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Rebeldes, separatistas e equívocos [pub]

por Diogo Noivo, em 22.05.19

zaragozaETA.jpg

 

Em vésperas de eleições europeias impera a preocupação com nacionalismos e com extremismos. Mas há um nacionalismo que escapa à preocupação apesar de ser responsável por mais de 800 homicídios e de defender esse legado de violência a partir de instituições democráticas.

Até para precaver reincidências, importa chamar as coisas pelos nomes. No referente à ETA, as palavras “rebeldes” e “separatistas” são equívocos que devem ser evitados, pois foi uma organização terrorista. Defendo este argumento hoje, no Observador.

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33 comentários

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De Diogo Noivo a 23.05.2019 às 10:13

Debate muito interessante, caros Pedro e Costa. De facto, o tema é controverso, havendo sobre a definição conceptual de terrorismo largos volumes e centenas de artigos publicados. Poupo-vos (e poupo-me) à verborreia académica, muitas vezes soporífera e ensimesmada, mas centro-me em dois ou três contributos importantes dados pelos rios de tinta e horas de debate que já foram dedicados ao assunto.

Primeiro, importa ter presente que o terrorismo é uma táctica, que quando usada de forma preferencial, reiterada e sistematizada assume um carácter estratégico. Logo, um exército regular pode recorrer pontualmente a tácticas terroristas (um crime de guerra) sem com isso se tornar numa organização terrorista.
Segundo, é consensual que o terrorismo enquanto estratégia passa por condicionar comportamentos sociais e políticos através do medo suscitado pela violência (real ou sob forma de ameaça). Logo, a violência terrorista distingue-se de outras porque os efeitos psicológicos que causa são sempre muito superiores aos dados materiais e humanos que provoca.
Terceiro, as vítimas directas da violência terrorista nunca são os seus reais destinatários. Cumprem uma função simbólica: são membros de uma sociedade vista como hedonista e infiel; são juízes e polícias e, portanto, símbolos da autoridade de um Estado tido como opressor/colonial, etc. Este ponto é importante, pois separa o terrorismo de outras formas de crime.
Por último, e também enquanto factor de distinção, as organizações terroristas, ainda que por definição clandestinas, necessitam de publicitar os seus actos (ao contrário, por exemplo, de organizações de tráfico de estupefacientes), sob pena de não se cumprir o segundo ponto aqui referido.
Espero com isto ter introduzido ainda mais entropia no debate – que sinceramente agradeço, pois é-me muito útil. Saudações a ambos.
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De Vorph Valknut a 23.05.2019 às 12:14

Diogo, obrigado! E parabéns por ser colunista no Observador, um jornal que fazia falta em Portugal (a "verdade" surge do contrastar da informação)

Não sei se lhe interessa, ou se já viu, mas ontem assisti a este excelente documentário, no canal Al Jazira, sobre a morte ( envenenamento por Polonio) de Arafat com a possivel conivência da Autoridade Palestiniana.

https://youtu.be/KBT7o0piZ8E

https://youtu.be/qr2DULWPzAs
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De Costa a 23.05.2019 às 12:17

Agradeço-lhe as linhas que deixou acima. Não posso, quanto a elas, outra coisa fazer do que concordar. Em todo o caso, permita-me que alargue a tipificação das vítimas directas que elenca. Três casos ainda recentes - Londres, Paris, Madrid - demonstram que o refinamento do alvo, "limitando-o" ao polícia, ao juiz, ao militar, ao político, já não é característica necessária do acto terrorista. Vale, definitivamente, tudo. Todos são (somos) alvos legítimos.

O que nem se estranha, quando o acto terrorista parece visar crescentemente não a "libertação" de um povo ou território, do alegado jugo de um opressor identificável na figura do dirigente político, na do representante da sua força repressiva, ou naquela da sua justiça iníqua; tem antes a missão (pelo menos propalada), tutelada por um imperativo religioso, de aniquilar uma civilização e impor outra, todos os meios servindo esse fim.
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De Diogo Noivo a 23.05.2019 às 12:37

Pedro, agradeço as felicitações, mas sou apenas um escriba muito episódico. Verei o documentário com interesse.

Costa, bom ponto. Ainda assim, embora a violência seja na aparência indiscriminada nos alvos, as vítimas directas continuam a cumprir uma função simbólica. São membros de uma sociedade que os atacantes entendem como corrupta, além de complacente com os alegados desmandos do Estado. Por outras palavras, não é o indivíduo que interessa, mas sim o que ele representa para a organização.
E, a propósito, note-se que a abertura do leque de potenciais vítimas não é um exclusivo do jihadismo. Em 1995 a ETA inaugurou uma etapa conhecida como “socialização do sofrimento”: mais do que atentar contra representantes do Estado, a violência tinha de chegar a todos. E chegou, visando jornalistas, académicos, intelectuais, taxistas, empregados de mesa, etc. Comparando passado e presente, creio que não se trata de obliterar uma civilização, mas sim de quebrar por completo o inimigo (o Estado colonizador, os infiéis, etc), recorrendo a todos os meios possíveis.
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De Vorph Valknut a 23.05.2019 às 13:57

Costa, segundo a lógica terrorista, as guerras declaradas pelos governos/ Estados Ocidentais, são consideradas,pelos terroristas, ilegitimas, e os "danos colaterais", assassínio de gente inocente, ou mesmo actos terroristas. Como os governos são eleitos pela sociedade civil, seguindo a lógica terrorista, esta é cumplice dos "massacres" perpetrados pelos seus governos.
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De Costa a 23.05.2019 às 17:42

Evidentemente. A nossa condição de cidadãos desses estados implica, sem mais e aos olhos dessa gente, a nossa condição de inimigos. Nada disso é de estranhar.

De estranhar (ou talvez já nem isso, tal o rumo auto-flagelatório que tomámos) é encontrar pessoas, no "nosso lado", que aparentam até a posse da capacidade de um módico de raciocínio e se afadigam em justificar e desculpabilizar os actos terroristas.

O masoquismo terá as suas delícias, suponho.

Costa

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