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Quentes, rápidos e longos (1)

por Sérgio de Almeida Correia, em 12.08.15

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É sempre estranho chegar a locais que não são conhecidos pelo frio de rachar ou calor de morrer que por lá costumam fazer, como foi o caso, e sentir que tinha acabado de entrar numa estufa. Já antes sentira calor em Tóquio, mas chegar ao Aeroporto de Narita, num final de tarde, com 38.º Célsius e a sensação de mais de 40.º era para mim algo de inimaginável. Mas aconteceu. Tirando isso, regressar ao Japão é sempre motivo de satisfação. Pela simpatia desse povo, pelo seu altíssimo grau civilizacional e pela beleza das suas paisagens.

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Desta vez ia com um propósito bem definido, e embora com tempo limitado teria de aproveitar os 4 dias em que por lá estaria para me aperceber de eventuais mudanças que entretanto tivessem ocorrido desde a minha última viagem, há 15 anos. A minha chegada ocorreu no dia seguinte àquele em que se completavam 70 anos sobre o lançamento da primeira bomba em Hiroshima. Desta vez não fui até esta cidade, tendo-me limitado a fazer o percurso de cerca de 200 quilómetros entre Tóquio a região do Fuji, no município de Shizuoka.

Logo à chegada, verifiquei que o asseio e a organização eram os mesmos de sempre. Apesar de num espaço de tempo curtíssimo terem aterrado uma dúzia de aviões, não estive mais de quinze minutos para me desenvencilhar das formalidades do passaporte. É claro que viajando sozinho, com um documento de viagem europeu e praticamente sem bagagem, fui convidado a esclarecer no controlo alfandegário o que ia lá fazer e a mostrar a minha, não fosse eu, com a minha tez estival a dar ares de marroquino, ser um perigoso bombista ou traficante. Sempre com simpatia, educação e desmesuradas desculpas pelo incómodo. Assim que se apercebeu das minhas intenções, o funcionário imediatamente me arrumou a bagagem, ao contrário do que noutros países sucede em que depois de tudo desarrumarem despacham o viajante de mala ainda aberta, com os pertences desalinhados e não raro espalhados pela bancada, ao mesmo tempo que me desejava uma boa estadia.

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Segui então o meu caminho, coisa fácil num país cujo sistema de transportes, públicos e privados, continua a merecer a minha admiração. Numa cidade de milhões em que jamais me perdi e não há papéis pelo chão, nem beatas, embora continue a haver fumadores e se possa fumar nos restaurantes, por sinal todos com excelentes extracções de fumo e de onde não se sai a cheirar a fumo ou a fritos, nem incomodado pelo tabaco do vizinho, continua a ser um prazer utilizar os seus transportes. Continuo a pensar que pela organização, a higiene e os modos no trato se vê o alto nível civilizacional de um povo. E nisto os japoneses são exemplares. Quando me recordo do espectáculo de algumas casas de banho do Alfa Pendular, logo à saída de Faro, ou das reclamações que tive de fazer na Portela e em áreas de serviço das auto-estradas portuguesas em razão da falta de higiene das casas de banho, uma pessoa não pode deixar de pensar no nosso endémico atraso perante instalações que servem diariamente milhares de utentes mas onde não faltam dispensadores automáticos de sabonete líquido, com conteúdo, onde tudo brilha e funciona e não se sente nojo em entrar. Este nível cívico reflecte-se nas carruagens dos comboios, nas paredes das suas estações de comboios, edifícios e monumentos, onde não se vê um grafito. E, no entanto, são milhares e milhares de jovens, com ar asseado, desprendido e descontraído, sorridentes, alguns muito compostos nos seus uniformes, elas de minissaias muito curtas, orgulhosas na sua elegância, outros com o cabelo pintado de louro, com madeixas azuis ou verdes, a caminho das escolas ou de instalações desportivas, com os seus sacos, as suas raquetes de ténis – a nova loucura da juventude japonesa estimulada pelos êxitos de alguns dos seus nos circuitos do ATP –, bolas de futebol e equipamentos de basebol. Uns conversando, outros ouvindo música, ou divertindo-se com os seus smartphones do último grito.

Gente composta, gente que fala em tom moderado, gente que sabe comportar-se, seja na fila do autocarro ou nos apertos do comboio, gente disponível, apesar de nem sempre parecer muito aberta e de muitas vezes, em especial fora das regiões mais desenvolvidas e com maior afluxo de turistas, não dizer uma palavra de inglês.

O caminho até Shizuoka, no Hikari 539 com destino a Nagoia, uma verdadeira bala da última geração de comboios, e depois para Shimizu, devido ao facto de não haver em Gotemba um quarto disponível há várias semanas, num comboio suburbano tão cheio quanto o TGV deles, passou num ápice. Sempre à tabela, num estado democrático.

No meu destino, já com menos uns graus do que aqueles que encontrara em Tóquio, fui para o hotel. Recebido pelo meu nome próprio e um sorriso de orelha a orelha num modesto mas muito decente hotel de província, com todo o conforto de que um viajante precisa, rumei ao meu quarto. Era altura de tomar um duche e preparar o dia seguinte, que se previa longo, antes de poder iniciar a aventura do jantar e começar a respirar o ar puro da região.

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4 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 12.08.2015 às 15:27

Sergio
Sou uma apaixonada pelo Japão desde que, há 35 anos, lá fui a primeira vez, em trabalho. Seguir-se-lhe-iam mais quatro tendo, numa delas, ficado um mês em casa de amigos japoneses, que entretanto fiz e onde vivi vomo eles.
Gostaria de voltar a pisar essa terra na qual sempre me senti tão em casa.
O teu post por momentos, fez-me voltar a essa terra. Obrigada!
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De Sérgio de Almeida Correia a 14.08.2015 às 11:02

Olá Helena,

Ainda bem.
Penso que quem tem a felicidade de poder viajar, que é uma coisa bem diferente de fazer turismo, também tem a obrigação de registar as suas impressões e transmiti-las. Como costumo dizer, não vivemos sozinhos. Para que outros também possam conhecer, mesmo à distância, e quem lá for um dia possua referências que o habilitem a confirmar e comparar o que leu com o que encontrou.

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