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Delito de Opinião

José Luís Peixoto: «Tenho medo de mim»

Quem fala assim... (26)

Pedro Correia, 19.12.20

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«É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós»

 

José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais celebrados nestas duas primeiras décadas do século XXI, fala um pouco como escreve. Com frases pausadas, que por vezes são verdadeiros aforismos, e um peculiar sentido de humor, talvez surpreendente para alguns. Tive ocasião de perceber isso quando o interroguei ao telefone. O resultado é este que podem (re)ler.

 

Tem medo de quê?

De mim.

Gostaria de viver num hotel?

Não, apesar de actualmente já costumar passar grande parte do meu tempo em hotéis. Caminhar à noite no corredor de um hotel pode ser uma experiência muito solitária. Ao fim de algum tempo, as miniaturas de sabonete acabam por perder o aroma. Pessoalmente, preferiria viver numa casa com jardim e netos.

A sua bebida preferida?

Prefiro sumo de laranja. Não entendo esse hábito muito divulgado entre nós de beber álcool socialmente.

Porquê?

Eu, nas raras vezes em que bebo álcool, é para me embebedar.

Tem alguma pedra no sapato?

Uso botas. As pedras têm muita dificuldade em entrar.

A propósito: que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, entre alguns outros.

Costuma ter muitos livros à cabeceira?

Tenho sempre livros a rodear-me completamente. Por dentro e por fora.

A sua personagem de ficção favorita?

Lena Grove, de A Luz de Agosto, de William Faulkner.

Rir é sempre o melhor remédio?

Depende da maleita. Em casos de pedra nos rins, duvido que resulte.

A despropósito: lembra-se da última vez em que chorou?

Foi no fim de semana passado. Chorei de felicidade.

Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto de andar de mão dada, como namorados.

É bom transgredir os limites?

É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós.

Qual é o seu prato preferido?

Sushi.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

O pecado capital que pratico com mais frequência é a luxúria. Ainda assim, acho que não a pratico com a frequência desejável.

A sua cor preferida?

Fúcsia.

Porquê?

Por causa do nome.

Costuma cantar no duche?

Sim.

Onde mais?

Também no trânsito e, ao telefone, com as pessoas que costumam ligar com regularidade a oferecer promoções.

E a música da sua vida?

Here I go again, dos Whitesnake. E mais umas mil.

Há quem sugira que o hino nacional deve ser alterado. Qual é a sua opinião nesta matéria?

Preferia que o hino nacional me sugerisse uma alteração a mim.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Gostaria de jantar com Barack Obama, obviamente.

As aparências são capazes de nos iludir?

É o que me aparenta.

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Um verdadeiro cavalheiro nunca responde a perguntas sobre o seu cavalheirismo, insinuando-se implicitamente como um verdadeiro cavalheiro.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Piercing no mamilo.

Qual é o seu maior sonho?

É grande. Dura à volta de umas três horas.

E o maior pesadelo?

O pesadelo é ainda maior do que o sonho. Às vezes, depois de acordar, ainda continua.

O que consegue irritá-lo profundamente?

Irritam-me as pessoas que ficam a olhar no momento em que se está a pôr o pin do multibanco. Afinal, porque é que o fazem? Vão-nos assaltar a seguir ou é mera curiosidade? É algo que me ultrapassa.

Qual a melhor forma de relaxar?

Um abraço.

O que faria se fosse milionário?

Se fosse milionário pensava em coisas que não penso agora e teria, com certeza, muito mais preocupações do que tenho hoje.

Casamentos gay: de acordo?

É um pedido?

Olhe que não... Mudando de assunto: uma mulher bonita?

A minha.

Acredita no paraíso?

Sim. O paraíso é como uma lâmpada que tem mau contacto. Acende e apaga. Às vezes pode ficar acesa durante muito tempo. Outras vezes apaga-se e parece que nunca mais se vai acender.

Tem um lema?

Não tenho um lema, tenho vários.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Fevereiro de 2010)

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