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Sabores da Memória

por Francisca Prieto, em 25.05.15

Covó.jpg

 

Um dia destes, durante um almoço em casa da minha mãe, alguém se atreveu a invocar o santo nome do rolo de bacalhau da Covó em vão. E digo em vão porque não há quem dê com a famosa receita. 

Do meu lado, era capaz de jurar que estava guardada numa caixa rectangular, daquelas de lata, ensanduíchada entre um papel rascunhado com o segredo das filhoses de abóbora e outra nota com indicações para os ovos enrolados. A minha mãe jura que se perdeu nas brumas das arrumações. O problema foi que, depois de enunciada a fatídica lembrança, as papilas gustativas de toda a família desataram a salivar em excessos saudosistas.

Com muita pena, não cheguei a conhecer a Covó: uma tia-avó a cheirar a bolo que se despediu do mundo poucos meses antes de eu chegar. Mas o rolo de bacalhau, graças a Deus, foi perpetuado por mais um rol de tempo pela Céu, uma empregada da minha avó que tinha um lugar tão seguro nos nossos corações que até passava os Natais connosco.

Acontece, porém, que a Céu foi viver para a terra vai para mais de 20 anos e o que é certo é que nunca mais ninguém meteu o dente num rolo de bacalhau daquela categoria.

Vai daí que o meu irmão, depois do incontornável almoço, alinhavou meia dúzia de indicações da minha mãe e resolveu encetar a empreitada de delegar na Patrocínia, uma cozinheira de mão-cheia, a reconstituição da famosa iguaria.

Foram-se fazendo experiências. Primeiro estava atirar para o soufflé, depois ficou abatatado em demasia e, por fim, lá pela quarta tentativa, já se tinha conseguido uma aproximação bastante razoável. Mas, confessava o meu irmão, se era certo que se tinha acertado na textura, ao sabor ainda lhe faltava qualquer coisa. Um tempero, um ingrediente, uma qualquer especiaria que ele não conseguia identificar mas que remetia irremediavelmente esta versão para a segunda divisão dos rolos de bacalhau.

Fui forçada a chamá-lo à razão. O ingrediente que ele procurava era a essência da Covó e da Céu. E isso ainda não é coisa que esteja à venda no Pingo Doce.


4 comentários

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De xico a 25.05.2015 às 23:01

É sempre perigoso metermo-nos em coisas de família, mas aqui fica a minha sugestão.
Em Sintra compram umas queijadinhas e mais uns travesseiros e ponham-se a caminho da terra da Céu. Fazem-lhe uma surpresa e, como quem não quer a coisa, pedem-lhe a receita. A Céu fica contente com a visita e com os mimos, e de certo não se recusa. Quem sabe até a podem encontrar no facebook? Vai que ela aprendeu na junta de freguesia a interagir nas redes sociais?
Aqui fica a sugestão. E já agora. Partilhem a receita...
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De Francisca Prieto a 25.05.2015 às 23:12

Ai, Xico, que se me ponho a fazer as contas vou rapidamente chegar à conclusão de que ou a Céu ou já morreu ou há-de ter uns 110 anos, o que é muito pouco provável.
Mas fica-nos cá o rolo de bacalhau no coração, mesmo ao lado das farófias imbatíveis. Que saudades, meu Deus.
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De Anónimo a 26.05.2015 às 23:49

Experimente o rolo da (minha) avó, quem sabe se é a mesma receita:

3 postas de bacalhau
1,5kg de batatas
1l de molho béchamel ou molho branco
2,5dl de azeite
2 boas cebolas
3 bons dentes de alho muito picadinhos
salsa q.b.
Cozem-se as batatas com a pele e o bacalhau. As batatas muito bem lavadas e o bacalhau demolhado à parte para se lhe aproveitar um bocadinho da água para fazer o molho. Faz-se um bom refogado sem o alourar, pondo-lhe os alhos e salsa e o azeite. Junta-se-lhe o bacalhau sem espinhas e sem peles e deixa-se refogar muito devagarinho enquanto se descascam as batatas que se passam no passador e se juntam ao refogado. Depois de tudo bem misturado, rectificam-se os temperos e se estiver muito dura a massa, pode-se juntar com vantagem um bocadinho de leite e até claras batidas em castelo que a torna bastante fofa. Volta-se o tacho num guardanapo polvilhado de pão ralado, espalha-se e recheia-se com o molho que já deve estar feito e frio para estar consistente e enrola-se com o auxílio do guardanapo e vae ao forno a alourar. Serve-se quente com legumes ou salada, conforme o gosto.
Molho:
80g de manteig
60g de farinha de trigo
1l de leite (mais precisamente, metade leite, metade água de cozer o bacalhau)
sal e pimenta q.b.
Derrete-se a manteiga em lume brando juntamente com a farinha, mexendo sempre. Quando começar a alourar vai-se juntando o leite quente, mexendo sempre até levantar fervura. Ferve em lume brando 1/4h.
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De Francisca Prieto a 27.05.2015 às 08:58

Obrigadíssima pela sugestão. Vou comparar as receitas e ver no que dá.
Um abraço

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