Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Reflexões europeístas (3)

por Pedro Correia, em 14.05.14

 

O que vemos por essa Europa fora?

A Ucrânia ameaça fragmentar-se sob fortíssima pressão russa depois da recente humilhação sofrida na Crimeia, anexada por tropas de Moscovo à margem do direito internacional. A Escócia avança para um referendo independentista, pronta a cortar os elos políticos com Londres. Húngaros e eslovacos esgrimem tensos argumentos dos dois lados da fronteira. A minoria húngara na Roménia reclama direitos que, segundo garante, não lhe são reconhecidos. O mesmo se passa com a minoria russa na Letónia. O exército turco desfila em parada para lembrar o dia em que esmagou os invasores de Atenas, conquistando-lhes a Trácia. Chipre é uma ilha dividida há 30 anos entre gregos e turcos, armados até aos dentes. Bascos e catalães estão em pré-ruptura com Madrid. Na Finlândia e na Lituânia, as recordações dos massacres soviéticos ainda ferem muitas sensibilidades. A Bélgica ameaça implodir a todo o momento, fragmentada por conflitos étnicos e linguísticos. Na Padânia aumentam as vozes dos que defendem um movimento secessionista destinado a amputar todo o norte da Itália. A Córsega persiste na luta contra o centralismo jacobino do Estado francês. A Transnítria, em pré-ruptura com a Moldávia, pode seguir os passos da Ossétia do Sul e da Abcásia em relação à Geórgia, privilegiando os laços políticos com Moscovo. Os Balcãs são um barril de pólvora temporariamente neutralizado. Na antiga Alemanha de Leste crescem os sentimentos xenófobos: os movimentos de extrema-direita atingem já mais de 20 por cento das simpatias dos eleitores jovens em certas cidades.

 

A Europa é uma construção política demasiado frágil para podermos adormecer confiados em sonhos de paz perpétua. Não nos iludamos: este continente em que vivemos mantém feridas mal cicatrizadas, fronteiras mal definidas, conflitos de toda a natureza que poderão reavivar-se a qualquer pretexto.

Inflamar os nacionalismos é acender um rastilho de proporções impensáveis. Que pode desde logo virar-se contra os seus autores, materiais ou espirituais. É esse, aliás, o destino de todos os aprendizes de feiticeiro.


4 comentários

Sem imagem de perfil

De JS a 16.05.2014 às 12:47

Para quê ocupações militares territoriais , baseadas em práticas do antanho, quando qualquer pseudo união europeia consegue, com êxito , os mesmos objectivos de dominância?.

No caso da Ucrânia, não vão os russos rapidamente arrependerem-se de terem invadido o Leste da Ucrânia?. Descobrir que têm que alimentar, responsabilizar-se, OBRIGATORIAMENTE, por (mais) uma região pobre, com todas as más consequências de esse tipo de ocupação territorial?.
...
Em vez de, como é o caso das elites troikanas europeias, conseguir os mesmos objectivos, de usar, em proveito próprio, delapidando, as riquezas dos (nada patriotas) governos dos (papalvos) povos?. Que acreditam no pai Natal?.
Adeus património ... viva a dívida soberana, que os governos, eleitos, fizeram, e que alguns, não todos, pagam com seu nível de vida.
...
O centralismo político europeu é uma óptima fórmula que serve os "estados" e sobretudo "the powers that be ".
...
Os partidos europeus locais (PS, PSD e o pendura CDS), BdP e demais instituições portugueses ditas de poder, apenas são, e só podem comportar-se como tal, resquícios de uma Nação, independente, que existiu.
...
Opção?. Defenestrar ?. Considerar-se, feliz, europeu, o que quer que isso seja?.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.05.2014 às 13:11

A Europa é solução, não é problema. Problema é a eurofobia. E o crescente número de eurófobos.
Sem imagem de perfil

De JS a 16.05.2014 às 14:27

P.C. Sim mas, qual Europa?. A presente ?. A futura, em construção, e por esta via?. Desejamos o melhor. Mas devemos, construtivamente, reagir ao que vai realmente acontecendo. Saudações.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.05.2014 às 12:36

A melhor Europa é uma Europa mais integrada, sem qualquer abismo entre a vontade dos decisores políticos e a vontade dos povos. Uma Europa que seja construída a partir de pequenos passos e não em passadas largas, de "vanguardas" iluminadas que conduzem a inevitáveis recuos. Uma Europa orgulhosa dos seus valores e do exemplar património imaterial edificado nas últimas seis décadas. E também uma Europa muito consciente dos erros cometidos para que não voltem a repetir-se com o seu cortejo de atrocidades.

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D