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Reavivar uma paixão antiga

por Alexandre Guerra, em 26.01.18

Gostei de ver o The Post, não tanto pelo filme que é em si, mas pelos sentimentos que despertou em mim, tendo em conta as minhas fortes ligações ao jornalismo. Não é que o filme esteja mal feito (porque não está) ou que tenha erros factuais significativos (porque não os tem). Não se trata disso. Dias antes tinha visto Newspaperman, um documentário produzido pela HBO, lançado no passado mês de Dezembro, e que retrata precisamente a vida de Ben Bradlee, desde a sua juventude até ao reinado no Washington Post. Um documentário muito bem feito. Acho até estranho que à “boleia” do The Post ninguém fale neste documentário, já que dá uma perspectiva muito mais realista e objectiva de todo o enquadramento político e social de Bradlee e do Washington Post. Seja como for, o The Post reavivou uma paixão antiga.

 

Fui jornalista durante alguns anos, a maior parte do tempo no SEMANÁRIO, mas já o meu avô tinha sido tipógrafo no Diário Popular (na verdade, era linotipista, operador dos linótipos, aquelas máquinas tão bem retratadas neste filme do Spielberg). O meu pai é jornalista desportivo desde sempre, tendo passado toda a sua carreira bem no coração daquela profissão, o Bairro Alto. Esta zona de Lisboa foi durante muitos anos o centro nevrálgico de quase todos os grandes jornais em Portugal, onde os maiores detinham gráficas próprias, também localizadas nas entranhas daquele bairro histórico (hoje só a A Bola lá continua) Em criança ainda tive o privilégio de conviver com esse ambiente noctívago, dos prédios antigos com as escadas em madeira, onde as redacções se acomodavam como podiam. Lá dentro, o som poético das máquinas de escrever, acompanhado pela precursão característica dos telex, e a azáfama dos “operários” das letras, banhados pela atmosfera pesada do fumo. Havia noites em que esperava pelo meu pai na casa da minha avó no Príncipe Real, onde ele ia jantar quase sempre. De regresso ao jornal, houve várias vezes em que o acompanhei para assistir ao fecho da edição, a horas proibitivas nos dias de hoje. Estamos a falar dos anos 80. Ficava fascinado com o que via. Só podia. Os pais dos meus amigos tinham profissões “normais”, com horários “normais”, em escritórios “normais”, com assuntos “normais”. Na redacção eu via todo um mundo novo. Para um rapaz nos seus 8, 9, 10, 11 anos, imagine-se o fascínio por estar dentro de uma aventura, na qual o trabalho era vivido com paixão e euforia. O trabalho era escrever sobre futebol. Aquela vida passou a ser, de certa forma, a minha “normalidade”, onde a agenda familiar era, muitas vezes, definida em função do calendário do Benfica ou de outros clubes. Vá-se lá saber porquê, mas nunca esqueci que a minha irmã mais nova nasceu na noite em que o Benfica jogou com a Universidade Craiova, nas meias-finais da Taça UEFA, em Abril de 1983.

 

A emoção, o entusiasmo, a excitação, a adrenalina de tudo aquilo… Não se tratava apenas de uma profissão, mas de um modo de vida que ia para lá do convencional e que, desde o início, me apaixonou. Depois do jornal “fechado”, e uma vez que o meu pai tinha um cargo de chefia, acompanhava-o à gráfica do Diário de Popular, mesmo em frente ao Conservatório de Lisboa, onde eram também impressos o Record (onde o meu pai trabalhava na altura) e a A Bola (para onde foi trabalhar posteriormente). Penso que esta era a maior gráfica do Bairro Alto, chegando a ter duas impressoras. Mas, por exemplo, nas ruas próximas, também o Diário de Lisboa tinha a sua gráfica, tal como a Capital ou o Século. Com tudo pronto, chegava o momento mágico, aquele em que as rotativas começam a girar. É uma experiência única, porque toda ela simboliza a força da liberdade de imprensa, é o momento em que a verdade se torna imparável. Como disse Kat Graham, publisher do Washington Post, interpretada por Meryl Streep, no final do filme, os jornais são o primeiro “draft” da História. É uma grande frase.

 

Muitos anos mais tarde, em tempos onde o jornalismo já tinha perdido quase toda a sua aura romântica, a maior parte da minha modesta carreira de jornalista foi no SEMANÁRIO (um projecto jornalístico político que um dia merece que se lhe dedique algum tempo na sua história). Foram tempos inesquecíveis e, tal como o Washington Post (e aqui, naturalmente, pede-se ao leitor que contemple o devido distanciamento entre as duas realidades), o SEMANÁRIO tinha uma gráfica própria que funcionava por baixo da redacção, num edifício industrial cor-de rosa no Dafundo, à saída de Lisboa. Percebi que relação íntima entre a redacção e a gráfica é como a relação entre um homem e uma mulher apaixonados… Dê lá por onde der, corra mal o que tiver de correr, no final do turno, o jornal vai para a rua e o final é sempre feliz. E depois vem o sentimento de missão cumprida. Quantas vezes não fechámos o jornal às quintas à noite e lá íamos jantar tardiamente, seguido de um “copo” algures. De madrugada, passávamos pela gráfica para ir buscar um exemplar ainda “quentinho”, acabado de sair das rotativas. É uma magia que não se explica e quando, por vezes, tento fazê-lo, sinto que não sou bem sucedido. Filmes como o The Post têm a virtude de nos fazer reviver essa magia e mostrar, a quem nunca esteve neste meio, o quão absorvente e romântica era aquela profissão.


8 comentários

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De Beatriz Santos a 26.01.2018 às 19:04

Pronto, hei-de constatar esse romantismo e absorvência profissionais.
Pode não conseguir transcrever a paixão pelo jornalismo, mas dá uma ideia a quem lê:).
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De Costa a 26.01.2018 às 20:02

Não sou, não serei (mas tantas são as voltas da vida... ) jornalista. Mas sou neto de linotipista. Do Diário de Notícias.

Voltei ao meu avô João Costa, com este seu texto. Ao seu estranho horário que o fazia trabalhar quando outros (quase todos) descansavam. E a tanto mais

Há memórias felizes. Agradeço-lhe por esta.

Costa
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De Carlos Alberto Ilharco a 26.01.2018 às 20:31

Excelente e poético post.
De todos os jornais portugueses mencionados, só os dois desportivos sobreviveram.
Porque terá sido?
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De Lucklucky a 27.01.2018 às 15:27

Um jornal - sem ser desportivo - tem valor se nos ajudar a compreender o mundo e assim conseguirmos prever o que vai acontecer.

Como a maioria dos jornalistas é Marxista os jornais naturalmente falharam em tudo. E as ruínas ainda não acabaram. É possível que levem a ciência de investigação com eles.
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De Maria Dulce Fernandes a 26.01.2018 às 21:33

Também gostei de ver o filme. Numa época em que se fazem prequelas de todos os grandes clássicos, pode dizer-se que The Post é uma prequela dOs Homens do Presidente.
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De Lucklucky a 27.01.2018 às 15:24

Se tivesse sucedido o mesmo na Segunda Grande Guerra Mundial os jornalistas teriam sido condenados com traidores e ao serviço do Nazismo...

Quando as guerras têm o apoio da Esquerda Marxista muda tudo.


Quanto ao Diário Popular ainda tenho os números do suplemento Aerospaço.
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De Vlad, o Emborcador a 28.01.2018 às 09:35

Alexandre o filme entre outra coisas é uma crítica clara à relação de Trump com a imprensa. Trump faz neste tema lembrar Nixon. ( a escolha de Meryl Streep não é inocente )

Além do mais relembra que a missão da imprensa livre é a de servir os governados e não os governantes. Um Contrapoder.
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De Lucklucky a 29.01.2018 às 20:34

Não fazes sentido algum. Trump pela sua relação facilita essa o trabalho da imprensa. Claro a imprensa sendo feita por padres políticos são incapazes de fazer jornalismo.

Veja-se a enorme lista de fake news sobre Trump - que depois tiveram de ser corrigidas pelos próprios jornalistas.

A diferença é que Trump ao dizer que está do outro lado ganha reputação pelos falhanços constantes do jornalismo.




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