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Delito de Opinião

Rebelo de Sousa em Moçambique

jpt, 15.01.20

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O nosso Presidente está em Moçambique. Desde o primeiro dia, via Whatsapp, troco fotografias das suas andanças entre um largo núcleo de amigos, portugueses que lá viveram durante as últimas décadas. Conhecemos o país, os sítios visitados, interpretamos melhor as interpretações locais. O nosso desconforto é generalizado, alguns mesmo seguindo irritados. O resmungo com o populismo é até explícito. Uma querida, e tão clarividente, amiga, minha vera mana, resumiu tudo, num desalentado e nada leninista "que fazer?". De facto, nada podemos fazer diante desta pantomina que o nosso povo elege e adora.

Entretanto, no seu mural de Facebook o ex-bloguista João Gonçalves - o qual, que eu saiba, nem sequer conhece aquele país - explicita tudo, explicando o nosso desconforto: "E em Moçambique, o chefe do Estado a que deixou tudo chegar engraxa sapatos, corta cabelo e comporta-se como o filho caprichoso do antigo governador geral da Colónia que ele nunca deixou de ser."

As pessoas aqui, na sua maioria, não compreendem. Mas é isso mesmo. O festivaleiro desta visita. E, muito mais importante, o vácuo desta presidência. 

Adenda: logo me dizem que MRS é folclórico. Mas não é apenas, ainda que o seja, "folclórico". Disse o célebre filósofo que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Para quem conheça a história tardo-colonial em Moçambique são notórias as semelhanças entre a postura do antigo governador-geral - que era um Senhor, note-se, e de verdadeira grandeza humana - durante a "primavera marcelista", intentando mostrar um "colonialismo de rosto humano" (passe a expressão, que é glosa), um poder entendido como "relações públicas" assente na linguagem dos "afectos", mas que terminou como terminou (tinha historicamente de terminar, anacrónica injustiça que era) e a postura do seu filho, actual PR. 

MRS tem assim, desde o início, o projecto mais reaccionário - na velha expressão - da história da democracia portuguesa, o da "apolitização" da sociedade através desta pantomina "afectuosa" [já ninguém fala de "coabitação", de "consenso", de "estabilidade", de "bipolarização", todo esse jargão político presente nas presidências anteriores, que servia para tentar consensualizar o país. Agora já nem há essa abordagem, resta apenas a "selfiezação", "o abracismo", o marketing da a-conflitualidade]. É isto uma farsa, uma triste - e sem a grandeza, a densidade católica, do protagonista anterior - derrapagem. Antes tudo decorreu durante a "tragédia" de um final de regime. Agora não sei que corolário será o desta farsa. Que nada tem de projecto a não ser este folclorismo.

 

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