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Rebolar na lama

por João André, em 14.02.19

«Nunca lutes com um porco na lama. Ficas sujo e o porco gosta»

Esta frase vem-me frequentemente à cabeça quando leio caixas de comentários (aqui ou noutros locais, especialmente Facebook). A quantidade de pessoas que pululam nas mesmas para fazer avançar as suas agendas anti-liberais, quando não mesmo fascistas (a níveis diferentes) é elevada e, mais importante, são extremamente activas. São pessoas que ou compram quaisquer teorias, por mais disparatadas que sejam, desde que se oponham ao establishment e recusam quaisquer provas ou dados ou lógica que lhes desmontem a argumentação. Nisto caem as conspirações anti-semitas, negacionistas das alterações climáticas, anti-migração, liberais extremistas, antivaxxers, extremistas raciais (habitualmente brancos) ou culturais (habitualmente judaico-cristãos europeus e brancos e embora também os haja árabes e islamistas, não andam nas mesmas caixas).

Com eles não há discussão. Há apenas gritos e rejeição de toda e qualquer argumentação que lhes negue as opiniões. E preciso rejeitar ciência? Faça-se. É necessário demonizar outros povos ou culturas? Vamos a isso. Relativizar sofrimentos ou riscos? Fácil. Mentir? Uma constante.

Na Europa vemos cada vez mais disso. Salvini é neste momento o mais destacado representante na forma como está a controlar completamente o seu parceiro-fantoche de coligação e toma atitudes que estão contra qualquer decência. Orban na Hungria parece querer fazer avançar tudo o que lhe convenha, mesmo que tenha que avançar conspirações anti-semitas, obrigar trabalhadores a ficar no trabalho sem salário, proibir a entrada de imigrantes que nem sequer o almejam, dar contratos e proteger subsídios da família e amigos. Na Polónia Kaczyński tenta seguir o conceito Orban. Na Turquia Erdogan caminha para a ditadura usando o espantalho Güllen. Fora da Europa, na Venezuela felizmente o ditador é incompetente (sem Cuba já teria deaparecido). Nos EUA Trump continua a denegrir toda e qualquer pessoa que discorde dele (até tenta levar Bezos para a lama referindo-se à sua vida privada). No Brasil Bolsonaro agita o espantalho inexistente da ameaça do comunismo. O casos surgem quase todos os dias.

E depois temos os trolls deles. Muitos deles serão pagos, outros simplesmente idiotas úteis. Veremos nos próximos meses o resultado das suas acções nas eleições europeias.

Não conheço a solução. Sei que entrar nessas discussões é inútil. Regulação para evitar a propagação de falsidades nas redes sociais (ou caixas de comentários de media) seria útil, mas não suficiente. Discutir como lidar com o uso de mentiras em campanhas eleitorais seria boa ideia. Não falo de promessas que niguém irá cumprir (não há inocentes nesse aspecto), antes do uso de mentiras óbvias. Entretanto, o melhor seria evitar dar-lhes um megafone maior que o que têm. Ignorar esta suinidade não resolve o problema, mas não piora e não suja mais ninguém.

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34 comentários

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De João André a 15.02.2019 às 13:58

Confesso que quando comecei a ler o seu comentário ia começar com "olhe que isso depende de quem lê e daquilo que temos a tendência de recordar", mas depois você falou em Estaline e abrandei.

Tem toda a razão: as apologias de Estaline ou Lenine são muito mais toleradas que as de fascistas. Lenine é um caso específico. Provavelmente teria sido outro Estaline, menos bestial se igualmente brutal, mas morreu excessivamente cedo para isso. A memória da ideologia mantém-no vivo e dá tolerância.

Estaline sobrevive em parte por ter sido um dos vencedores da II Guerra Mundial. Se imaginássemos que os nazis e fascistas tivessem vencido a IIGM e o mundo nos 70 anos seguintes tivesse acabado por evoluir pacificamente para democracia, talvez esse mundo fosse mais tolerante para com Hitler ou Mussolini. Não sabemos, é apenas uma suposição. Sabemos que Estaline sai vencedor do conflito e por ter sido menos bestial que Hitler.

Um facínora que não sobrevive em nenhuma circunstância é Pol Pot. Não conheci um comunista que o defendesse realmente.

Há talvez um outro elemento (já falei desse assunto noutras alturas) que deve ser considerado nessas discussões: o fascismo é uma ideologi que parte da exclusão de todos os outros em favor de uns poucos. O comunismo segue pelo caminho oposto: parte da exclusão de uns poucos em favor das massas. Isto são os pontos de partida, note, nada a ver com as aplicações ou consequências. Mas tais pontos de partida ajudam os totalitarismos de esquerda a serem mais tolerados. A ideologia inicial é "boa" porque é inclusiva e propõe a igualdade (que a priori é vista como um bem). A ideologia inicial do fascismo é "má" (eu aqui poderia retirar as aspas) porque propõe a exclusão dos outros em favor de um (pequeno) grupo.

É a minha avaliação e valeria a pena pensar no assunto com mais profundidade (já deve ter havido muito quem o tenha feito). Ler Arendt ajudará.

Como escrevi para o V., o Costa e eu discordamos muitas vezes em termos ideológicos, mas penso que não neste aspecto: a violência, seja de que tipo for, deve ser confrontada e evitada. E a cordialidade é a melhor forma de se ser civilizado.

Abraço.
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De Costa a 15.02.2019 às 15:41

Grato pelas suas palavras. Provavelmente discordaríamos também nessa diferença essencial que invoca entre fascismo e comunismo. Creio que ambas se apresentavam como de massas (das massas contra o privilégio; e com elas assim o nazismo). E ambas se concretizaram (e uma se concretiza ainda) na formação de uma elite acima do credo professado e da massa diluída numa igualdade forçada e sufocante. Uma elite não exactamente despojada de apegos materiais, nem muito apegada a valores de justiça, exemplo, estoicismo e frugalidade).

E manifestavam-se na mobilização das massas. Mobilização massiva, gigantesca, frequente, rigorosamente coreografada, sem descurar alguma dose de regular violência revolucionária e onde o partido absorvia o estado. E, já agora, como então chamar fascista a um regime que tirando o "dia da Raça" (o dez de Junho), fundamentalmente um feriado estival, e a ocasional (porque foram raras) recepção ao venerando dirigente regressado de uma visita ao estrangeiro, ou ao império, às colónias ou províncias ultramarinas (isso e a paz de 1945), nutria verdadeiro horror às multidões, professava o "viver habitualmente", entre o adro da igreja e a casa do povo, conformado, "pobre mas honrado", agradecendo à providência o dom de ser pobre, e que fora dos momentos eleitorais fazia praticamente desaparecer a UN e a ANP?

Noutra coisa, contudo, estamos de acordo (e quis invocá-la no meu comentário anterior, não o tendo feito por recear parecer deplorá-la): as coisas são hoje classificadas como são, porque vivemos desde 1945 sob uma justiça dos vencedores. Como são todas as justiças e como todas as justiças - porque feitas pelos homens - imperfeita: justiça, mais do que Justiça.

Isto dito (e nem quero colocar a hipótese que formulou; mesmo que potencialmente muito interessante em termos de debate de história alternativa), felizmente venceu esta.

Costa
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De João André a 15.02.2019 às 15:53

Claro que é uma hipótese apenas académica ou contrafactual. 100% de acordo.

E penso que a nossa conversa demonstra como ter um debate entre pessoas com posições divergentes mas com respeito pelos pontos de vista um do outro.

Grato também eu por isso.
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De Anónimo a 15.02.2019 às 17:37

Estaline merece todas e mais algumas críticas, mas não me esqueço que, com ele no comando, o Exército Vermelho matou 5 milhões de nazis. E aí eu estou eternamente agradecido ao Exército Vermelho.
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De Costa a 16.02.2019 às 17:54

Cinco milhões de nazis, escreve... Matou, sim, alemães. Como Hitler matou comunistas, mas matou sobretudo russos (soviéticos, seja). Uns e outros vinculados, não o esqueçamos, e até pouco antes, a famoso - mas convenientemente esquecido (a tal justiça dos vencedores a operar) - pacto.

Matou alguns, muitos, nazis. Mas matou sim cinco milhões - ou o número que quiser - de alemães, lançados na guerra, e nas misérias que esta traz, por decisões em que não foram ouvidos. Alemães, isso, mais que nazis. Recrutados que não voluntários. Civis, muitos civis, também. Matou e violou - ou em seu nome o fizeram - quem, como muitos dos que directamente mataram e violaram, não foi tido nem achado.

Dir-me-á que eram de facto todos nazis, cerebralmente lavados, fanáticos merecedores do pior. Todos? E do outro lado, não se poderá apontar o mesmo, a mesma fanatização? E do outro lado, eram então todos - todos os muitos milhões que morreram - quadros comunistas, solidamente doutrinados e profundamente certos da justeza do que faziam? Todos dispostos, romântica e convictamente a pagar esse preço. Não havia povo - povo aos milhões - lançado sem mais na carnificina? Povo, civil ou militar, embrutecido de medo, apenas a tentar sair dali vivo. Ou nesse embrutecimento capaz de fazer o pior, do puro sadismo, sobre quem lhes caía nas mãos.

O horrível, mesmo quando imposto por razões a que não se pode virar a cara, não deixa de ser horrível. Curiosa visão da História, a sua, tão convenientemente simples. Curioso júbilo com a morte, a morte aos milhões, o seu.

Costa

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