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Queremos mais estacionamento?

por Tiago Mota Saraiva, em 19.09.16

 

Se cada cidadão eleitor em Lisboa e no Porto tivesse um automóvel próprio as viaturas estacionadas nas nossas ruas ocupariam 6,2% e 6,5% das respectivas áreas da cidade. Se a esse número acrescermos o da média diária estimada de automóveis que entram nas duas cidades (700.000 e 70.000), podíamos ter o território de cada uma das cidades ocupado em 14,9% e 8,6% por estacionamento automóvel – o que poderá não andar longe do que sucede actualmente. Em Lisboa, os cerca de 1500 hectares potencialmente ocupados por automóveis correspondem à área de duas freguesias de Marvila ou sete Arroios.

Estes números servem para se perceber a radicalidade do problema e a necessidade urgente de construir políticas que alterem esta escalada de ocupação do território. A circulação dentro da cidade ou a existência de famílias com frota automóvel a residir em contexto urbano devem ser desincentivadas ao mesmo tempo que o custo dos transportes públicos deve diminuir e a sua frequência e qualidade aumentar. Por outro lado devem ser aceleradas as políticas de incentivo à mobilidade pedonal e ciclovias que têm vindo a ser desenhadas.

O sucesso do movimento de vizinhos do Jardim do Caracol da Penha em Lisboa - que mobilizou a população através de uma petição entregue na Assembleia Municipal e terá conseguido travar a pretensão da EMEL de construir no decorrer deste Verão um parque de estacionamento a céu aberto nos terrenos de uma antiga quinta com 1 hectare numa das zonas de Lisboa com maior carência de espaços verdes - deve ser motivo de reflexão. A resposta ao problema de estacionamento tem de deixar de ser sempre a criação de mais estacionamento. Temos inúmeros casos que demonstram que a afectação de mais espaço urbano a lugares de estacionamento não só não resolve como, a médio prazo, agrava o problema incrementando a solução do transporte individual.

Sendo certo que esta questão não se resolve da noite para o dia nem com um decreto, devemos trabalhar para que as decisões vão todas no mesmo sentido. Não se pode promover o uso da bicicleta ao mesmo tempo que se estimula o incremento do automóvel e tem de se perceber que, em certas circunstâncias, a criação de uma nova carreira de autocarro pode resolver um problema de estacionamento.

 

(publicado hoje no i)

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15 comentários

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De Luís Lavoura a 19.09.2016 às 15:42

Este post teve pelo menos o mérito de me dar a conhecer o jardim do Caracol da Penha. Vivo perto dele e não fazia a mínima ideia de que ele existisse.
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De lucklucky a 19.09.2016 às 16:30

Ou seja não aceita a independência das pessoas.
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De Tiago Mota Saraiva a 19.09.2016 às 16:40

A sua independência a comprar mais um carro em contraposição com o interesse colectivo de ter mais jardins dentro da cidade, mais solo permeável e menos inundações. Vou pensar nisso.
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De lucklucky a 19.09.2016 às 20:01

É perfeitamente possível ter jardins e independência de movimento. Mas isso vai contra a doutrina populista/social.


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De I.C. a 19.09.2016 às 21:42

Setúbal sempre foi uma cidade meio morta, em grande parte por culpa de gestão municipal desastrosa. Há uns dois ou três anos os privados fartaram-se, e começaram a dinamizar a cidade, com lojas diferenciadas na baixa, e bares e restaurantes de qualidade. A resposta da Câmara? Encheram tudo de parquímetros e diminuíram em muito o estacionamento. Resultado? Juntando a isso a construção do gazilionésimo centro comercial da margem sul, a baixa morreu. Aguentam-se alguns novos restaurantes num Largo em particular, mas todos os dias fecha mais uma loja, e nenhuma nova abre no seu lugar. Eu não conheço uma única pessoa abaixo dos 35 que, tendo a oportunidade, não tenha fugido de Setúbal.
Fazer guerra aberta ao estacionamento, em Lisboa, parece-me seguir uma lógica semelhante e terá, creio, resultados semelhantes também.
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De Vento a 19.09.2016 às 22:19

Surpreende-me que em matéria de travar o uso automóvel nas grandes cidades ainda não se tenham lembrado de por freguesia ou por associação de freguesias próximas, juntamente com um inquérito aos fregueses, criarem um transporte para levar crianças à escola e creches com acompanhamento. Obviamente que seria pago.
Pois se o uso automóvel prende-se também com esta necessidade de colocar as crianças com rapidez e segurança nas escolas e creches e em casa, que se espera?
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De Luís Lavoura a 20.09.2016 às 17:16

O problema é que atualmente muitas das pessoas não querem ter os filhos nas escolas da área de residência. Querem tê-los perto do trabalho dos pais.
Uma pessoa que more em Oeiras e trabalhe em Lisboa não quer ter o filho na escola em Oeiras, porque então teria que sair de Lisboa muito cedo para chegar a Oeiras a tempo de tirar o filho da escola. Prefere trazer o filho para a escola em Lisboa.
Por esse motivo, esse modelo de as crianças serem transportadas para a escola por um autocarro, já não funciona.
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De Tiago Mota Saraiva a 20.09.2016 às 17:30

Luís, essa é uma discussão muito interessante, porque tem de ser pensada a uma escala metropolitana e/ou regional. O que me parece é que desenhar mais lugares de estacionamento num contexto urbano tão denso de carros é como dar uma aspirina a um doente oncológico.
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De Vento a 20.09.2016 às 21:05

Acontece, Luís, que os fregueses dessas freguesias a que me referia também são as escolas, creches ou infantários, colégios públicos e privados aí localizados.
Significa isto que é necessário aferir sobre a população que usa esses estabelecimentos, para implementar medidas e rentabilizar o processo.
Não esperemos que um passo responda a tudo, mas é necessário começar e, se necessário, fazer replicar o exemplo.

A ideia tem como princípio reduzir o número de viaturas em circulação. E hoje podem usar-se veículos mais ecológicos para o efeito. E se pretendemos isto, temos de criar condições para que se torne vinculativo o uso do serviço.

Uma amiga americana, residente na Dinamarca, solicitou apoio estatal para si e seus filhos. O apoio foi-lhe concedido com a ressalva de que tinha de vender sua viatura, pois quem não tem possibilidades não tem carro. Quando argumentou que necessitava transportar os filhos à escola e fazer uso da viatura para lhe serem prestados os cuidados médicos de que ela mesma necessitava, responderam-lhe que não se preocupasse porque eles mesmos, os serviços do estado, garantiam isso.
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De M. S. a 20.09.2016 às 07:16

Depois de ler comentários como os de um cromo que espalha insanidades pelos blogues que frequenta a propósito de tudo e de nada - de seu «nick name »lucklucky - fico com pena dos habitantes de tanta cidade europeia de países atrasados.
Como, p. ex., Haia, Delft, Leiden, etc. (na Holanda) e muitas outras.
Coitados, perderam a independência pessoal em nome da doutrina populista/social.
Cada um por si é que é bom, os outros e a comunidade que se lixem.
E porque não cada cidadão ter direito a usar uma bomba atómica portátil, pessoal, para dirimir os conflitos pessoais?
Ou uma metralhadora ou revolver de 9 mm?
Li há dias num jornal que nos EUA já há quem vá comprar Coca-Cola de Kalashnikov.
Que suprema liberdade!
E que diferença em relação aos coitados dos habitantes de Haia, sem poluição, sem ruído, sem atropelamentos, quase sem semáforos para colorir a ruas, mas com eléctricos de 5 em 5 minutos para todo o lado, comboios em bardo para todas as outras localidades e arredores, autocarros a gás em abundância - mas, sobretudo, bicicletas até perder de vista.
Que monotonia, que tristeza, que pobreza: andar de bicicleta.
Haverá algo que se compare a receber movimentos pendulares de 700 mil carros por dia (como Lisboa) a poluir o ar, fazer barulho, ocupar passeios e todos os espaços livres, ficar horas na fila para entrar e sair da cidade?
Que suprema liberdade pessoal!
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De JPT a 20.09.2016 às 10:15

Delft e Leiden são excelentes para comparar com Lisboa. Já Roterdão e Amsterdão deve ser usada para comparar com a Coimbra e Évora.
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De M. S. a 20.09.2016 às 12:06

Senhor JPT:
Tem piada, esqueceu-se de Haia.
Por acaso?
Pois, o problema não é a imprópria comparação que eu faço entre as cidades.
Aquilo era exemplo de uma política num dado sentido, com determinados resultados.
A nossa é em sentido contrário, com os resultados bem conhecidos.
Hoje, como quase sempre, às 07h00 havia fila até à Baixa de Corroios, na A2.
E na A5 ou no IC19 é o mesmo fadário todos os dias.
Quanto desperdício de energia fóssil, de divisas para a país e de energias das pessoas?
E depois discute-se a EMEL e mais um parque para carros aqui ou acolá.
E a lentidão nas deslocações na cidade.
Sol na eira e chuva no nabal ao mesmo tempo e no mesmo local é impossível.
Mas vejo que está confortável com a situação.
Força, quanto mais carros nas cidades melhor.

Vejo
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De M. S. a 20.09.2016 às 12:25

Senhor JPT:
No meu comentário anterior esqueci-me e referir que também conheço Amesterdão e Roterdão.
Como cidades com grande actividade e/ou relações internacionais, muito mais cosmopolitas, uma delas a capital política, outra a capital económico-financeira, de facto, têm muito mais movimento de carros do que as que referi, mas nada que se compare com a irracionalidade de Lisboa e Porto, por exemplo.
Isto porque a rede de comboios que varre a Holanda é de uma dimensão e eficácia ímpares.
Nós partimos de uma rede patusca do Estado Novo que, para criar hábitos de uso do comboio (não esquecer que não tivemos uma verdadeira industrialização, que foi a força motriz da deslocação em massa de pessoas), construiu as estações a quilómetros das localidades (conheço tantas) ou afastou-se propositadamente o traçado das localidades, o que sempre foi incompreensível para mim, e depois foi quase liquiddada.
Bingo!

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De JPT a 20.09.2016 às 16:07

Na qualidade de pessoa que tirou a carta depois dos 30 anos, trabalha e (desde que tem voto na matéria) vive no centro de Lisboa, tem passe desde os anos 80, e faz 90% das suas deslocações urbanas a pé ou transportes públicos (incluindo, claro, táxi, porque depois das 21h30 demoro mais tempo entre o Rossio e as Amoreiras de transportes do que a pé), e nunca foi ao grande Porto de automóvel, estou de acordo consigo em tudo. E, ao mesmo tempo, estou de acordo consigo em nada. A Holanda, país rico e ordenado (até os alemães gozam com a ordem na Holanda), cuja maior "montanha" é da altura de Monsanto (não a aldeia beirã, mas o monte à saída de Lisboa), não é comparável em nada com Portugal. Não é por gosto que as pessoas gastam 2 ou 3 horas por dia no trânsito, e, as que usam transportes urbanos (como eu) empatam meses ou anos de salário num objecto que só usam ao fim-de-semana e em férias. O facto é que os transportes públicos em Portugal (como quase tudo o que é público, em Portugal) são ineficientes, excepto para as pessoas que lá trabalham. Na Holanda o pessoal dos comboios ocupa a primeira classe e vai para lá discutir diuturnidades e subsídios de flatulência? Na Holanda os trabalhadores do metro ganham em média o triplo dos passageiros? Na Holanda os trabalhadores do metro recebem complementos vitalícios para manter a reforma igual ao salário dos colegas no activo? Na Holanda há 6 greves de transportes por ano? Com estas condicionantes, com os custos de pessoal inacreditáveis que têm as empresas públicas de transportes, temos de perceber e aceitar que, ao fim-de-semana, haja metros de 16 em 16 minutos, que, depois das 22h00 é normal estar 20 minutos no Marquês à espera de um autocarro para as Amoreiras, ou meia-hora em Santa Apolónia à espera de um comboio que pare em Moscavide, que, salvo para “o Barbas”, seja impossível ir às praias da Costa sem levar um carro, que, tirando para Faro, ir ao Algarve de comboio é como ir à Índia, e que qualquer emigrante tem de trazer carro (ou vir de “navette”) para chega à sua aldeia beirã ou transmontana. Em suma: é a favor da privatização de todos os transportes públicos? É a favor da automatização da rede do metro, como em Barcelona? É que enquanto os transportes públicos de Lisboa e a CP estiverem ao serviço da CGTP, não será possível “acabar a ditadura do automóvel” - enfim, só se for falindo (outra vez) o erário público ou pondo tudo a andar de bicicleta, na nossa cidade das (muito mais do que) sete colinas, e não só os lunáticos que andam por aí em sentido contrário e com fones nas orelhas, e para quem (supostamente) se edificam longas pistas rosas que só servem para carrinhos de bebé, "runners", senhoras com joanetes, e amigos da construção civil com pouco trabalho.
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De Anonimo a 23.09.2016 às 13:52

JPT. Não vale a pena tentar explicar nada a quem está formatado idioticamente.

Tem razão, claro. E não nos esqueçamos das leis do (congelamento) arrendamento urbano que têm complicado progressiva e inutilmente a mobilidade urbana.
Lisboa ao longo dos anos é uma feira de vaidades para aspirantes a PMs e PRs.
Há muito que não tem um Presidente. Agora até tem um herdeirosito imberbe tipo pau mandado.

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