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Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.


13 comentários

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De Vento a 08.11.2016 às 13:02

Em resumo, João, nem Hillary sabe o que é. Ela move-se por ambição pessoal e também porque o Bilderberg dá uma mão.

https://www.youtube.com/watch?v=-dY77j6uBHI

Sob ponto de vista de honestidade Trump é transparente e ninguém vai ao engano. Sim, será ele o vencedor.

O problema nestas eleições está no facto de Hillary não ter desistido a favor de Sanders.

Sempre fui apologista da participação das mulheres em todos os cenários da vida, e todos estamos conscientes que elas não são o que se propaga ser, isto é, uns seres perfeitos e imaculados. Somos mesmo iguais.
Mas não nos enganemos, as mulheres jamais terão as mesmas oportunidades de algumas.
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De João André a 08.11.2016 às 15:11

Do Bilderberg não falo muito. Não sei qual a sua influência real ou sequer se hoje em dia tem verdadeira importância (noutros tempos sem bons meios de comunicação ou viagens mais longas e cansativas poderia ser outra conversa, mas hoje...).

Honestidade e Trump são duas palavras que não vão bem. Nem se comenta.

Não creio que Clinton não saiba o que é. Tens dois problemas: 1) ajusta a opinião publicamente para se adaptar às percepções e 2) aceita mudar de opinião quando vê outros argumentos (às vezes isso é bom e noutras mau). Não vejo porque razão haveria de desistir em favor de Sanders, que seria completamente bloqueado em tudo o que fizesse. Só se fosse porque assim Bloomberg talvez se tivesse candidatado.

Nunca vi os movimentos feministas (ou simplesmente a favor de igualdade de tratamento) como defendendo as mulheres como diferentes ou perfeitas. Algumas feministas vão nesse sentido, mas não são para levar a sério.

Não entro a sério na questão da primeira mulher presidente porque para mim é pouco importante. Reconheço a importância para muitos e na sociedade, mas do ponto de vista pessoal é pouco importante e irrelevante, dado que vejo essa possibilidade como absolutamente natural.

Espero que Trump não ganhe. Continuo a não acreditar que o vá fazer.
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De Vento a 08.11.2016 às 21:56

A influência do Bilderberg vê-se na acção dos média americanos.

A honestidade de Trump é ele mostrar-se como é. Certamente que na Casa Branca não será como apontam ser.

A percepção do eleitorado americano aponta para uma clara vontade de mudança do status quo. Trump é uma parte visível dessa vontade. Neste sentido, Sanders era o candidato capaz de ir buscar os votos daqueles que não votarão nem Clinton nem Trump (haverá dados para analisar esta situação).

Se reparou Trump dividiu os Republicanos, mas vai buscar mais votos.
Para encerrar este capítulo, Hillary não só não tem currículo como também não tem sentido ideológico. Faz campanha em torno de questões menores, como "pussies" (gatinhas), e procura um eleitorado feminino que conhece bem a liberdade, mas como em Portugal e na Europa se faz fala-se de igualdade da mulher e parece-me que fogem dessa igualdade com o homem. Só querem ser iguais entre elas, nada de misturas, e pretendem moldar a mentalidade do homem como se fosse plasticina.
Acontece que quem fala tanto em igualdade só reflecte seus traumas e suas vivências, e pensa que todas as mulheres foram vítimas como essas supõem ter sido. Há muitas mulheres felizes em todos os tempos, e emancipadas.
É precisamente esse movimento de mulheres que refere que dá mais visibilidade ao que exponho.
Claro está que numa sociedade marcada pelo dito machismo aqueles que são vítimas de mulheres ficam calados.

Ora aí está como deve ser encarada a situação, a presença da mulher em qualquer condição e situação deve ser uma questão natural. Mas essas que tanto pregão botam querem uma diferenciação, até pedem quotas.

Infelizmente Trump ganhará. Mas merece essa vitória mais que Clinton.
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De Vento a 09.11.2016 às 07:39

Trump acabou de ganhar a presidência americana, às 7H36m hora portuguesa, com os votos no Wisconsin.

No seu próximo post trocaremos opiniões sobre este fenómeno.
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De João André a 09.11.2016 às 09:45

Não farei comentários sobre o como chegámos a isto. Para tal há muitas pessoas muito mais habilitadas que eu. Além disso, tendo falhado nas minhas previsões sobre Brexit, Guterres e Trump, mais vale ficar calado para não dizer mais asneira.

O meu comentário, quando tiver tempo para ele, será sobre o que aí poderá vir.
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De JSC a 08.11.2016 às 16:13

Hoje começa a revolução necessária.
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De João André a 09.11.2016 às 09:47

Vamos a ver se daqui a um ano ainda gosta dela.
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De JSC a 09.11.2016 às 09:58

Só quem não vê a corrupção e problemas causadas pela administração Obama (Líbia, Síria, Obamacare, deslocalização massiva de empresas devido aos acordos comerciais) criou é que pode defender o que dizias no teu post (isso e não conhecer a América verdadeira, que não é Nova Iorque ou Los Angeles). Agora a questão é que ninguém sabe o que vai acontecer (algumas sabe-se, Obamacare fora, interesses instalados vão pelo menos andar em bicos de pés nos primeiros tempos, acordos de comércio em que não se paga impostos acabam (invés de ser só a transferência de capital).... Eu acredito que o Trump vai tornar a América melhor para os Americanos o que poderá ter efeitos negativos no resto do mundo porque ao contrário do que se diz uma América forte, torna o resto do mundo mais fraco), mas também os exploradores portugueses não sabiam, uns safavam-se outros não veremos o que será neste caso.
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De Jorg a 08.11.2016 às 18:04

Hillary vai muito provavelmente ganhar, mas perdeu-se nas primárias, ao ser confrontada com Sanders e não ter ganho, politicamente, essa disputa. Isso obrigou-a a depender de Obama e da sua administração para ser eleita - julgo que não há memória de um presidente em exercicio estar tão envolvido na campanha do "follower" - desde amansar Sanders antes da Convenção Democrata até determinar os salientes "sound bytes" nos comicios e media. Com isso, Hillary perdeu capacidade de se autonomizar, constatar e afirmar uma alternativa que reconhecia, despojando a retorica e "good looks*, as inumeras falhas e logros da presidência Obama, para assim captar os republicanos moderados e até chegar aos "loosers" post-crise de 2008 [tantos deles hoje uma boa fatia dos eleitores de Trump].
Resumindo o debate ao caracter, ficou a jeito para os ataques de caracter e das multiplas ambiguidades das suas actividades. e.g. na Fundação Clinton , onde se mostrou especialmente vulnerável. Os 'loosers', desde o "Rust Belt" passando pelas grandes planicies e até ao "religion belt" - e muitos "millenials" - que perceberam que, no pós-crise de 2008, tem de redimensionar expectativas, p. ex. de ter aspirações muito menores do que as que tinham, p.ex. os seus pais - ficaram orfãos - Hillary e para eles uma madrasta venal que os contemporiza para nas suas costas os desdenhar e esquecer.
Na verdade, ter Trump como opositor acaba por ser a sua taluda em termos eleitorais- se os Republicanos tivessem tido juízo e pudessem ter um candidato e.g. como Romney, Scott Walker, Jebb Bush ou mesmo Rubio, arriscava-se a ser copiosamente derrotada. Chega á presidência com os votos, mas sem empatias ou arrebatamentos. E sem semear "hope" ...
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De Jorg a 09.11.2016 às 07:44

Espalhei- me na previsão!
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De João André a 09.11.2016 às 09:48

Infelizmente não foi o único.
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De simplesmente avô a 08.11.2016 às 18:09


Nada voltará a ser como dantes.
Ganhe quem ganhar...
Iludam-se os que pensam que as "ideias maníacas" de Trump vão pelo esgoto abaixo...
Os USA vão seguramente mudar, mesmo com Hilary na presidência.
E muito.
E com os USA vai tudo o resto.
Talvez até para melhor...
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De João André a 09.11.2016 às 09:49

Melhor? Não acredito. Espero estar outra vez enganado (como na minha previsão de quem venceria).

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