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Religião é incomodidade

por Teresa Ribeiro, em 04.01.15

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Sendo cristã, mas tendo feito a minha formação religiosa numa igreja evangélica baptista, sempre tive uma relação distante com o catolicismo, tanto quanto se pode ter quando se nasce e vive num país católico. Até hoje nunca nenhum Papa me conquistou ao ponto de me reconhecer nele sem reservas. A Francisco, que mais uma vez foi eleito em diversos meios da comunicação social uma das Figuras do Ano, vejo como um cristão, muito mais do que como o chefe da ICAR. Um cristão como eu imagino que seriam os pioneiros, destemido e apostado em erguer a bandeira do cristianismo muito acima da igreja, pois que esta é apenas - não podemos esquecer - obra dos homens.

Muitos católicos, ciosos do que consideram ser as marcas da sua identidade, não estão a aceitar a forma desassombrada com que o seu líder supremo coloca à discussão dos fiéis temas fracturantes e interpela a hierarquia, convidando-a a saltar do andor para chegar mais perto dos homens. Esta frontalidade bem como a humildade que Francisco coloca em cada um dos seus gestos, mostra-lhes um homem mais próximo do pescador de almas que a Bíblia reclama do que da figura do "santo padre" que a ICAR há muito entronizou. É este back to basics que está a encantar alguns cristãos - católicos e não católicos - e a confundir os que vêem na religião um baluarte inexpugnável, garante de uma moral e sobretudo de uma estética que precisam de preservar para seu próprio conforto de espírito. 

Estes acérrimos defensores da tradição esquecem-se que todas as Igrejas, sem excepção, abusam do nome de Deus e que as diferenças entre as várias confissões religiosas de inspiração cristã se alguma coisa provam é que a verdade universal não é exclusivo de nenhuma. Desta evidência devia retirar-se a primeira lição de humildade, que é algo que tem faltado a toda esta gente que torce o nariz à discussão e reclama para si o morno sono dos justos.   

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30 comentários

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De Vento a 05.01.2015 às 13:24

Percebo o sentido de seu comentário. Mas como todos somos partes da polis não vejo onde possa existir conflito entre a atitude política com a opção religiosa.
Penso eu, João, que o cristianismo não é um conto de fadas e/ou um percurso fora desta polis. O seu elemento fundamental reside no aspecto (re)integrador, na reabilitação de todos os homens e do Homem todo. Logo, não tem como objecto o funcionalismo ou a funcionalidade do Ser. Logo, os mais frágeis não são os fragilizados, mas os que fragilizam. É a estes, sem descurar os outros, que se dirige a mensagem cristão, isto é, não é aos sãos mas ao que estão doentes.

As outras questões que aborda em seu comentário também fazem parte do cenário anteriormente descrito. Sem esquecer que também existe uma essência regeneradora no domínio moral e espiritual: "Enviar-vos-ei o Espírito Santo que vos recordará tudo quanto vos disse e ensinar-vos-á coisas novas".

Abraço e votos de uma Ano Novo repleto de lutas e conquistas, padrinho.
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De João André a 06.01.2015 às 15:34

Certamente que sim caro Vento, por isso refiro que estes temas me interessam. Aquilo que refiro dz respeito ao aspecto puramente intelectual da religião, da sua teologia (sou apenas um interessado, não um estudioso da matéria). Há naturalmente várias vertentes neste pensamento e penso que Bento XVI e Francisco as reflectem muito bem. Apenas aponto que enquanto Bento XVI se esforçou contantmente por enquadrar a sua visão política dentro de um pensamento religioso, Francisco tem sido um Papa mais do domínio do terreno (se posso arriscar a expressão) que se tem escudado nos antigos textos da igreja.

Isso em si não tem nada de mal. Aliás, desde que o Papa não se coloque a ter posições que politicamente interfiram negativamente com o universo não católico (nunca me conformei com a posição de João Paulo II sobre os preservativos), qualquer postura política é perfeitamente legítima. O Papa é o actor político por excelência de um mundo em globalização cada vez mais acentuada, pela forma como pode unir pessoas de quadrantes tão diferentes, independentemente da sua localização, cultura, ideologia ou outras. É essa uma das chaves do sucesso histórico da ICAR (em comparação com as igrejas ortodoxas, por exemplo).

Também para si, caro afilhado, um grande ano repleto de grandes feitos. E que os menores sejam estes seus textos que dão sempre imenso prazer.
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De Vento a 06.01.2015 às 23:10

De acordo João. Mas não confunda o universo católico, porque este também tem quem defenda o uso do preservativo e da pilula. Também neste quadro há quem defenda outros métodos considerados mais naturais, por exemplo: o método billing.
A grande questão que se coloca com Francisco é que a acção deste vai um pouco mais longe de seus antecessores. João Paulo II entendeu fazer seu percurso ignorando de certa forma alguma hostilidade que o rodeava. Bento XVI definiu seu mandato pela via escolástica para levar a entender a razão da fé e como esta se constrói, mas procurou fracturar algumas tendências católicas mais ligadas à acção política. Curiosamente foi Francisco, um latino-americano, que ousou sair do Vaticano, viver em comunidade na casa de Santa Marta e mostrar que é possível reformar a mentalidade da Curia e manter a essência que norteia esta Igreja. Claro que esta reforma só é possível porque existe uma multidão de cristãos, e cristãos católicos, ansiosos por ver as "vestes" de Cristo como ornamento sacerdotal.

Obrigado pelos votos, padrinho, e receba a retribuição em desejos de bênçãos que o acompanhem em sua vida intelectual, profissional, social e em todas as outras dimensões de Ser.

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