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Delito de Opinião

Querem imitar a vida mas estão longe dela

Pedro Correia, 20.10.21

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Vale a pena, de quando em vez, espreitarmos uma telenovela portuguesa. Dessas que pretendem retratar a realidade e mostrar «a vida tal como ela é». Pura ilusão: nada ali é mais diferente da realidade.

Desde logo, as casas. Quem vive em apartamentos assim, quase todos com escadaria interior? Parece coisa luxuosa e no entanto a porta da rua abre-se directamente para a sala, como nas cabanas. Nem um átrio, nem um vestíbulo, nem um corredor.

Depois aquela gente passa o tempo a entrar e a sair. Quando sentem necessidade de dizer seja o que for à amiga ou ao parente, não telefonam: vão. Como se a comunicação digital ainda não tivesse sido inventada.

Já viram como estão em casa? Nada de roupão ou chinelos. Eles de fato completo e gravata, elas pisando alcatifas de salto agulha, maquilhadas como se fossem beber um drinque na Embaixada de França.

E há sempre um sofá. Um enorme, vastíssimo, descomunal sofá onde as personagens passam todo o tempo. Sintonizem um canal à hora da telenovela portuguesa, seja em que estação for: logo surge o herói da trama. Precisamente o sofá. Quase mais lusitano do que o galo de Barcelos.

Sem esquecer as sopeiras à moda antiga, como há muito não se usa. Fardadas, sempre fardadas, servindo pequenos-almoços de buffet de hotel, cheios de sumos tropicais. E os padres, todos com vestes pré-conciliares, como se fosse vulgar vermos por aí jovens sacerdotes de sotaina e cabeção. Só mesmo na ficção televisiva made in Portugal. Para ninguém ter dúvidas: está ali um padre de novela. Tão falso como qualquer adereço de estúdio.

Além disso, situe-se o enredo onde se situar, não se ouve a menor pronúncia regional. Já houve telenovelas passadas no Minho, no Alentejo, nos Açores, com todos os intérpretes a falar com sotaque do eixo Lisboa-Cascais. Dizendo “chtamoch” em vez de estamos ou “mêmo” em vez de mesmo. Nos casos mais graves, as falas transformam-se em murmúrios, sem cadência a marcar as sílabas. Alguns dos mais antigos declamam como aprenderam nas tábuas do Teatro Nacional ou nos defuntos folhetins radiofónicos, mas a pronúncia diferenciada nunca está lá. Fica esquecida, ao contrário do que sucede nas novelas brasileiras da Globo, que trabalham bem as entoações regionais, com eficaz direcção de actores. O que explica parte do seu sucesso.

Finalmente, quase não se encontra uma pele enrugada. Carinhas larocas, tudo imberbe, moranguitas com ou sem açúcar, formação mínima ou nula na arte de representar. E muitas falas sincopadas, cheias de monossílabos: talvez assim seja mais fácil decorar o papel.

Que diferença entre isto e uma série de qualidade, como a britânica O Último Tango em Halifax, recentemente exibida na RTP 2. Personagens centrais: uma velha e um velho, quase octogenários, que se reencontram seis décadas depois de terem sido namorados no liceu. Vivem em casas que parecem reais. Falam como pessoas verdadeiras. E movem-se num simulacro da realidade, não na sua caricatura ou distorção.

 

Texto publicado no semanário Novo

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