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Na semana passada estive na principal conferência científica da minha área técnica e vi que o foco continua a ser quase exclusivamente (ou pelo menos com esmagador peso) na investigação dita fundamental. A investigação aplicada pareceu quase ausente e poucos exemplos existiram entre apresentações orais e de posters que recaíssem em casos industriais, mesmo a nível piloto.

 

Sempre existiram diferenças entre o tipo de investigação que os países tendem a apoiar (habitualmente por razões históricas). A Alemanha sempre teve o hábito de ter uma investigação muito aplicada, resultado de as empresas do seu Mittelstand normalmente deixarem determinado tipo de investigação para as universidades sob a forma de contractos. Outros países perferiram investigações mais fundamentais, para desenvolver conceitos absolutamente novos, que pudessem ser disruptivos nas suas indústrias. Esta é uma generalização grosseira (normalmente este tipo de foco é mais específico da instituição que do país), mas serve para dar uma ideia da separação entre os tipos de investigação.

 

Só que hoje todas as universidades parecem optar por investigação fundamental e cada vez menos seguir pelo lado da aplicada (pelo menos no que diz respeito à engenharia). Pessoalmente considero isso um resultado dos rankings de universidades, os quais colocam um peso muito elevado na componente de investigação, especialmente pelo lado das publicações. Ora, dado que as empresas raramente permitem a publicação dos seus resultados, isso faz com que as universidades, para poder manter um númro de publicações aceitável, optam pelo atalho de fazer apenas investigação fundamental, mais rápida e, por via do seu carácter completamente exploratório, menos passível de sofrer com resultados negativos.

 

Isso torna as uniersidades - ou os seus professores - paradoxalmente mais conservadores na sua escolha de temas. No ciclo actual de financiamento a apresentação de resultados preliminares e a demonstração de capacidade (sob a forma de competências ou equipamento) para executar a investigação proposta tornam-se factores determinantes para a concessão do projecto. Isso faz com que os professores acabem a propor inúmeras variações sobre os mesmos temas, conseguindo financiar projectos consecutivamente com os resultados do projecto anterior. Uma compração seria investigar teoricamente a aderência de pneus à estrada propondo de cada vez novos desenhos para os perfis, novos materiais ou novas dimensões, sem nunca avançar para um produto final.

 

O resultado é um mundo científico que cada vez mais se desliga do mundo industrial devido ao risco que existe de fazer investigação que não permite a publicação ou, devido à sua natureza, dará origem a menos publicações para a mesma quantidade de trabalho. Em resposta a isso as empresas começam a fazer a sua própria investigação, a qual recai também nos temas com que os seus cientistas se sentem confortáveis e não introduzem quaisquer verdadeiras inovações, apenas fazem avanços incrementais. Isto sucede especialmente porque a indústria vive do conceito do retorno sobre o investimento (Return on Investment - ROI, no jargão inglês). Uma investigação mais arriscada demora mais tempo e custa mais dinheiro, tanto em desenvolvimento como em novo equipamento e na implementação. A opção é então por projectos mais conservadores e seguros.

 

Temos então que as opções que a sociedade moderna fez para dar um impulso à investigação - criar rankings e colocar grande peso na publicação científica - poderá causar pelo menos em parte o efeito oposto. Claro que estou a simplificar o caso, mas ver, pelo 15º ano consecutivo, o tema de mixed matrix membranes para remoção de dióxido de carbono, uma solução que a indústria continua a rejeitar como pouco relevante, deixa-me sempre desiludido com a investigação de professores que, de outra forma, admiro.


3 comentários

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De Zeus a 08.08.2017 às 19:43

"hoje todas as universidades parecem optar por investigação fundamental"

Garanto-lhe que, outra coisa fundamental é chegarem a conclusões pré-determinadas e, se mesmo assim, não acredita que seja o dinheiro a comandar tudo aquilo com que os cientistas se "sentem confortáveis", francamente, nunca saberá as verdadeiras razões.
Há cientistas afastados das suas funções por discordarem de falsa ciência que manipula resultados para servirem os interesses de quem subsidia esses "temas".

Ou pensa que o "ciclo actual de financiamento, com a apresentação de resultados preliminares" é mera coincidência e nasceu por obra e graça do "espírito santo"?
Como em muitos assuntos da actualidade, nunca foi tão certeira a expressão "Follow the Money" e saberá quais são os verdadeiros beneficiários de certas condutas e conclusões, nem que estas conclusões precisem de ser "cozinhadas" até à exaustão.

Posso não perceber nada de "mixed matrix membranes para remoção de dióxido de carbono" mas, no geral e, quanto a dióxido de carbono, não deve haver muito para remover porque, quando, nas estatísticas climáticas, misturam vapor de água com dióxido de carbono, para tentar aumentar a sua percentagem nos gráficos, para encaixar no Programa de quem subsidia esses "estudos" quer, mesmo, continuar a ficar desiludido. Os seus estudos podem não ter nada a ver com estes mas, só juntar as palavras "dióxido de carbono" e "remover", lhe garanto que não vai conquistar subsídios ;)
Sabe que na pré-História, havia animais de grande porte e onde as árvores podiam atingir vários metros de largura e altura:

"The proportions of the trees obeyed a rule: the diameter of the stump was approximately 3 times higher than the height of the woodcutter, let (1.75 m x3) x20 = 105 meters! Just think! Now you go into the woods, the height of which is in general no more than the usual 30 meters compared to 100. These were the fabulous forests"

Muitas destas árvores foram cortadas na Califórnia entre 1880 e 1920 onde apenas deixaram algumas para amostra como a famosa "General Sherman, uma sequoia-gigante conhecida por ser a mais volumosa árvore do mundo. Estima-se o seu volume em 1487 m³ mas, nem sequer é a árvore mais alta do parque, com os seus 83,8 m de altura.
Tanta conversa para quê?

"Dióxido de carbono, gás que é exalado pelos seres humanos e animais mas é metabolizado pelas plantas", porque o tamanho destas árvores, está relacionado com a prévia existência de grande quantidade de dióxido de carbono, o alimento que as fez crescer tanto, coisa que, actualmente, tentam provar haver mais, por nossa culpa mas, não é isso que a Natureza demonstra e, definitivamente, não encaixa no actual "Programa" de quem subsidia os estudos climáticos e, assim, se preparam para nos castigar com umas taxas, culpando os seres humanos pelo aumento do dióxido de carbono...

A escolha é sua, continuar a não perceber o Sistema onde vive ou voltar aos vídeos que lhe deixei no seu Pensamento da Semana e começar a sua própria investigação e, lhe garanto, pode sentir muita coisa mas, desilusão ficará nos últimos lugares ;)
Ainda se lembra da hipótese que lhe coloquei?
"E se descobrisse que Tudo o que julga saber, não passasse de mentiras?"

Só tenho estas duas possibilidades, desafiar a sua curiosidade ou ficarmos, ambos, de braços cruzados, encostados às nossas desilusões ;) e, por aqui, se aparecer o comentador -Vlad, o Emborcador- para esquecermos as desilusões, até podemos emborcar qualquer coisa líquida, em vez de gás por mim, bebo uma cerveja preta sem álcool, bem geladinha, só não digo a marca porque não me pagam para isso mas, vem em garrafa de vidro porque tento evitar metais e plástico ;)
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De Zeus a 10.08.2017 às 06:39

Deixo-lhe um curtinho e recente para meditar:
https://www.youtube.com/watch?v=vrKs_vduiKU&feature=em-uploademail
It's Official: This Is Straight out of Orwell's 1984...
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De M* a 13.08.2017 às 13:10

Concordo em parte. Também trabalho em investigação (sou bolseira) e já compreendi que a investigação em Portugal não assenta no conhecimento prático e, muito menos, em temas que possam favorecer o desenvolvimento empresarial, mas sim, em temas que possibilitem publicações. Um pouco para lá do que é necessário. Depois não admira que exista um fosso tão grande entre as empresas e a investigação.

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