Reflexão do dia
«Há dez anos, durante a crise financeira, a esquerda ocidental vivia obcecada com o tema de desigualdade. Thomas Piketty, o novo Marx, era o seu herói intelectual. O excesso de austeridade, avisavam-nos, acabaria por conduzir à descrença na democracia.
A década que se seguiu foi a extraordinária crónica de um suicídio. Os "ajustamentos" fizeram o seu caminho. E a esquerda, sem alternativa, foi em busca de novas linhas de divisão, que encontrou no campo minado das "teorias críticas". Substituiu as categorias de classe, comunidade e igualdade pela categoria única da "identidade". Substituiu o optimismo da inevitabilidade histórica pelo pessimismo da culpa estrutural do Ocidente.
Com isto, ficou sem nada de útil para dizer. Entregou tudo à direita, que é hoje proprietária das duas grandes categorias políticas aspiracionais: a liberdade individual e a luta de classes. A esquerda está morta. Alguém terá de a ressuscitar.»
Francisco Mendes da Silva, no Público

