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Recordação de Timor-Leste.

por Luís Menezes Leitão, em 07.06.17

Estive em Timor-Leste em 2000, no ano seguinte ao referendo, a fazer uma formação aos magistrados timorentes. Nessa altura encontrei a cidade de Dili completamente destruída, praticamente sem nenhum edifício de pé, dando a perceber a violência que ali tinha ocorrido. Na altura visitei ainda Baucau, Liquiçá e Ermera, e senti sempre uma profunda vergonha pela actuação dos portugueses nos diversos momentos da nossa história recente com Timor-Leste. Olhei para a ilhota de Ataúro e não percebi como foi possível em 1975 um governador português ir refugiar-se ali, deixando o território a ferro e fogo. Pensei na campanha do Lusitânea Expresso e questionei-me que sentido fez mandar um barco para ali para dar de frosques ao primeiro aviso da marinha indonésia. E finalmente, fiquei a pensar como foi possível organizar um referendo sem as mínimas condições de segurança, permitindo que meia dúzia de milícias mais uma vez dessem cabo daquilo tudo. Como um timorense me disse, num português de que ainda se lembrava, quando olhei para a destruição: "Os gajos ficaram zangados com o resultado da nossa votação".

 

Se há coisa que era visível em 1999, mesmo a partir de Lisboa, era o pânico que essas milícias tinham causado a quem lá estava. Como é óbvio, os membros da delegação portuguesa só pediam que os tirassem de lá rapidamente e mesmo os jornalistas faziam directos a solicitar exactamente a mesma coisa. Ana Gomes, a partir de Jacarta, respondeu-lhes uma vez em directo: "Os senhores sabiam que não vinham para Cacilhas". E, de facto, mais uma vez toda a gente debandou e teve que ser uma força australiana, vinda de Darwin, a meter na ordem aqueles arruaceiros. Lembro-me de ter visto pela televisão um australiano a dizer: "Os portugueses criam sempre estes sarilhos e nós é que temos que ir apagar os fogos em vez deles".

 

Não tenho por isso pena nenhuma de que o indigitado chefe das secretas tenha tido que renunciar por causa do que aconteceu em Timor-Leste. Se já vai tarde a assunção de responsabilidades pelo que aconteceu naquela altura, mais vale tarde do que nunca. António Costa, que lhe deu total cobertura política num assunto muito sério, bem podia aprender a lição.

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8 comentários

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De Pedro Correia a 07.06.2017 às 21:27

Luís, em abono da verdade há que lembrar que nem "todos os membros da delegação portuguesa só pediam que os tirassem de lá rapidamente e mesmo os jornalistas faziam directos a solicitar exactamente a mesma coisa".
Houve quatro jornalistas que, de plena consciência, permaneceram em Díli: Hernâni Carvalho, Jorge Araújo, José Vegar e Luciano Alvarez.
Durante semanas, em condições dificílimas, estes jornalistas asseguraram a cobertura noticiosa dos acontecimentos a partir da capital timorense para os órgãos de informação de Lisboa. Mereceram e merecem o nosso reconhecimento e o nosso elogio pela coragem revelada.
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De Luís Menezes Leitão a 08.06.2017 às 06:40

O Hernâni Carvalho lembro-me que de facto permaneceu lá até ao fim. Os outros não me lembrava. Mas estava a falar essencialmente de jornalistas de televisão, a propósito dos directos. Se bem me lembro, a SIC e a TVI saíram e só ficou a RTP, precisamente apenas com o Hernâni Carvalho.
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De Pedro Correia a 08.06.2017 às 08:07

Sim. E o Luciano, que trabalha (e trabalha) para o 'Público'. O Vegar, que reportava para o 'Expresso'. E o Jorge Araújo, julgo que na altura para 'O Independente'.
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De rão arques a 07.06.2017 às 22:05

A lição de Costa está bem estudada e dali não sai. Com qualquer arremedo de outro tipo de aprendizagem ele sabe que se desmorona.
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De Luís Menezes Leitão a 09.06.2017 às 06:02

Talvez. Mas às vezes faz tristes figuras. Como neste caso.
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De Luís Lavoura a 08.06.2017 às 09:39

Francamente, não entendo a lógica do post.
Acha bem que o chefe das secretas se tenha demitido por causa do que aconteceu em Timor. Mas ele não foi responsável pelo que lá aconteceu. E, se todos queriam dali sair, era normal que ele também quisesse. Que fez ele de mal?
A Ana Gomes, é claro, vitupera, mas ela estava em Jacarta, longe dos sarilhos. Prega de longe. Diz o que os outros deveriam ter feito, não aquilo que ela fez.
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De Luís Menezes Leitão a 09.06.2017 às 06:01

Na carreira diplomática nunca se pode entrar em pânico. Tem que se manter o sangue-frio em todos os momentos, sob pena de poder acontecer uma catástrofe. Ana Gomes criticou precisamente por causa disso, questionando o perfil do diplomata para o cargo. Não vejo porque não o deveria fazer.
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De sampy a 08.06.2017 às 13:19

Para os mais distraídos:

https://www.publico.pt/2017/05/31/politica/noticia/o-novo-chefe-das-secretas-esta-a-mentir-1774083

https://www.publico.pt/2017/06/06/politica/noticia/mentiroso-divulgue-os-telegramas-de-jacarta-e-dili-para-portugal-1774609

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