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Quinta dos animais

por José Meireles Graça, em 11.11.19

A partir de certo momento na infância, e em toda a adolescência, éramos seis irmãos à mesa. Não havia mimos para ninguém, muito menos fora das horas das refeições, e portanto nunca ninguém sofreu de falta de apetite. Pelo contrário: o que havia era alguma atenção, não fosse algum dos mais velhos apropriar-se indevidamente de mais do que a sua ração.

Com a estadia de um primo angolano largado pelos pais durante quatro dias em nossa casa, fiquei a saber coisas portentosas: o primo em questão, para comer, precisava que lhe contassem histórias, porque sofria de fastio; e com esse meritório propósito existia em Luanda uma empregada que, abençoada, tinha um jeito especial para ultrapassar a dificuldade, narrando ao menino coisas de espantar.

O primo, na primeira refeição, não comeu nada; e, esboçando um princípio de choraminguice porque queria um bifinho, recebeu, no silêncio geral, um olhar severo do meu Pai, que o transiu.

A cozinheira, a quem se dirigiu fora de horas, informou-o de que não se comia a não ser à mesa ou ao lanche; e que este consistia numa fatia de sêmea e um copo de leite.

Na segunda refeição talvez tenha debicado alguma coisa; e ao terceiro dia era um de nós.

Esta experiência, que me revelou aos seis anos que havia estranhos mundos muito diferentes do meu, foi complementada algum tempo depois com outra ainda mais exótica: havia mães que, doentes de ansiedade pelo pouco que os meninos estavam dispostos a comer, e esgotados os artifícios – só havia sobremesa se comesse a sopinha, eram só duas colheres, se não comesse não crescia, etc. etc. –  lembravam que havia no mundo muitos meninos pretos, coitadinhos, a morrer de fome. O argumento perturbou-me porque não percebia por que forma é que o que ficava nas travessas haveria de chegar aos pretinhos – o meu primeiro livro era justamente sobre um menino que ia numa atribulada viagem de barco para África, e durava semanas.

O tempo explicou-me as coisas e acabei por perceber que acabar com a fome não depende de haver menos obesos, nem menos desperdício, mas da liberdade de comércio, das boas vias de comunicação e da gestão inteligente dos países. Dito de outro modo: em África, onde há fome sem guerra há governos corruptos e ineptos, quase sempre de esquerda porque foi a esquerda que patrocinou os movimentos de libertação.

Ou seja: a diminuição da abundância, ou da riqueza, de uns, não se traduz automaticamente no consolo de outros. E todavia:

Esta notícia ofende quem ache que os animais não são pessoas; e que é imoral que, no mesmo país em que tanta gente morre por falta de assistência médica tempestiva, se invistam milhões para prolongar a vida de cãezinhos e gatinhos.

Sempre tive cães, livres de entrarem e saírem de casa quando queiram, bem alimentados e tratados e, salvo no que toca a alguma disciplina básica de higiene e convívio, completamente deseducados. Mas nunca fui paizinho senão das minhas duas filhas; a lamechice de tratar os bichos como “filhos”, e a dona da casa como “mamã” dos bichos, suscita nojo; e a maneira correcta de tratar um animal em sofrimento, se a doença for incurável ou requerer dispendiosos e longos tratamentos, é abatê-lo sem sofrimento.

“A clínica abre agora ao público também com consultas de especialidade e meios de diagnóstico analíticos, radiologia convencional, ecografias e modalidades de reabilitação tais como electromioestimulação, magnetoterapia, ultrassons, terapias com laser e hidroterapia, entre outras, dedicadas a animais”.

Nem vou ver quantas câmaras hiperbáricas tem o país, que doenças tratam ao certo tais equipamentos, e de que montantes estamos a falar. E pode bem ser que esta loucura, se sustada, não se traduzisse em qualquer benefício, tal como a comida desaproveitada não alimenta ninguém.

Mas numa sociedade onde, entre consultas e cirurgias, há mais de 120.000 pessoas em lista de espera há mais de um ano; e onde as redes sociais estão pejadas de animais cuja etologia é ignorada, por ser substituída por antropomorfizações como se vivêssemos num filme de Disney: a notícia pode encher de regozijo os 166.000 votantes no PAN; mas de indignação os restantes.


11 comentários

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De Zeca a 11.11.2019 às 05:52

Eu sou um dos indignados.
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De Luís Lavoura a 11.11.2019 às 09:17

Então José Meireles Graça, isto são consequências do capitalismo que Você tanto aprecia! Quem tem dinheiro obtem aquilo que deseja para o seu cão ou gato, e quem não tem dinheiro, que se f...! Ou como raio pensa Você que as câmaras hiperbáricas hão de chegar aos pretinhos?
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De jo a 11.11.2019 às 09:31

Isto acontece em países (geralmente com governos de direita) em que se governa têm a convicção de que " acabar com a fome não depende de haver menos obesos, nem menos desperdício, mas da liberdade de comércio, das boas vias de comunicação e da gestão inteligente dos países"

A gestão inteligente destes governos em que se põe o indivíduo e o lucro acima de tudo leva a raciocínios do género: se o cão é meu e não conheço os doentes na fila de espera, então é legítimo usar o meu dinheiro para tratar o meu cão e deixar morrer os doentes (ainda por cima são pobres e o meu cão é rico).
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De Vento a 11.11.2019 às 11:31

"O tempo explicou-me as coisas e acabei por perceber que acabar com a fome não depende de haver menos obesos, nem menos desperdício, mas da liberdade de comércio, das boas vias de comunicação e da gestão inteligente dos países. Dito de outro modo: em África, onde há fome sem guerra há governos corruptos e ineptos, quase sempre de esquerda"

Na realidade, o que a mim me estranha é que se diga que existe fome em África e que os que aí habitam são pobres.
Conheço a realidade africana (em particular da África subsariana) e, salvaguardando os fenómenos naturais e as guerras, admira-me que um continente, que oferece a possibilidade de seus habitantes também serem recolectores - devido à abundância oferecida pela natureza em carne, frutos, peixe e outros alimentos -, seja conotado com o mito da fome e da pobreza.
Da mesma forma estranha-me que se crie o estigma da falta de água em um continente onde a água é mais que abundante para se transferir para regas: bastando usar a tecnologia adequada e não tão dispendiosa para que assim aconteça.

Serve esta introdução para dizer que o mito da fome africana serve para entreter "intelectuais" e "cientistas" pouco esclarecidos e dedicados a debates também pouco esclarecedores.
Outra forma será abordar-se o tema da corrupção africana que desvia fundos colectivos para bolsos privados ao invés de os aplicar na educação, saúde e melhoria de produções agrícolas; estas, sim, demasiado mínguas por esses territórios.
Não se pode encapotar que a miséria gerada na Europa é uma miséria que retira a oportunidade a muitos para que uns quantos tenham. A fome europeia vive da caridade e da ausência da dignidade no homem porque o homem é visto como uma subproduto da economia.

O caso concreto português da especulação imobiliária e da lei das tendas, que consente despejos presentes e futuros por meros cálculos especulativos, por exemplo, de valor de rendas, é um dos exemplos que podem muito bem determinar que a dita esquerda é semelhante à direita quando toca a pôr a mão na bufunfa (massa).
Nota: em África pode viver-se em uma cabana coberta de palha porque o clima propicia a que assim se possa viver; e não se perde a dignidade, pois há madeira gratuita para as aquecer nas cacimbadas. Tampouco é necessário comprar terra para fazer um aldeamento. Existe na realidade africana o sentido do direito e da lei natural. Algo que os ditos civilizados necessitam redescobrir.
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De Cristina Torrão a 11.11.2019 às 11:38

Isto assim comparado realmente indigna. Mas lembremos que se trata de puro negócio. E só gente com dinheiro pode proporcionar tratamentos desse tipo aos seus animais. Acontece que gente com dinheiro não morre por falta de assistência médica, nem pertence ao grupo das 120.000 pessoas que esperam por uma cirurgia há mais de um ano. O problema reside na incapacidade do governo de exercer justiça social, não na assistência médica privada, duvidosa ou não, a animais de quem tem dinheiro.

Se há pessoas que, mesmo com pouco dinheiro, investem mais na saúde dos seus animais, do que na própria, isso já é opção de cada um.

Como muito bem diz: "esta loucura, se sustada", não se traduziria "em qualquer benefício, tal como a comida desaproveitada não alimenta ninguém".
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De Anónimo a 11.11.2019 às 15:39

Eu não voto nem nunca votarei no PAN ou qualquer outro partido de esquerda. Dito isto, a notícia de que irão abrir centros de recuperação para animais, traz-me alegria. Primeiro porque não é um SNS para animais. Quem lá vai paga do seu bolso e não há sequer comparticipações. Depois porque, ao contrário da opinião do autor, os animais de companhia hoje são mesmo a companhia de muita gente. E, devo dizer, muito melhor companhia que outros seres humanos. Desde logo porque são absolutamente fieis, desinteressados e sem desejarem nada mais que estarem com os seus donos. A mim, ninguém me recebe melhor que o meu cão, não importa o meu aspecto, a minha disposição, as horas a que chego. E tendo já saído os meus 3 filhos de casa, hoje, quem faz companhia a mim e à minha mulher, sobretudo quando só um de nós está um em casa, é ele. E nunca falha...
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De João Almeida a 11.11.2019 às 16:13

Há uma tendência que me parece imparável (já houve tendências piores no passado) para pôr os animais ao mesmo nível, ou até acima, das pessoas. Recentemente uma mulher atirou para um contentor do lixo com um recém nascido (só pensar nisso me horroriza). O clamor teria sido muito maior se tivesse atirado com cãezinhos recém nascidos.
Todos, incluindo o Presidente da República, a desculpabilizam e dizem que alguma razão teve.
Faz-me lembrar o caso do cão Zico que matou um bebé. Uma associação de defensores dos animais disse isso mesmo: alguma razão teve o cão para atacar. O nome do cão tornou-se conhecido, do nome do bebé nunca se falou.
Há milhares que votaram no PAN mas, no passado, já houve mais que votaram muito pior.
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De João Almeida a 11.11.2019 às 16:15

Para meditar:
"E, devo dizer, muito melhor companhia que outros seres humanos. ...... A mim, ninguém me recebe melhor que o meu cão,"
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De Anónimo a 11.11.2019 às 19:02

As pessoas são livres de viver com animais, como animais até.
Podem até preferir os animais aos seus semelhantes.
Podem, enfim, optar por descer (subir, para eles) ao seu nível.
Quanto a mim, já abamndonei esse mundo, há muitos milhares de anos.
Daí, a minha capacidade de ser tolerante:
- que sejam muito felizes!

João de Brito



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De Anonimus a 12.11.2019 às 09:46

Não choca.
Uma actividade privada (assumo que não haja comparticipações) para um mercado definido e fiel. Cada um gasta onde e como quer. Prefere a "saúde " à própria? Siga.

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