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Saber escrever, saber escutar

por Pedro Correia, em 02.08.14

 

O Joel Neto escreve aqui algo que há muito penso também sobre tradução: é infelizmente cada vez maior o número daqueles que entre nós cultivam a tradução literal de textos literários, à margem de considerações estéticas, como se estivessem a traduzir um relatório árido e burocrático. Sem entenderem, como o Joel salienta -- e muito bem -- no diálogo com um leitor na caixa de comentários do seu blogue, que "um livro inglês traduzido para português é um livro português. As únicas regras a que tem de submeter-se são as do português. Inclusive do ponto de vista melódico".

Não perceber isto é nada perceber de essencial nesta matéria.

 

Qualquer texto em português, ainda que possua matriz estrangeira, torna-se património da nossa língua. Com as suas particularidades, o seu ritmo, a sua semântica muito própria, a sua inconfundível eufonia. Porque cada idioma tem a sua própria cadência musical. Não sabe escrever quem não sabe escutar.

O sujeito elidido ou subentendido é uma dessas características que conferem subtileza ao nosso idioma. Enquanto noutras línguas, designadamente o inglês, as regras determinam a menção expressa do sujeito, a nossa regra impele-nos à omissão do nome ou até do pronome assim que ele nos tenha sido apresentado.

Um exemplo básico:

"Clara went away. She left everything behind."

Não faz sentido traduzir este trecho assim:

"Clara foi embora. Ela deixou tudo atrás de si."

Mas já fará sentido traduzi-lo desta maneira:

"Clara partiu. Deixou tudo para trás."

 

 

A propósito, não sei se já repararam. Esta é uma das maiores diferenças entre os diálogos pretensamente "naturais" ou "realistas" das telenovelas e os diálogos da vida real:

- Ó João, vamos sair esta noite?

- Não posso, Maria. Tenho que trabalhar.

- Ó João, mas tu tinhas prometido...

- Eu sei, Maria. Mas não posso mesmo.

São duas pessoas lado a lado num sofá (nunca falta um enorme sofá em qualquer telenovela). Tudo muito solto e despachado. Único problema: ninguém na vida real fala assim. Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

Estamos perante um truque retórico que os autores dos guiões utilizam para ajudar os espectadores a memorizar o nome das personagens. Mesmo à custa da verosimilhança que dizem cultivar com esmero e afinal desmentem em cada frase.

 

A tradução literária, quando é competente, não se ocupa apenas do idioma: ocupa-se da qualidade da escrita. Não numa pretensa fidelidade à letra original levada ao extremo, mas na fidelidade ao espírito do autor para melhor o reproduzir no texto traduzido.

É aliás neste sentido que se diz com frequência que As Minas de Salomão, de Henry Rider Haggard, "ganharam" qualidade literária na célebre tradução de Eça de Queirós. Ou, em sentido inverso, ainda hoje nos chegam os ecos da tradução francesa do romance A Selva, de Ferreira de Castro, feita por Blaise Cendrars -- que alguns garantem ser superior ao original.

 

Como é frequente dizer-se, o tradutor trai. É um facto. E ainda bem: nunca nenhum texto, ao ser transposto para outro idioma, será traduzido de forma competente através de uma simples colagem de vocábulos.

Costumo ilustrar isto com títulos de filmes. Nunca saberemos quem se lembrou de traduzir Gone With the Wind por E Tudo o Vento Levou, algo muito mais intenso e radical. Mas devemos estar gratos a tal pessoa. Porque o título português, que se tornou uma expressão idiomática, faz sentido no contexto e adequa-se ao conteúdo. "Levado (ou levada?) pelo Vento", tradução literal na voz passiva, deixa-nos tão indiferentes como se estivéssemos a contemplar uma parede de tijolos.

E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers. Ao ponto de não faltar quem garanta que o título original deste filme de 1979 é "Welcome, Mr. Chance".

Não é: chama-se Being There.

Mas algum de nós guardaria dele tão boa memória se algum burocrata de turno, como se recebesse um relatório para traduzir, lhe tivesse chamado "Estando Ali"?

 

Em cima: fotograma do filme Bem-Vindo, Mr. Chance

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27 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 02.08.2014 às 13:07

Concordo com o Pedro. Concordo muitas vezes com o Pedro acerca de muitas coisas, mas inegavelmente sobre este tema das traduções, porque sempre que é tratado aqui no delito, ensina mais um pouco como compreender realmente a língua falada e escrita, não só a língua portuguesa, mas qualquer outra língua que, como a nossa, tem uma identidade própria construída pela agregação de várias influências e saberes. É por isso que "falar" uma língua nem é complicado, porque a homofonia ajuda muito. Já escrevê-la e traduzi-la tem muito mais que se lhe diga do que meia dúzia de clichés e frases enlatadas.
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De Pedro Correia a 02.08.2014 às 23:53

É isso, Dulce. Cada língua tem uma personalidade muito própria. O tradutor competente deve adequar o seu trabalho à personalidade dessa língua. É incompreensível que o tradutor português não "respire" a língua portuguesa com as suas particularidades. O sujeito subentendido, os pronomes implícitos e não explícitos ("She brings her bag", diz-se em inglês; em português basta "ela trouxe a mala"), o presente do indicativo usado de preferência ao gerúndio (que, no entanto, prevalece na escrita brasileira), a voz activa como regra em vez da voz passiva, etc, etc.
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De H a 02.08.2014 às 13:18

Muito bom, quão verdadeiro...

Por outro lado, de vez em quando apercebemo-nos como um tradutor mal escolhido pode estragar o nosso prazer da leitura, se temos alguma familiaridade com a língua original ou com o tema do livro. Encontramos frases com construções estranhas (que identificamos com conversões literais do original) e expressões, designações e identificações que revelam a incompetência técnica do tradutor para esse tema. Imagino que por vezes possa ser um trabalho que a editora peça com um prazo muito curto, mas nada desculpa.

O pior serviço deste género que li foi a biografia de Churchill por Martin Gilbert - tradução péssima!

Cumprimentos,
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De Pedro Correia a 02.08.2014 às 23:46

Eu, felizmente, li essa biografia no original. Mas tenho abandonado livros a meio por não suportar a péssima qualidade da tradução. Poucas obras resistem a uma tradução incompetente.
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De da Maia a 02.08.2014 às 16:17

Este tema interessante tem vários aspectos.

Romeu e Julieta é, nesse sentido, apenas uma tradução de Shakespeare?
Porque, todo o enredo e personagens apareceram antes, em obra de Luigi da Porto, e vinha de história supostamente verídica, já contada antes.

Shakespeare vai adaptar várias histórias já escritas, e a sua maior importância inglesa resulta do quase vazio literário anterior nas ilhas.

La Fontaine traduz as Fábulas de Esopo, e os franceses decidiram apropriar-se assim de um legado traduzido.

Isto não aconteceu apenas nas obras literárias não científicas.
Franceses, ingleses, escoceses, etc... pegaram nos textos antigos, escreveram quase ipsis verbis o essencial, com piores interpretações, e tudo apareceu como novidade, num súbito florescimento iluminista do Séc. XVIII.

Por isso, estou de acordo.
Os tradutores são importantes, tão importantes quanto o maestro que conduz a orquestra numa nova interpretação de uma ópera clássica.
Dá-se-lhes pouco destaque, e isso terá levado a uma certa desonestidade... especialmente em impérios emergentes que se queriam afirmar.
No tempo da guerra fria, na URSS havia também a tentação de encontrar o russo que tinha feito antes dos outros. Faz parte dos nacionalismos.

Os nacionalismos alheios têm levado, por ignorância implantada, a louvar o estrangeirismo. O que é nosso só tem relevância se for reconhecido pelos outros, e o que é deles é que interessa.

As traduções literárias podem não ser fáceis, como será o caso de Ulisses de Joyce, onde sempre se perdem detalhes próprios da língua original.
Por isso, vejo até como bom fazerem-se várias traduções... e dar valor à interpretação, conhecendo o tradutor, não ignorando o seu papel.

Um trocadilho com os nomes dos personagens deve implicar uma adaptação desse nomes? Por exemplo "You, Neil." confundir-se com "You, kneel!"
Complicado... e deve ficar aberto a várias traduções, ou pelo menos a notas de rodapé, esclarecedoras.
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De Pedro Correia a 02.08.2014 às 23:59

Acho muito sugestiva (e original, e ajustada) a sua comparação do tradutor ao maestro a dirigir uma orquestra.
Plenamente de acordo quanto à utilização das notas de rodapé para ajudar a desfazer certos "nós". Por exemplo, num excelente romance que acabo de ler, 'A Marcha de Radetzky', aparece logo na primeira página uma referência fundamental à batalha de Solferino. Sem nota que elucide o leitor sobre a data da batalha, a sua importância, quem foram os contendores, qual foi o desfecho.
Um bom tradutor (e, por acréscimo, um bom editor) não deixariam passar isto em claro. Porque a ausência desse esclarecimento confunde e baralha o leitor, desde logo sobre a época em que o romance decorre.
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De Luís Lavoura a 02.08.2014 às 16:46

Quantas vezes mencionamos o nome da pessoa que se encontra ali em casa, à nossa frente, trocando connosco umas frases banais do quotidiano?

É verdade que não o fazemos, mas devemos esforçar-nos por fazê-lo. Nada soa tão melodiosamente aos ouvidos de uma pessoa quanto o seu próprio nome. É maravilhoso para qualquer pessoa ouvir a pessoa com quem fala a tratá-la pelo nome próprio.
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De Pedro Correia a 02.08.2014 às 23:43

Talvez não se a pessoa se chamar Aldegundes. Ou Escrotilde.
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De José Catarino a 02.08.2014 às 17:11

Muito bem visto. Acrescento às traduções que não desmerecem dos originais, por exemplo, O Velho e o Mar, por Jorge de Sena, e, recentemente, a Ilíada, a Odisseia e Poesia Grega, em traduções de Feederico Lourenço, sem as quais nunca teria lido essas obras extraordinárias, e Tolstoi traduzido pelos Guerra. Traduções que deveriam ser modelos a seguir, não fosse a pressa e a ganância de alguns.
José Catarino
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De Pedro Correia a 02.08.2014 às 23:42

São alguns exemplos das traduções que refiro no sentido positivo. Uma boa tradução de um texto literário é literatura também. Não pode ser tarefa para burocratas do dicionário.
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De sampy a 02.08.2014 às 18:07

"E nunca poderemos agradecer bastante a quem se lembrou do título Bem-Vindo, Mr. Chance para baptizar em português a obra-prima de Hal Ashby protagonizada por Peter Sellers".

Certamente o mesmo que a baptizou em francês com um Bienvenue Mister Chance, ou em alemão com Willkommen, Mr. Chance, ou em espanhol com Bienvenido, Mr. Chance, ou em sueco, ou em croata...
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De sampy a 02.08.2014 às 23:32

É que ao menos em francês o título do filme (que o do livro, anterior, é La Présence) faz algum sentido, já que consegue manter a polissemia do nome do personagem (afinal, a palavra vem do francês antigo). E permite ainda, via pronúncia, alguma empatia com a confusão gerada na trama em torno do tal nome. No título português tudo isso se perde. Fica apenas a lembrar um "Adeus, Mr. Chips", com a desvantagem de, ao contrário deste, nunca ser usado no filme.

A piada é que o original, a ser verdade que foi inspirado no Dasein, também acaba por ficar aquém do que se pretenderia.

Quanto ao Gone with the wind, outro facto curioso: sendo claro o sentido que a autora do livro dá ao título escolhido, e reconhecendo-lhe o mérito da recriação, a verdade é que não corresponde àquele onde ela foi buscar inspiração. No poema de Dowson, (I have) gone with the wind significa "corri".
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De Pedro Correia a 03.08.2014 às 13:24

São factos curiosos, sim, e fez bem em assinalá-los. Mas não alteram a premissa do que escrevi: a suposta fidelidade ao texto original leva muitos tradutores a alterar o espírito desse texto, adulterando-o. Tal como não traduzimos "it's raining cats and dogs" por "está chovendo gatos e cães".
Fiéis à letra, infiéis ao espírito.
Esta é a questão central, que em muito ultrapassa o critério do gosto, sempre subjectivo.

Quanto a títulos de filmes, duas curiosidades:
- 'Les 400 Coups', de Truffaut, mencionado pelo Luís Naves aqui mais abaixo, teve uma tradução literal que nada significa. A expressão equivale em francês à nossa 'Trinta por uma Linha'. Que devia ter sido adoptada por uma tradução competente.
- 'Who's Afraid of Virginia Woolf?' brinca com a cantilena infantil "who's afraid of the big bad wolf?", entre nós entoada "quem tem medo do lobo mau?" Há uma cena capital da peça de Edward Albee que explica e justifica o título. Em português, no entanto, tudo isto se perde. Ficaria bem melhor - como em tempos sugeriu António-Pedro Vasconcelos - o título português "Quem tem medo do Lobo Antunes?"
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De Miguel a 03.08.2014 às 00:24

Eu por acaso fui a pessoa a quem o Joel Neto quis dar lições de melodia, não que eu estivesse muito empenhado em aprendê-las. Mas parece-me que outros também estiveram a dormitar na sala de aulas, porque andam para aqui a levantar questões sobre pronomes quando tudo começou com a repetição do nome Pasquale 6 vezes numa página.

Ouçam, esqueçam lá as especificidades de cada língua e concentrem-se neste ponto: há alguma razão intrínseca à língua inglesa para o autor daquele texto repetir Pasquale 6 vezes? Não, logo foi uma simples ESCOLHA autoral. Como eu apontei ao Joel Neto, o autor podia ter usado he ' 4 vezes e his ' 2, mas se não o fez foi porque não o quis fazer. Nesse cado , há alguma razão para um tradutor mudar Pasquale para um pronome? Não, não há. Afinal de contas, não conheço nenhuma regra gramatical portuguesa que impeça de se repetir um nome quantas vezes se quiser. Como eu apontei a ele, António Lobo Antunes repete o nome de uma personagem 4 vezes numa página dum romance. O que há aqui é uma teima antiga em aplicar certas regras de 'bom gosto,' inclusive a velha regra contra a repetição, a regra que insiste em se usar sinónimos, variar as palavras, etc., uma regra contra a qual Milan Kundera se insurge num qualquer livro de crítica literária.

Eu ainda estou a tentar perceber o que é que isto tem que ver com títulos de filmes e diálogos de telenovela. Mas o que eu sei é que nenhum escritor tem de obedecer a supostas regras de bom gosto, quem quiser escrever Pasquale 6 vezes deve fazê-lo, o escritor não deve nada a ninguém, só tem de escrever aquilo que quer, que lhe parece certo e necessário.
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De sampy a 03.08.2014 às 01:47

Se me permites, Miguel: tens razão e não tens.

Estás certo quando dizes que a repetição do nome acontece por escolha autoral. Identificas as 6 utilizações numa determinada página. posso-te dizer que as outras páginas são em tudo semelhantes, na questão dos nomes, a que se somam ainda outras redundâncias. Tal como dizes, o escritor escreve o que quer e como quer, sem dever nada a ninguém.

Já não estarás certo em pensar que o resultado é o mesmo em inglês e em português. Aquilo que na língua inglesa provoca num ou noutro leitor um certo desconforto, torna-se praticamente intragável na língua portuguesa. São questões de forma em que as línguas divergem. Não se resume a regras de "bom gosto", como referes.

Um tradutor é como aquela canção do Marco Paulo: "Eu tenho dois amores..." Por um lado, deve fidelidade ao autor da obra e à língua de partida; por outro, à língua de chegada e correspondente leitor. Muitas vezes, a relação é tensa. Por vezes, o compromisso é impossível. Aí, há que fazer uma escolha. Para ti, o tradutor fez a opção certa. Para o Joel, não. Se não chegais a um acordo, cada um que fique na sua.
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De Miguel a 03.08.2014 às 12:41

"Aquilo que na língua inglesa provoca num ou noutro leitor um certo desconforto, torna-se praticamente intragável na língua portuguesa."

Mas eu não achei intragável a página de Lobo Antunes que dei como exemplo. A repetição em si é um forma de ritmo. Eu não quero imaginar como teria ficado o romance de Tabucchi se cada "afirma Pereira" (e há umas centenas deles no livro) tivesse sido mudado pelo tradutor. Confiem no autor, ele sabe o que está a fazer, e porquê.
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De Pedro Correia a 03.08.2014 às 13:14

Caro Miguel: se bem reparar, apenas você está a colocar a questão no terreno do "bom gosto". Aconselho-o a reler este seu último comentário, que bem evidencia isso.
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De Miguel a 03.08.2014 às 13:17

Então, Pedro, dê-me uma boa razão, que não tenha que ver com (implícitas) noções de bom gosto, para NÃO se escrever Pasquale 6 vezes numa página, seja em inglês ou em português. Porque esse é o ponto fulcral e ainda não o vi defendido com cogência.
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De Pedro Correia a 03.08.2014 às 13:43

Não posso falar-lhe desse texto em concreto. Pelo simples motivo de que não faço ideia de que texto se trata. Nem de qual é a língua original.
Creio já ter deixado claro o meu ponto de vista no texto que dá origem a esta caixa de comentários com um exemplo concreto.
Mas já que me pede, deixo aqui outro que inventei agora:
«Sam is there. He is drinking his wine.»
Tradução literal (em obediência à estrita fidelidade ao original):
«Sam está ali. Ele está bebendo o seu vinho.»
Tradução preferível (sem desvirtuar a ideia original mas adaptando-a à fluidez e às regras da nossa escrita):
«Ali está o Sam. A beber vinho.»
Assim evita:
- A colisão das duas vogais ao inverter o verbo e o pronome demonstrantivo ("estÁ Ali");
- A colocação do verbo no gerúndio, corrente na escrita brasileira mas não na portuguesa;
- O pronome possessivo "seu", pleonástico na nossa construção frásica;
- O pronome pessoal "ele" (presumido no nome mencionado na frase imediatamente anterior);
- Uma possível cacofonia com a introdução do artigo definido "o" antes de Sam (esta sim, admito, já é matéria de gosto).
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De sampy a 03.08.2014 às 14:24

Ruínas do tempo, de Jess Walter.
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De Miguel a 03.08.2014 às 19:13

"Não posso falar-lhe desse texto em concreto. Pelo simples motivo de que não faço ideia de que texto se trata. Nem de qual é a língua original."

Pedro, por acaso não reparou que o texto de Joel Neto, aquele que cita no seu seu, é precisamente a respeito de um livro estrangeiro cujo autor escreveu Pasquale 6 vezes numa página, um crime de lesa-gramática que o tradutor português não devia ter reproduzido por obscuras razões?
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De Pedro Correia a 03.08.2014 às 19:46

Claro que reparei. Não me interessa esse texto em concreto, até porque o desconheço. O Joel pronuncia-se sobre uma questão de fundo, indo ao encontro de reflexões que eu próprio tenho feito também. E reconheço-me naquilo que enuncia, como qualquer leitor deste meu texto e da caixa de comentários certamente não pode ignorar. Porque julgo já ter sido suficientemente claro.
Subscrevo o que ele defende, nomeadamente isto:
«Quando vão alguns tradutores perceber que traduzir é conhecer a língua de chegada, nomeadamente naquilo em que é diferente da de partida?»
E isto:
«Quando vão os revisores perceber que os papa-gralhas automáticos têm cada vez mais opções e que, portanto, só vão continuar a existir se de facto fizerem copying? »
E isto:
«E quando vão os editores efectivamente fazer editing, como lhes compete?»
E ainda isto, na caixa de comentários:
«Entre outras diferenças radicais, em inglês o sujeito de uma frase não é subentendível. Sempre que lá está um verbo tem de estar o sujeito expresso. De resto, um livro inglês traduzido para português é um livro português. As únicas regras a que tem de submeter-se são as do português. Inclusive do ponto de vista melódico.»
«É por mentalidades como a sua que traduzir literatura e traduzir manuais de economia é, hoje em dia, rigorosamente igual, e aliás praticado pelos mesmos tradutores. Traduzir é verter. Uma tradução é uma versão. Um tradutor é um escritor. Deve ser.»
«Estamos num tempo de pós-modernismo completamente tonto, em que vamos ficando todos cada vez mais uns iguais aos outros, e as línguas connosco.»
Revejo-me em tudo isto.
Você insiste na tese oposta, em nome do "pós-modernismo" e tal. Lamento muito, mas neste debate não tem razão.
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De Miguel a 04.08.2014 às 11:43

Eu não me interesso por questões de fundo; eu interesso-me por casos concretos, como o que Joel Neto usou para iniciar a sua diatribe. Questões de fundo só servem para se criar regras gerais que depois se aplicam, a esmo, a todos os casos sem levar em conta as suas particularidades.

E eu nem acredito que o Pedro realmente partilhe a tese de que o pós-modernismo (uso o termo aqui enquanto estética literária) seja responsável por irmos "ficando todos cada vez mais uns iguais aos outros, e as línguas connosco." Em que sentido é que um grupo díspare de escritores, muitas vezes à margem da sociedade, escrevendo romances que a maioria das pessoas jamais lerá, conseguem provocar tamanhas mudanças na sociedade e nas línguas? Como é um romance pós-modernista como Finnegans Wake, que usa tantos neologismos que impossibilita qualquer tradução, torna todos mais iguais? Como é The Tunnel, de William H. Gass, 600 páginas escritas em aliteração (o que o também torna praticamente intraduzível; um romance para quem quer melodia a sério) deixam todas as línguas mais iguais? Como é que um romance como Gravity's Rainbow, que é precisamente contra a sociedade de consumo, leva a uma massificação de identidades? Para não falar de Nabokov, Calvino, Borges, Gaddis, Lobo Antunes, Saramago, todos escritores considerados pós-modernistas. Sim, Pedro, explique-me lá como é que o pós-modernismo causa todos esses males.

Acho que podemos identificar outras causas para estarmos todos mais iguais e insípidos: para começar, a hegemonia das oficinas de escrita criativa, onde o modelo a seguir é Hemingway, Carver e Munro - frases curtas, declarativas e telegráficas; singeleza lexical; estilo indirecto livre (à maneira de James Wood); metáforas e símiles vulgares; a mundanidade como tema principal; horror à fantasia e ao experimento - em suma, uma receita para garantir que nunca voltemos a ter grandes escritores (sim, porque eu não considero Hemingway grande) ao jeito de Joyce, Nabokov, Saramago, etc.

Depois temos editoras que querem lucros e best-sellers e sabem que os livros venderão melhor se foram escritos à maneira supra-citada, que por sua vez é apenas a forma como Dan Brown (longe de ser um pós-modernista) escreve. As pessoas não querem pensar muito quando lêem, não querem esforço, apenas querem um história contada de forma rápida e eficiente, sem palavras complicadas, frases do tamanho de vinte páginas e divagações.

Depois temos a publicidade, que vive de transmitir ideias paradoxais: por um lado faz o indivíduo sentir-se único (basta pensarmos no vocabulário usado, todos aqueles slogans que nos exortam a sermos especiais, radicais, diferentes, ousados, a pensarmos "fora da caixa" e por aí fora); por outro lado quer-nos convencer a comprar cigaros ou calças ou telemóveis ou cervejas ou jeans que milhões de outros, pelo mundo fora, também estão a ser incitados a comprar, isto é, uma pessoa é especial, única, rebele, ousada, diferente se for exactamente como os outros... Zenão ficaria orgulhoso.

Deixo aqui apenas 3 razões para o mundo estar cada vez mais igual (2 deles têm que ver com dinheiro; o que não tem?) sem precisar de invocar o papão do pós-modernismo.
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De Pedro Correia a 04.08.2014 às 22:13

Caro Miguel:
Aborda questões interessantes, sem dúvida. Mas como palavra puxa palavra já nos desviámos muito da rota inicial.
Tentarei recentrar o assunto. E peço ajuda, para o efeito, a Adolfo Casais-Monteiro, um estimável escritor português do século XX que foi igualmente um tradutor de grande mérito (bons tempos esses, em que os escritores eram também tradutores: aconteceu com Pessoa, Aquilino, Saramago, Cardoso Pires, Mário Henrique-Leiria, Jorge de Sena, Gaspar Simões, Rodrigues Miguéis, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e tantos outros).
Aqui fica, com a devida vénia:
«O prazer que sinto agora em o ter traduzido não me deixa esquecer as dificuldades com que lutei, na esperança de sacrificar o menos possível uma beleza tão difícil de transpor para outro idioma. O estilo 'breve', incisivo, de Hemingway está no pólo oposto àquela redundância tão do nosso gosto; e, se dada a antipatia do tradutor por tal gosto não existia esse perigo, não deixou ele de sofrer a resistência que a nossa língua opõe a uma expressão directa como a requerida para que esta tradução não resultasse uma traição ao espírito da obra. Ora a verdade é que traduzir uma obra literária exige um duplo combate: contra a tradução literal, e contra a tradução que deforma.»
Palavras sábias, de quem entende do duplo ofício (escrever+traduzir). Palavras incluídas no prefácio à excelente tradução portuguesa do romance 'O Adeus às Armas', de Ernest Hemingway. Sei que não aprecia Hemingway, mas julgo que estas palavras de Casais Monteiro são dignas de reflexão.
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De Miguel a 06.08.2014 às 20:34

Pessoalmente, prefiro Adolfo Casais Monteiro o crítico literário e Adolfo Casais Monteiro o cronista. Também não creio que me tenha desviado do assunto principal, que para mim implica proteger escolhas estilísticas deliberadas (que podem ser roturas com as normas da língua original) contra traduções que apenas levam em conta a língua de destino.

Seja como for, Casais Monteiro vai ao encontro do que venho vindo a defender: do dever do tradutor de manter o intacto estilo do autor (neste caso a pobreza lexical de Hemingway e os telegramas de frases com que ele enchia os seus contos monótonos) na língua de destino.

Onde começo a discordar com Casais Monteiro (para além de ele achar Hemingway digno do seu tempo) é na visão quasi-mística das línguas humanas, o que não passa de uma herança de um certo chauvinismo linguístico que grassava no século XIX. O tradutor fala da redundância na língua portuguesa como se lhe fosse uma característica inata. Ora, isto está em linha com as crenças antigas de que o inglês era a língua ideal para negócios (porque antes do inglês não se negociava), o francês a língua ideal da diplomacia (porque não havia diplomacia antes de a França surgir), o italiano a língua ideal do amor (porque nunca se escreverem grandes sonetos de amor em português, inglês, espanhol, etc.), o alemão a língua ideal da filosofia (porque nunca houve um Ortega y Gasset , um Sartre, um Croce , um Russell ) e por aí fora; um dos corolários do nacionalismo oitocentista e da tentativa de isolar e explicar o cerne identitário de cada nação (tão ao gosto de Unamuno) foi que esse debate transbordou para o campo da filologia e de repente começou-se a atribuir às línguas propriedades únicas. Casais Monteiro, apesar das suas muitas virtudes, é também um produto do seu tempo.

A verdade é que não há nada de inato à língua portuguesa que impeça de se escrever como Hemingway nela (aliás, pode-se arguir que o neo-realismo não passou de uma amostra desse estilo - frases curtas, declarativas, sem quaisquer adornos ou figuras de estilo; vocabulário limitado; um registo directo de reportagem, como se estivessem a praticar jornalismo em vez de literatura. Quem acha que o nosso estilo redundante é único obviamente nunca leu Nabokov, com os seus jogos de palavras, as aliterações, o amor por palavras obscuras...); o que há, como ele bem observa, é um gosto dos PRATICANTES da língua de favorecerem um estilo barroco contrário ao de Hemingway . Uma língua não pode escolher ser barroca ou redundante, não é algo vivo como tanto se afirma, é um instrumento imaterial, faz-de dela o que se quer. Qualquer pessoa que leia literatura portuguesa moderna, escrita por alunos de escrita criativa (Gonçalo M. Tavares, João Tordo, etc.), nota logo o repúdio pelo barroco de Saramago, ou pelo maravilhoso excesso metafórico de Lobo Antunes, ou pela riqueza vocabular de Aquilino, ou até pelo lirismo epigramático de Agustina. Infelizmente é demasiado fácil ser-se tão pobre escritor como Hemingway em português.

Por isso não percebo o que Casais Monteiro quer dizer com a "resistência que a nossa língua opõe" a este tipo de estilo; a língua portuguesa magicamente desenvolveu mãos e pegou numa arma para o matar? A língua portuguesa processou-o? Andou a levantar cercas com arame farpado? Não percebo, que resistência? Na minha modesta opinião, o tradutor apenas tentou criar a ilusão de que traduzir Hemingway é mais difícil do realmente é, para gozar um momento de gloríola. Penso que a isso se chama puxar a brasa à sardinha.
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De Pedro Correia a 07.08.2014 às 15:49

Caro Miguel:
Parece-me óbvio que traduzir Hemingway não é tarefa fácil. O facto de escrever em frases curtas e ter diálogos que parecem extraídos directamente da oralidade não facilita a tarefa do tradutor, antes pelo contrário: pode ser constituir até uma armadilha adicional.
Se bem apreendo o seu conceito, você equipara a literatura de qualidade à escrita tendencialmente barroca - ou "difícil" para colocarmos a questão numa linguagem mais coloquial.
Eu prefiro colocar a questão noutros termos. O mérito de um escritor deve ser avaliado em função das fronteiras que estabelece no plano técnico, estético, ético. No sentido de haver um antes e um depois dele.
É evidente para mim que Hemingway traçou uma fronteira. Há uma forma de escrever anterior e outra posterior à obra dele. Muitos dos defeitos que lhe aponta não são imputáveis ao autor de 'O Velho e o Mar' mas aos seus inúmeros epígonos e imitadores. Que copiaram mal. Ou copiaram apenas aquilo que o talento próprio lhes permitiu.
Todos, de algum modo, lhe somos devedores - ao Nobel de 1954, não aos epígonos. Hemingway libertou a literatura de toneladas de prosa supérflua e pomposa, de um artificialismo chocante. Aproximou a linguagem escrita da linguagem oral. Trouxe para a literatura a gíria da rua, o calão, as imprecações quotidianas. Aproximou as descrições do olhar subjectivo, pondo fim ao império do narrador omnisciente, capaz de espreitar pelos orifícios de todas as fechaduras. Virou ao contrário a prosa de redacção, infestada de cenas sequenciais por obediência a um sólido alinhamento cronológico, iniciando vários dos seus textos literários não pelo início mas pelo "meio".
Despenteou a prosa, desembelezou a prosa. "Infectou-a" com os ecos do mundo em que vivia - com os seus declives, as suas distorções, as suas dissonâncias.
"Fácil", Hemingway?
Pelo contrário, meu caro: tudo menos isso.
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De Miguel a 08.08.2014 às 00:35

Não vejo qualquer motivo para celebrar um escritor que vulgarizou a linguagem literária; a literatura não tem nada que se aproximar da linguagem oral, ou jornalística, ou da gíria. A literatura tem a sua própria linguagem, é por isso que é literatura. Se eu quisesse uma prosa despenteada, desembelezada, ia ler os tais manuais de economia (ou o Correio da Manhã) com que Joel Neto começou toda esta discussão. Eu leio literatura para experienciar uma escrita sublime, aprimorada, invulgar, e até difícil, sim, a dificuldade também tem os seus prazeres intelectuais e emocionais. Isto leva-me à citação (insuficientemente célebre) de Donald Barthleme: "Art is not difficult because it wishes to be difficult, but because it wishes to be art." Não posso dizer melhor do que isso.

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