Bagão Félix: «Sou visceralmente caseiro»
Quem fala assim... (2)

«A mulher mais bonita é a que parece que não o é»
O antigo ministro das Finanças e da Segurança Social, benfiquista militante, foi um dos entrevistados que responderam com mais segurança e rapidez a este inquérito feito por telefone. Sem vacilar sequer no momento em que fez duas citações. Pareceu-me ter gostado genuinamente deste desafio, que venceu por goleada.
Tem medo de quê?
Do medo.
Gostaria de viver num hotel?
Não. Sou visceralmente caseiro.
A sua bebida preferida?
Água.
Tem alguma pedra no sapato?
Nem nos sapatos nem nos rins.
Que número calça?
Vinte mais IVA.
Que livro anda a ler?
Leio sempre vários livros. Ando a ler, por exemplo, um livro sobre ética empresarial e outro sobre a história da Europa desde a II Guerra Mundial. Além disso, todas as noites, folheio um dos meus vários livros de botânica, de que gosto muito.
Tem muitos livros à cabeceira?
Muitos. Mas não tenho livros de cheques.
A sua personagem de ficção preferida?
Tintim. Tem a ver com o imaginário da minha infância.
Rir é o melhor remédio?
«Se não te conseguires rir das coisas sérias, não terás nada de que rir quando fores velho», já dizia George Bernard Shaw. O riso é uma das formas mais sadias de liberdade.
Lembra-se da última vez em que chorou?
Sim. Foi recentemente, num funeral.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Não tenho particular gosto em conduzir o automóvel, apesar de costumar fazê-lo. No geral, gosto de conduzir. Gosto mais de determinar do que esperar que outros determinem por mim.
É bom transgredir os limites?
Já dizia Oscar Wilde: «Resistir a tudo menos às tentações.» Mas ainda sou daqueles que param no sinal vermelho.
Qual é o seu prato favorito?
Bacalhau com batatas na ceia de Natal. É aquele que verdadeiramente me transmite a conjugação feliz entre a comida e a família.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
Tenho mais pecados veniais do que capitais. Não sei se os pecados veniais acumulados dão capital...
A sua cor preferida?
Encarnada.
Costuma cantar no duche?
Não. Gosto muito de música, mas sou absolutamente inapto para cantar.
E a música da sua vida?
Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
Quanto à música, acho bem. Mas a letra está completamente desajustada do nosso tempo.
Gosta da bandeira nacional?
Gostava mais da monárquica, apesar de não ser monárquico.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Gostaria de jantar com o Papa Bento XVI, que além do mais é um grande intelectual.
As aparências iludem?
As ilusões às vezes aparecem.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
A gravata.
Qual é o seu maior sonho?
Ser cada vez mais livre.
E o maior pesadelo?
É quando o Benfica perde e acordo na manhã seguinte.
O que o irrita profundamente?
O disfarce. Uma das coisas que mais aprecio nas pessoas é a autenticidade.
A melhor forma de relaxar?
É relaxar sem dar por isso.
O que faria se fosse milionário?
Ia para o deserto contar as notas. O deserto é o símbolo da supremacia do ser sobre o ter.
Uma mulher bonita?
A mulher mais bonita é a que parece que não o é. Sigourney Weaver, por exemplo.
Acredita no paraíso?
Acredito no paraíso porque acredito na eternidade.
Tem um lema?
Fazer dos tempos livres trabalho e fazer do trabalho tempo livre.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Novembro de 2008)

