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Quo Vadis, Matrona ??

por Maria Dulce Fernandes, em 17.12.13
A mulher é feia ou bela, conforme os olhos que a vêem. - Julius Caesar




“There is a tide in the affairs of men
Which, taken at the flood, leads on to fortune;
Omitted, all the voyage of their life
Is bound in shallows and in miseries.
On such a full sea are we now afloat;
And we must take the current when it serves,
Or lose our ventures.” 

(William Shakespeare - Julius Caesar)



Ao princípio não percebi o que me atingiu. Era frio, espesso e tinha um cheiro asqueroso. Levei mecanicamente a mão à cara e vi que era escuro e grumoso. Perplexa, tentei levantar-me, mas apesar de não me sentir presa, parecia confinada a um qualquer lugar pequeno e escuro que me envolvia como uma prisão. À força de um pouco do engenho entorpecido e da escassa ginástica que ainda me resta na flácida musculatura e ossos artríticos, saí do que me pareceu um buraco num tronco duma árvore para uma floresta opaca, embaçada de névoa e condensação de respirares de homens e bestas. 
Senti alguém puxar-me e vi dois homens não muito altos, sujos, barbudos e desdentados que dentro de todo aquele absurdo, me interpelavam e eu entendia.
"- o que faz uma matrona que enverga a púrpura dos Césares, sozinha neste campo de morte ?"
Perante a minha estupefacção, levaram-me a reboque apesar da  minha resistência e da fraca explicação de que eu simplesmente envergava um robe de polar bordeaux que me tinham oferecido pelo aniversário de casamento, mas os meus captores pareceram nem se importar e continuámos a arrepiar caminho na direcção em que o som de mil forjas de Hefesto pareciam estar em plena laboração. De repente cai-me aos pés uma pedra enorme, que olhando bem, era uma cabeça humana decepada e ensanguentada, à qual os dois pavores que me seguravam não deram a mínima importância, como se cabeças cortadas para eles fossem uma coisa normalíssima. Foi então que lá no fundo do torpor espaventoso em que me encontrava, realizei que devia ter atravessado um qualquer campo de batalha.

Entrei numa tenda relativamente confortável e mandaram-me esperar. Pouco tardou que um grupo de homens feios entrasse atrás de um outro já entradote, de peitoral brilhante, escova no capacete e capa da cor do meu robe . 
"- És Vidente, discípula de Minerva, matrona?  És tu quem vem dizer-me dos auspícios ?"
Como é óbvio, fiquei a tremer como varas verdes e tartamudeei que sim... olha, iria ser o que Deus quisesse... " Diz então o que me vieste dizer" "- Só sei uma " Beware the ides of March", será que serve ?"
" Hummm..O que está fora da vista perturba mais a mente dos homens do que aquilo que pode ser visto." " Pois, é capaz, acho que tem razão senhor""Cada qual é artífice da própria fortuna, sabes matrona?É melhor sofrer o pior agora do que viver no eterno medo dele." " Ah, sei e acho que está absolutamente certo" " Uderzix, Goscinix ! tragam vinho morno com mel e fruta para a matrona, que está muito gorda para outros pitéus!"  ... e num majestoso movimento de cabeça e ombros,a purpúrea capa ondulou e César saiu.

Realmente cheirava bem; cheirava a comida, a doce... um bocado a ranço, mas não era um aroma fedegoso. Os escravos-  que afinal não eram outros que os meus salvadores, só me trouxeram o vinho e a fruta, que tinha um aspectozinho miserável ( pior do que a Jumbo!)e que eu educadamente declinei. Passei talvez uma hora, talvez mais a bebericar aquela coisa do mel e a ouvir as histórias dos escravos sobre as campanhas da Gália, e da sua aspiração a serem homens livres e famosos, talvez como Vercingetórix, ou quem sabe, o próprio César.






De repente um burburinho medonho, e fui espreitar lá fora. Estavam todos perfilados. Os escravos levaram-me de arrasto mais uma vez para aquela molhada de gente feia.... Senhores, quem viu o Ben-Hur, A Queda do Império Romano ou até mesmo o mais realista Gladiador, não faz a mínima noção da realidade física dos soldados romanos...nem do cheiro, credo....

Então, como a uma só voz gritaram :"Ave Caesar, morituri te salutant" .... "Senhor César, espere aí, eu não sou de cá, sou Portuguesa, da Ibéria" " Ah, sim, há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar, já ouvi falar, mas já que vieste, ficas."
Cheguei-me aos escravos e disse-lhes " Se eu vos prometer que daqui a algumas gerações os Gauleses vão ser tão ou mais adorados que César e que os vossos descendentes serão mundialmente conhecidos, deixam-me ir embora ?"  Eles disseram que sim e eu saí de mansinho e corri como nunca pensei ser capaz de correr e só parei quando dei por mim sentada na sanita, borrada de medo.


                                             


25 comentários

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De R. a 17.12.2013 às 14:57

Lembrei-me do Alix, a banda desenhada, ao ler este texto. Boa tarde :-)

R.
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De Laura Santos a 17.12.2013 às 15:42

Mas que relato de pesadelo. Deu mesmo para imaginar o ambiente de terror...:-) É o que dá usar as cores de César!
" A mulher é feia ou bela conforme os olhos que a vêem", e até há mulheres feias extremamente belas.
xx
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De M D Roque a 17.12.2013 às 15:57

Conheço perfeitamente, bom companheiro de tardes ociosas. Antigamente As Aventuras de Alix ( assim como N outros heróis de BD) eram distribuídos tipo "fotonovela" no Tintin, que trazia a guerra total lá a casa assim que o pai o ia comprar. Ficávamos sempre expectantes, porque as histórias, algumas, demoravam meses para acabar.
Os dois livros que li encadernados num livro de aventuras de herói, foram O Túmulo Etrusco e O Espectro de Cartago, que obviamente passaram a ser os meus favoritos. Eu ainda sou Louca por BD ... Beijinho R, :):)
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De M D Roque a 17.12.2013 às 15:59

O César era sábio... "O homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens" , sabia destas coisas, ou não tivesse este cognome... Beijinho Laura, Obrigada
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De R. a 17.12.2013 às 18:07

Não me recordo de todos os que li do Alix, mas neles estavam 'As Legiões Perdidas', 'Iórix o Grande', e também o 'Espectro de Cartago'. Acho que só voltando a tê-los nas mãos para me lembrar :-). Beijinhos, M D Roque :-)

R.
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De M D Roque a 17.12.2013 às 18:35

Eram aventuras fantásticas baseadas em factos históricos.... Saudade R... Blueberry, Blake & Mortimer, O meu Corto, que ainda releio, o Michel Vaillant e o Steve Watson, o Tintin, o Lucky Luke...
Mais tarde Bourgeon e o deslumbre d'Os passageiros do vento... :):):) BeijinhOS R :):)
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De Luisa a 17.12.2013 às 20:59

O que eu adoro estas tuas incursões numa insanidade genial! Só tu para te lembrares desta. Chapeau !
Beijinhos
Luisa
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De M D Roque a 17.12.2013 às 21:02

Ofereceram-me o último Asterix... Voltei aos meus 15 anos e olha, " Hoje deu-me para isto"... :):):)
Beijinho, linda.
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De Pérola a 18.12.2013 às 09:35

Tempos idos que não sei se seriam melhores.

Apesar de tudo prefiro as crises atuais.

Os romanos devem ter sido intensos e poderosos sob todos os aspectos.

Que restam deles?

Nós ainda carregamos os seus genes, as suas tradições.

Uma descrição que arrepiou.

Beijinhos
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De M D Roque a 18.12.2013 às 12:37

Ainda restam as leis mundiais. Muitos dos códigos civis e penais têm como base a lei Romana. Duralex Sedlex, mas só para alguns, infelizmente.
Beijinho Pérola, obrigada :):):)

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