão e consulto com frequência o meu exemplar da primeira edição, com uma amável dedicatória do autor. Recordação daqueles três dias inesquecíveis e testemunho perene do amor de José Saramago pelo Portugal profundo, pelo Portugal de sempre.

 

 

Texto reeditado no dia em que se assinalam 20 anos da atribuição do Nobel da Literatura a José Saramago

 

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28 comentários

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De Sarin a 08.10.2018 às 10:57

Quando iniciei a leitura, pensei "mas... já li isto!" e continuei a ler sabendo que era a terceira ou quarta vez - há postais que se relêem na própria altura em que se lêem.

Este mostra um outro lado, companheiro e cúmplice, de Saramago, escrito por um jornalista de um espectro político oposto - nota que, se sobre outros escritores seria irrelevante, sobre Saramago diz muito. Sobre quem escreveu o postal, também.

Acho que não comentei o texto original, na altura da publicação original a blogosfera não era esfera que gravitasse e quando o (re)li seria extemporâneo. Fica agora a devida vénia à sua capacidade, Pedro, de ver artistas e homens para lá de bandeiras.
Um bonito texto, também.

Sugeriria fotos da viagem numa próxima edição, Pedro, e espero que não veja crítica às usadas :)
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:55

Obrigado pelas suas palavras, Sarin.
O texto original é de 2010. O ano da morte de José Saramago.

(Quanto às fotos: boa sugestão, um dia destes sou capaz de reproduzir algumas aqui.)
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De Sarin a 08.10.2018 às 22:24

(Não tem de esperar pelo fim do desfile de estátuas, tem?
Ficava bem ali na crise de 1383-1385, até pelo simbolismo: o despontar da Dinastia de Avis e da nossa futura Ínclita Geração, a alvorada do Escritor e do nosso futuro Segundo Nobel... pode não ser uma boa frase de marketing, mas pelo menos tentei )
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 22:27

Para já, Sarin, prioridade total às estátuas.
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De Sarin a 08.10.2018 às 23:23

Perfeitamente compreensível e até desejável.

Apenas adejei uma simultaneidade, e lamento se não fui clara.
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De Luís Lavoura a 08.10.2018 às 11:05

o Portugal de sempre

Acredito que Marialva e Sortelha não estejam muito diferentes daquilo que eram em 1981. (Mas não é bem assim: eu conheci Marialva pela primeira vez em 1985 e voltei lá em 2017 e, bem, há algumas diferenças notórias, a começar pelos alojamentos turísticos ao pé do castelo.) Mas o Portugal de hoje não é o de sempre, há enormes diferenças em relação ao de 1981. A começar, precisamente, pelo facto de que muitos desses locais recônditos que o Pedro visitou com Saramago são hoje em dia destinos turísticos muito procurados. E muitas outras diferenças.
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:56

Ainda bem que existem essas diferenças, Luís Lavoura. Algo que muito me satisfaz.
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De Luís Lavoura a 08.10.2018 às 11:12

locais deslumbrantes, como Sortelha, Marialva e Cidadelhe

Cidadelhe não sei onde fica. No google maps só encontro um local com esse nome ao pé do rio Coa, mas não vejo que possa ter de interessante. E essa Cidadelhe? Ou há outra? E qual o interesse dela?
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:53

Está sempre a tempo de visitar.
Deixe lá o "Google Maps" e as ciclovias do Medina e faça-se à estrada para conhecer o país real.
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De Pedro a 08.10.2018 às 11:28



Esperemos pelos comentários anti-comuntários...
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De Rão Arques a 09.10.2018 às 08:48

Nem sem pedido por respeito a quem escreveu o texto.
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:52

Não houve disso, Herr Pedro.
Pelo menos até agora.
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De Sarin a 08.10.2018 às 22:37

Mas houve no original, se bem me lembro do que li há uns anos (mas não em 2010)


Entretanto já muita boa gente fez as pazes com a memória do escritor mesmo que não com a do homem, e outra tanta boa gente percebeu que nisto de prémios internacionais o país também leva holofotes - depois de Julho de 2016 aguns terão pensado "se perdoo ao FS as bolas e os pontos perdidos, porque não hei-de perdoar ao Saramago o perder pontos e vírgulas?"

Se bem que ache que parte do seu génio reside também aí, escrever com sentido sem ajuda de pontuação.
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De Anónimo a 09.10.2018 às 10:19

Sarin, mas o Saramago não perdeu pontos e vírgulas. Aliás o que não falta nos livros dele são as vírgulas e os pontos
O que causa estranheza é ele usá-los nos diálogos em vez do clássico "dois pontos, parágrafo, travessão".
Isso é que faz confusão ao princípio, são aqueles diálogos entre vírgulas; e uma maiúscula a seguir a uma vírgula indica que já é outra personagem a falar.
Depois de percebermos isso, a leitura flui e é magnífica.
Ainda ontem ouvi o MST dizer na TVI que o Saramago escreve sem pontuação. Não é verdade, escreve é com pontuação diferente - daí o ter criado um estilo.
Maria
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De Sarin a 09.10.2018 às 16:51

Um bom esclarecimento, Maria. :)

Brinquei com a pontuação no embalo da bola (senti-me em relação ao Euro como alguns se sentiram em relação a Saramago escritor), mas é verdade que, não lhe dando o uso clássico, Saramago usou pontuação. O "dois pontos travessão" havia caído antes de Saramago, talvez, pois não foi o que estranhei ao ler o Memorial, ou talvez os meus 12 anos se adaptassem mais facilmente a novos estilos; mas foi antes a construção das frases que me deu um mundo novo - percebia o fim na mudança do ritmo da frase, como um desviar de atenção para outro objecto. Ainda hoje, várias leituras e releituras depois, é o que identifico. Melhor não consigo explicar
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De Anónimo a 08.10.2018 às 12:58

Já tinha lido esta cronica no livro "Delito de Opinião". Embora não aprecie José Saramago, gostei de ver uma faceta da autenticidade do escritor através da "pena autêntica" de outro escritor...
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:51

É a minha visão dele, tal como o conheci ainda de se ter tornado "celebridade" (detestável palavra, cada vez mais desvalorizada).
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De Anónimo a 08.10.2018 às 14:02

Lembro-me deste texto (ou um semelhante) publicado há uns anos e de ter feito alguns comentários.
Provavelmente terei dito que este foi um dos livros que me incentivou a percorrer o nosso país em busca das maravilhas escondidas em vilas e aldeias, já que as das cidades estão mais à vista.
Pedro, apenas um rectificação no que à poesia diz respeito. Saramago publicou um outro livro de poemas: "Provavelmente Alegria".
Maria
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:50

Na altura, só tinha lido ''Os Poemas Possíveis", Maria.
E gostei muito desse livro.
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De Miguel a 08.10.2018 às 20:04

A propósito do José Saramago e da sua poesia, aqui ficam duas que foram musicadas pelo Luis Cília:

Dia Não: https://www.youtube.com/watch?v=dlv418Bm_A8

Não me peçam razōes: https://www.youtube.com/watch?v=LJf8La6v2Xg
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De Pedro Correia a 08.10.2018 às 21:49

Conheço. E gosto.
Continuo a ser, aliás, grande apreciador da poesia de Saramago, que devia ser mais divulgada. Muitos dos poemas dele são já metade de canções: têm uma musicalidade muito própria.
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De a 09.10.2018 às 00:49

Também para leitores de palmo e meio escreveu Saramago;

(...) Correram tudo, já em lágrimas tantas,
e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos
e viram ao longe uma flor enorme que ninguém
se lembrava que estivesse ali.

Excerto do livro infantil - A Maior Flor Do Mundo de José Saramago com ilustração de João Caetano.
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De jpt a 09.10.2018 às 01:11

é um belo texto, mas repito-me ao dizê-lo
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De Anónimo a 09.10.2018 às 06:34

Na Caverna ao contrário da caverna vê-se a luz quando se chega ao fim.

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