Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Remar contra a maré (4)

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.07.15


image-874015-thumbflex-kxwy.jpg

“(...)

Uma mistura curiosa de brutalidade e indecisão 

Mas esta liberdade está agora a tornar-se um problema para Merkel. A cimeira do euro do passado fim-de-semana esteve perto de um falhanço porque Schäuble tentou forçar através de propostas mais duras. E isto por um ministro das Finanças que tinha feito tanto pela unidade europeia. Há apenas três anos, Schäuble ganhou o Prémio Internacional Carlos Magno, de Aachen, pelas suas contribuições para a integração do Continente, mas agora é visto pelos países da Europa do Sul como o epítome do alemão perigoso. Isto também se junta ao drama de Wolfgang Schäuble.

Em décadas passadas, o peso da mediação europeia caiu sempre sobre a Alemanha. Mas só quando a Alemanha suprimiu os seus próprios interesses é que se tornou possível encontrar a harmonia na complicada malha que é a Europa, onde o Sul católico encontra o Norte protestante e alemães obsessivos pela norma caminham juntos com gregos anárquicos. Ninguém interiorizou mais esta lei do que Schäuble – ou pelo menos assim parecia. Agora, a política alemã para a Europa revela-se, ela própria, uma curiosa mistura de indecisão e brutalidade. Esta brutalidade, para a maioria, vem de Schäuble.

Era indiscutivelmente o momento certo para impor à Grécia rigorosas reformas. Era a única forma de persuadir países como a Eslováquia e a Letónia para libertarem novos fundos. Mas a maratona do último fim-de-semana na cimeira de Bruxelas não trouxe só um novo pacote para a Grécia. A nova Alemanha também se deu a conhecer com um rosto pouco habitual. Foi aí que Schäuble levantou a ideia de empurrar a Grécia para fora do euro. Foi uma sugestão que quebrou um tabu europeu. A Alemanha, entre todos os países, estava a mostrar a outro membro da Eurozona a porta de saída. Alemanha cuja elevação está tão intimamente ligada à solidariedade e perdão dos seus vizinhos.

A cimeira não foi só uma mera quebra da política europeia da Alemanha. Foi também descrita como a tragédia de Merkel e Schäuble, encadeada numa altura em cada um trabalhava para o seu lado.

A calamidade começou na última quinta-feira quando altos responsáveis do governo de coligação de Merkel se encontraram na Chancelaria. Merkel estava lá, como estavam Schäuble, o líder do SPD, Sigmar Gabriel e o ministro dos Negócios Estrangeiros Frank-Walter Steinmeier, que é também do SPD. A ideia era prevenir um rompimento com a França, mas o grupo também discutiu sobre a forma de proceder com a Grécia se esta se recusasse a executar as reformas exigidas pelos seus credores.

Schäuble propôs nessa situação um grexit temporário. Mekel e os líderes do SPD concordaram, mas para eles era mais do que uma experiência difícil. A Grécia, eles sabiam, jamais estaria disposta a assinar um grexit.

Um castigo para a Grécia

Na noite seguinte, apesar disso, o secretário de Estado de Schäuble, Thomas Steffen, enviou um documento com o título "Comentários sobre as últimas propostas gregas" para alguns colegas, incluindo o chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. No Ponto 2 referia-se que se Atenas não cumprir com as exigências dos credores, o país devia ser encorajado a sair do euro durante pelo menos cinco anos.

Schäuble e a sua gente viram esta proposta como uma proposta para, de uma forma cooperante, resolver o grexit – pelo menos seria essa a linha oficial. Mas Schäuble também avisou os gregos de que poderia conseguir, mesmo contra a vontade de Atenas, uma maioria de ministros das finanças para apoiarem um grexit.

Quando Schäuble aterrou em Bruxelas, no sábado de manhã, verificou que as suas propostas não haviam sido incorporadas no documento de trabalho dos ministros. Não se sabe quem foi o responsável. Podia ter sido a Itália, por exemplo. Ou a França. Ambos os países opunham-se firmemente à expulsão da Grécia da zona euro. Schäuble não estava em si.

Primeiro, Schäuble consultou os outros ministros das finanças conservadores, que pertencem, tal como a CDU dele, ao Partido Popular Europeu. Tal como Schäuble, a maioria era a favor do grexit e os homens elaboraram um plano par se ver qual seria a melhor forma de forçar a Grécia a sair da área da moeda comum. Os ministros concordaram em formular condições estritas para um terceiro pacote de ajuda que o Governo grego nunca seria capaz de aceitar. Como forma de pressionar a Grécia para sair do euro, Schäuble imaginou o chamado fundo de confiança (trust fund) no qual cairiam todas as receitas da venda dos bens gregos. Para o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, isto já teria sido suficientemente impertinente. Mas os ministros conservadores queriam ir mais longe e pediram que o fundo fosse localizado no Luxemburgo, uma situação que Tsipras possivelmente não poderia aceitar. Quando Schäuble chegou, mais tarde, à reunião do Eurogroupo, ele podia ao menos marcar uma vitória parcial. Ele estava em condições de conseguir que a ideia do grexit e que o modelo do fundo de confiança passassem para o documento final. Mas acontece que ambos estavam entre parêntesis, querendo significar que os ministros das finanças não estavam nesse acordo. Ainda assim, os líderes europeus receberam a minuta (o draft) em que aparecia oficialmente uma Eurozona sem a Grécia.

Tal como na proposta de Schäuble, surgiu e tornou-se público um grexit temporário, a humilhação vinha a seguir. "À Alemanha digo eu: Basta, basta”, disse o primeiro-ministro Matteo Renzi. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo Jean Asselborn e o Chanceler austríaco Werner Faymann protestaram dizendo que Schäuble queria obviamente humilhar um parceiro europeu. E rapidamente Merkel e aos seus assessores tomaram conhecimento e perceberam como era explosiva a proposta. De repente, ela [Merkel] era vista por toda a Europa como a chanceler que queria pôr a Grécia fora do euro. (...)” – Der Spiegel, 18/07/2015 (extracto)

(sublinhados da minha responsabilidade)

Nota: Penso que o essencial e o sentido daquilo que está no texto original corresponde ao que aqui fica. Esta foi a versão do Der Spiegel. Estes são os factos que oito jornalistas de uma revista alemã – das mais importantes a nível interno e externo – relataram a outros alemães. E esta é uma parte da história que os portugueses e os leitores do DdO tinham de conhecer para formarem a sua opinião sobre o que se passou. E sobre o papel dos diversos protagonistas da crise grega. De qualquer modo, quem puder deverá ler o texto integral. Até para poder avaliar o papel do primeiro-ministro português no acordo final. Cada um que vá tirando as suas conclusões.    


5 comentários

Sem imagem de perfil

De lucklucky a 23.07.2015 às 04:13

Então o Grexit = ter moeda própria para poder desvalorizar e assim fazer muito e bom keynesianismo e mostrar muita "preocupação social" saindo do colete de forças neoliberal austeritário passou a ser mau.
Não devo esperar muito pelo dia em que volte a ser bom.
Pode até já ser amanhã.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 23.07.2015 às 10:14

Só por uma vez, vou responder-lhe como se valesse a pena:

http://www.huffingtonpost.com/dean-baker/wolfgang-schauble-the-her_b_7837278.html

Poderá ser tudo um pouco complicado para a sua forma de perceber as coisas, mas pelo menos tenta-se.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 23.07.2015 às 19:42

Deve também endereçar isso ao autor do post que ontem parecia dizer que o Schäuble era mau.

O texto que linkou é fantástico na falta de verdade sobre a Argentina, o autor não quis falar dos assaltos a supermercados por multidões, ainda houve uma vaga há uns dois anos atrás. Para não falar da violência em geral. Como está então a correr essa bela desvalorização?

Mas é mais estranho a sua opinião vinda de um português, não esteve cá nas outros duas intervenções do FMI no fim dos 70 e nos anos 80? tínhamos escudo.
Porque é que a desvalorizações não correram ás mil maravilhas.

Sabe o que acontece à Grécia se sair do Euro e não tiver uma moeda forte? A Maioria dos com capacidade e valor foge. Muitos já o fizeram.
Quem quiser tecnologia paga bem mais caro. O telemóvel, o portátil, a máquina para a industria, o carro fica mais inacessível. Não será austeridade?

Se quiser manter o status squo na Grécia e esta ser para sempre um pais de sol e menos turismo e pouco mais, o Grexit ajuda os socialistas sejam de esquerda ou direita a esticarem por um pouco mais tempo a irracionalidade.

Mas isto são detalhes. A moeda - como é óbvio estou em desacordo com Schäuble e a maior parte das pessoas que discutem o assunto que tendem a ser excessivamente políticas- é que a moeda tem pouco que ver com o problema.
Este é cultural/político Grego.
Sem imagem de perfil

De Na Maré a 23.07.2015 às 08:46

Para salvar a Europa, o que está agora em cima da mesa são as ideias do nosso camarada Hollande.
Imagem de perfil

De Manuel a 24.07.2015 às 02:13

Não estou vendo a Alemanha nem a Europa a "entregarem" a Grécia ao Pútin. Mas como em politica nunca se sabe onde pára a razão das razões nem os bluffs, pode que não seja impossível alguém estar disposto a "oferecer" uma Grécia em troca ter um Nord Stream sempre aberto e cheio de gás durante umas boas décadas. Não vão lá os chineses queimar todo o gás russo e depois não sobrar nenhum para enfiar no "tubinho" alemão. Ainda por cima é o tubinho da Alemanha da Europa das sanções.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D