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Reformismo e revolução

por Pedro Correia, em 02.04.19

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O Bloco - bloqueado como nunca - acaba de sofrer uma dolorosa deserção em massa de 26 militantes,  claramente descontentes com a capitulação do partido fundado em 1999 por Francisco Louçã, Miguel Portas e Luís Fazenda face ao reformismo austeritário capitaneado por António Costa e pelo seu imediato Mário Centeno. Entre estes dissidentes inclui-se gente que fez parte do núcleo fundador, designadamente dois irmãos de Louçã, agora conselheiro de Estado e membro do Conselho Consultivo do Banco de Portugal, além de detentor de uma apreciada cátedra senatorial como comentador na privadíssima SIC Notícias.

Na óptica da chamada "verdadeira esquerda", os socialistas são meros gestores do sistema existente. Ora a energia revolucionária, erigida em "locomotiva da história", não se destina a gerir o sistema: ambiciona transformá-lo para cumprir as profecias contidas no evangelho de Marx. Acontece que Costa anestesiou os partidos revolucionários, aproximando-os do inevitável embate contra a parede: o Bloco, partido sem trabalhadores, transformou-se na sucursal social-chique do PS; o PCP, ao aprovar quatro orçamentos do Estado que validavam a moeda única, a disciplina orçamental e o pacto de estabilidade, descaracterizou-se como partido de raiz revolucionária. As consequências estão à vista, desde logo no plano sindical: algumas das áreas mais reivindicativas, dos estivadores aos enfermeiros, são hoje lideradas por sindicalistas autónomos da estratégia do partido da foice e do martelo e divorciados da sua sucursal obreirista, a CGTP.

Eis, prestes a concluir-se, a missão histórica do menchevista Costa, completando-se em 2015 o que Mário Soares - seu principal mentor ideológico - iniciara em 1975: os bolcheviques lusitanos estão quase a passar de vez à história. As eleições autárquicas de 2017, confirmando a total irrelevância do BE e o maior recuo de sempre do PCP ao nível do poder local, confirmaram esta tendência. Que isto ocorra no momento em que o País ainda é governado por uma "geringonça", fruto de um pacto celebrado entre os socialistas e os seus outrora ferozes opositores ancorados na margem esquerda, é uma daquelas ironias em que o destino dos sistemas políticos costuma ser fértil.

Compreendo que Costa, até devido aos seus antecedentes familiares, mergulhe episodicamente numa certa melancolia por lhe caber cumprir este desígnio histórico, que só peca por tardio - autêntico anacronismo ainda vigente em território europeu. Resta-lhe esta certeza: se não fosse ele, outro o levaria à prática. Não fazia o menor sentido as forças mais extremas da proclamada esquerda manterem cativo cerca de um quinto do eleitorado português, como aconteceu até Outubro de 2015, quando Bloco e PCP somaram 18,44% nas legislativas.

Nada ficará na mesma mal caia o pano sobre estas legislativas.

 

Publicado originalmente no jornal Dia 15.


1 comentário

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De Manuel Ó Pereira a 03.04.2019 às 09:19

Não tendo a mínima noção do que preparava, só pensando na sua sobrevivência política, António Costa alterou o paradigma político nacional, tornou-o mais estável, governos minoritários liderados pelo partido vencedor não serão facilmente aceites, agora só serão admitidas “geringonças”, em nome da estabilidade. O que irá acontecer após as próximas legislativas? O PCP está a implodir, já é visível o “delito de opinião”, aprovou 4 orçamentos de “moeda única”, vai pagar caro, será o novo “partido do táxi”. Mas os votos que o PCP perde ficam na esquerda. O BE vai perder uma franja eleitoral, “pensionistas de elevados rendimentos e familiares”, ressabiados com Passos Coelho, votaram BE. Conheço vários. Até que ponto será a transferência líquida de votos entre PS e BE favorável a este? Quem será o canibal?. O PS vai ganhar, os portugueses são a favor dos favorecimentos familiares quanto toca aos seus, nos outros são absolutamente contra! O PS é apenas o “reflexo” da sociedade portuguesa, e por não ter vergonha na cara, obrigar o Tuga a encarar com verdade o seu reflexo, vai ficar longe da maioria absoluta. Punição merecida. Deus escreve direito por linhas tortas. O CDS vai marcar passo, o arroz de atum de Assunção Cristas é demasiado plebeu. Do PSD não posso falar, Rui Rio ainda não foi convidado (ou não acedeu ao convite) para a “Casa da Cristina”. Os novos partidos liberais terão expressão eleitoral? Parece complicado? Vai ser tudo muito simples: o PS ganha e o PSD vai ser a sua nova muleta. Desejo profundamente que tenham o mesmo fim dos amantes malditos de “Duelo ao Sol” (o descalabro económico forçará este final) e que a “flor a nascer” no local do duelo, não seja um cravo, nem uma rosa. Portugal precisa de mudar de flores.

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