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Saber escrever, saber escutar

por Pedro Correia, em 04.04.18

beingthere06B[1].jpg

 

É infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem que um livro estrangeiro, quando é traduzido para o nosso idioma, torna-se de algum modo um livro português, sujeito às nossas regras gramaticais, à sintaxe que utilizamos e à própria musicalidade da escrita que foi sendo fixada ao longo de séculos por figuras com a dimensão de um Camões, um Garrett, um Camilo, um Pessanha ou um Pessoa.

Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.

 

Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito específica, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical.

Não sabe escrever quem não sabe escutar.

 

O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.

Um exemplo básico:

"Clara went away. She left everything behind."

Não faz sentido traduzir este trecho assim:

"Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si."

Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:

"Clara partiu. Deixou tudo para trás."

 

 

A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente "naturais" ou "realistas" das telenovelas e os diálogos da vida real:

- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.

São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.

 

A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.

É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, "ganharam" qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars -- que alguns garantem ser superior ao original.

MPW-54606[1].jpg

 

Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. Ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma colagem de vocábulos.

Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou numa expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. "Levado (ou levada?) pelo Vento", tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.

E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é "Welcome, Mr. Chance".

Não é: chama-se Being There.

Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado "Estando Ali"?

 

Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance


36 comentários

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De Luís Lavoura a 04.04.2018 às 10:38

- Ó João, vamos sair esta noite?
- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.
- Ó João, mas tu tinhas prometido...
- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.
[...] Único problema: ninguém na vida real fala assim.


É um facto que raramente na vida real se fala assim. Mas também é verdade que é muito simpático colocar nalgumas frases o nome da pessoa a quem elas são dirigidas, porque nada é tão agradável a uma pessoa como ouvir outra dirigir-se-lhe pelo nome. Dizer "João" irá soar muito bem aos ouvidos do João, e a Maria sentir-se-á deleitada por ouvir alguém dizer-lhe "Maria".
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De Pedro Correia a 04.04.2018 às 11:17

Tem a certeza, Luís?
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De amendes a 04.04.2018 às 14:16

-- Ó lavora,foste à m*** como eu te mandei?
--- Não querida Rosinha, não tinha papel-higiénico...
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De Anónimo a 17.04.2018 às 14:52

O padre da minha paróquia/freguesia trata, dizem, todas as mulheres por Maria. Ó Maria isto, ó Maria aquilo, mesmo sabendo que a fulana tem outro nome, daqueles que nem sequer têm Maria. Tenho andado a pensar que o padre lhes deveria chamar, muito simplesmente, Ó mãe de Jesus.
Assim, a Andreia Vanessa, por exemplo, andaria todo o resto do dia a cismar: Porque é que o padre me chamou "ó mãe de Jesus". Queres vêr que o gajo me chamou Maria?
E, assim, a Andreia Vanessa sentir-se-ia deleitada por ouvir alguém chamar-lhe "Maria". (Ai que meloso que ficou este comentário pimba).
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De Maria Dulce Fernandes a 04.04.2018 às 10:43

Excelente, Pedro. Subcrevo até ao último ponto de interrogação.
Cada língua tem a sua musicalidade e uma riqueza muito própria. Tem as suas expressões idiomáticas, os seus ditos e até mesmo os seus estrangeirismos, que não podem ser traduzidos à letra. Um bom tradutor tem que ter sensibilidade e grande conhecimento da língua, não apenas por a ter escrutinado profundamente no seu estudo, no seu mestrado, mas também acrescentando alguma vivência e convivência no país de origem ou com naturais do mesmo, para lhe aprender as subtilezas que as aulas e os livros não ensinam. Por vezes uma inflexão errada altera todo o sentido de uma frase. Falar e escrever naturalmente por vezes obriga a flexibilizar um pouco as regras sem nunca trucidar a língua.
Os diálogos televisivos têm um público alvo, são para consumo instantâneo : basta juntar água e mexer. Parecem fatias de queijo light com sabor a PVC.
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De Pedro Correia a 05.04.2018 às 09:20

Se não fosse tão cedo, cara Dulce, brindaria ao seu comentário com "vinho vermelho".
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De Sarin a 04.04.2018 às 10:59

Talvez a minha ausência forçada me tenha feito perder postais sobre o tema, mas finalmente ei-lo!

Questiono-me bastas vezes porque se dará tão pouca atenção aos tradutores, principais responsáveis pelas portas abertas na literatura ou pela limpeza da máquina de café. Responsáveis pelo excelente e culpados pelos atropelos, desvirtuamentos e avarias de máquinas e semântica.

Traduzir é muito mais do que tornar perceptível um texto - é transpôr todo um pensamento para uma outra cultura sem destruir a ideia que o originou.
Nem que chovam cães e gatos, é este um caminho que não admite nem pressas nem atalhos. And hair yes, hair no, mais vale perceber o autor antes de tentar o google translator.
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De Pedro Correia a 05.04.2018 às 12:47

Isso mesmo. Nem que chovam gatos e cães.
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De Sarin a 04.04.2018 às 11:01

Só pode traduzir correctamente quem pensa em ambas as línguas. É a diferença entre traduções automáticas e traduções automatizadas.
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De Cristina M. a 04.04.2018 às 11:37

concordo inteiramente.
daí, traduzir poesia será o expoente máximo da competência de um tradutor.
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De Pedro Correia a 05.04.2018 às 12:46

Alguns deviam até começar por aí, Cristina.
Começar e terminar, acrescento eu.
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De Vlad, o Emborcador a 04.04.2018 às 13:41

Concordo. Traduzindo para os dias corridos de hoje:

"- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo."
------------------------------


- Estou farta de estar enfiada em casa. Queres sair?

- O quê? Ir outra vez ao Centro Comercial?

- Olha-me este!! Muito fino.

- Não me chateies!

- Bardamerdas!

(João sai de casa com estrondo )

(Maria chora . Sai de casa para comprar uma nova mala , em promoção, que viu a semana passada na Bimba y Lola)

À noite fazem as pazes dando uma queca. Os avós ficaram com os miúdos

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De Anónimo a 05.04.2018 às 12:32

isto aqui até começa a ter imensa graça...,não pertence ao "guião" pois não?! Vê-se logo ...
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De Vlad, o Emborcador a 04.04.2018 às 14:19

- Ó João, vamos sair esta noite?
- Não posso, Maria. Não tenho trabalho.
- Ó João, mas tu tinhas prometido...
- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo. Estou sem guito. Só se sairmos para a varanda.

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De Anónimo a 04.04.2018 às 18:02

... E eu a pensar que era falha minha, afinal não... ups!
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De xico a 04.04.2018 às 22:45

Nunca me esquece, já lá vão muitos anos, num filme em língua inglesa, e perante um par de cães em porcelana, alguém traduziu "china dogs", por cães chineses. Nem quero ver como traduzirão: I have to go to the john.
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De Pedro Correia a 04.04.2018 às 22:51

Digamos que a lógica é semelhante à de um "tradutor" de português para inglês que, deparando-se com a expressão "chamar o Gregório", se apressaria a escrever "to call Gregory".
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De Vlad, o Emborcador a 04.04.2018 às 23:01

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De a 05.04.2018 às 09:17

Pedro, convenhamos que "to call Gregory" é "muito mais bem"!
Obrigada pela boa
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De Pedro Correia a 05.04.2018 às 09:18

Eheheh. Vou ali chamá-lo e volto já, Té.
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De V. a 05.04.2018 às 00:38

Além de que "Clara foi embora" está errado. É português dos macacos. Diz-se e escreve-se "Clara foi-se embora". Se não se escreve bem e ensina gramática, os trogloditas e os comentadores desportivos nunca terão uma oportunidade de aprender e subir nos índices de desenvolvimento humano. É para isso que serve a escola: para elevar as pessoas da trampa primordial que os socialistas confundem com o futuro da humanidade.
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De Pedro Correia a 05.04.2018 às 09:19

Será essa Clara a Ferreira Alves?

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