Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Que vergonha, rapaziada

por Rui Rocha, em 22.11.15

Decorridos mais de 45 dias sobre as eleições, há um facto que é já inquestionável. A renovação cívica e democrática que sempre deveria resultar de uma ida às urnas está já irremediavelmente comprometida. Um a um, os principais actores políticos contribuíram de forma decisiva para o pântano político e institucional em que estamos mergulhados. Vejamos alguns factos:

Facto 1: António Costa perdeu as eleições. A partir da noite de 4 de Outubro iniciou um processo intelectualmente desonesto de negociação com o PCP e o BE com o único propósito de alcançar o poder pelo poder. É óbvio que não existe qualquer afinidade substancial entre a mundividência política do PS e aquela que defendem comunistas e bloquistas.

Facto 2: António Costa foi politicamente desonesto com o país e com o Presidente da República quando afirmou a existência de um acordo à esquerda que só veio a concluir mais de um mês depois, de forma coxa e com condições precárias. A desonestidade política persiste, pois as posições conjuntas a que semanas de negociações deram origem não correspondem, de todo, a um acordo politicamente consistente.

Facto 3: A debilidade moral não é, todavia, uma característica exclusiva de Costa. De um e de outro lado da trincheira, apparatchiks zelosos dedicam horas infindáveis à arqueologia da internet. Uns e outros encontrarão vídeos, afirmações e artigos em que se afirma hoje o contrário do que se disse ontem. E assim expõem, todos, sem pudor, a profunda falha ética de que se alimentam. Nada tem valor por si. O que importa à sacanagem é demonstrar que o adversário é um sacana maior.

Facto 4:  O novo Presidente da Assembleia da República, a 2ª figura do Estado, é alguém da envergadura de Eduardo Ferro Rodrigues. Esta circunstância seria, só por si, suficientemente vexatória para a República. Todavia, a forma sectária como a personagem tem exercido a função, quando esta imporia pelo menos algum distanciamento, constitui uma nódoa provavelmente indelével na cadeira da presidência da Instituição.

Facto 5: O ainda primeiro-ministro, depois de ter mentido conscientemente na campanha para as eleições de 2011, não ficou satisfeito. Desta vez, o discurso fraudulento teve como objecto a devolução da sobretaxa. E se não é possível afirmar que o próprio mecanismo de cálculo foi manipulado, foi certamente manipulada a comunicação que sobre ele se fez a partir do governo.

Facto 6: A defesa da Coligação perante a manobra de Costa baseou-se na teoria do golpe. Todavia, Passos Coelho não encontrou melhor argumento para contrariar esse suposto golpe do que uma proposta golpista e oportunista de revisão da Constituição. E ainda que se saiba que tal proposta não passava de pura retórica, o certo é que constitui um triste espectáculo ver Costa e Coelho a disputarem na cena política como se fossem canalha no recreio.

Facto 7: Por falar em canalha no recreio: deputados eleitos pelos portugueses, um para o Parlamento nacional, outro para o Parlamento europeu, em lugar de argumentarem com profundidade e elevação, dedicam-se a comentários desmiolados no Twitter. Tiago Barbosa Ribeiro apelida o Presidente eleito de gangster. Ana Gomes encontra uma relação causal entre a governação de Passos e os suicídios nas polícias. São ambos deputados pelo PS, mas não é esse ponto o relevante. Se nos déssemos ao trabalho, encontraríamos certamente exemplos semelhantes em outras bancadas.

Facto 8: José Sócrates passeia-se pelo país de voz esganiçada, pavoneando-se entre alguns parolos que o aplaudem e o incentivam. Até ver, não há um que lhe pergunte duas coisas muito simples: a) no total, quanto lhe foi "emprestado" pelo "amigo"; b) começaram, ou não, esses empréstimos quando ainda exercia funções governativas. E o incrível é que com tanto bazófia sobre os seus direitos de cidadania, o próprio ainda não tenha sentido o imperativo moral de prestar tais informações ao país.

Facto 9: O Senhor Presidente da República, omnisciente e presciente, mantém o país em suspenso de uma decisão durante semanas por ter de se dedicar a uma inadiável visita às ilhas. Ele que faltara às comemorações do 5 de Outubro devido à urgência de tomar decisões sobre a situação política do país. Entretanto, certamente afectado pela maior proximidade ao equador, dedica-se a teorizar sobre as características da Banana da Madeira. A desgraça é tanta que nem uma comparação rigorosa sobre o tamanho da dita banana face à que se desenvolve noutras paragens conseguiu fazer em termos.

 Facto 10 (last but not the least):Tudo isto é, convenhamos, uma grande vergonha.


56 comentários

Sem imagem de perfil

De Pedro F a 22.11.2015 às 17:41

Gerente do Restaurante Espaço Tejo, na antiga FIL, em telefonema para Carlos Santos Silva:
"Com NIF ou sem NIF?"
É o que tenho a dizer de toda esta fauna mas a culpa é nossa. Exclusivamente nossa.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:43

Pois é sobre essa conclusão que ainda não tenho certezas. Se somos realmente culpados e qual o grau de culpa que temos. É dolo, é só negligência? Há atenuantes da culpa?
Sem imagem de perfil

De Pedro F a 22.11.2015 às 19:43

Quanto à intensidade de dolo e de culpa, a nossa é muito semelhante à do corno manso.
Sem imagem de perfil

De JSP a 22.11.2015 às 17:54

Retrato do "Regime"
Em corpo inteiro e a cores.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:43

Na verdade, em tons cinzentos e negros.
Imagem de perfil

De João Campos a 22.11.2015 às 18:18

"Tiago Barbosa Ribeiro apelida o Presidente eleito de gangster. Ana Gomes encontra uma relação causal entre a governação de Passos e os suicídios nas polícias. São ambos deputados pelo PS, mas não é esse ponto o relevante. Se nos déssemos ao trabalho, encontraríamos certamente exemplos semelhantes em outras bancadas"

Do calibre do Barbosa Ribeiro, sim, deve haver às carradas no hemiciclo, da ala direita à ala esquerda. Mas a Ana Gomes é um caso especial. Está naquele patamar em que começam a falhar os adjectivos.

Excelente resumo dos dias que correm.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:44

Tens razão. Não há, provavelmene, ninguém equiparável a Ana Gomes.
Imagem de perfil

De Helena Sacadura Cabral a 22.11.2015 às 22:27

Adjectivos existem. Mas há quem não queira sujar a boca com eles. É o meu caso.
Por isso prefiro chamar-lhe "doente"...mas sem cura!
Sem imagem de perfil

De amends a 22.11.2015 às 18:22

Factor 11

Os portugueses são uns bananinhas das Berlengas.

A culpa é toda nossa, não dos 10 factores, que magistralmente desenvolve!

Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:45

Pois essa da culpa... Já disse das minhas angústias lá mais acima em resposta ao Pedro F.
Sem imagem de perfil

De amendes a 22.11.2015 às 18:24

É facto... não factor!
Sem imagem de perfil

De isa a 22.11.2015 às 18:30

Um Grande comediante que, apesar de ter falecido há uns anos, as suas palavras fazem cada vez mais sentido, quando fala da qualidade dos políticos e, curiosamente, tirando a referência ao País, não sei até que ponto chega a globalização pois, tudo o resto, encaixa na perfeição, até com a próxima campanha presidencial e, se eu não concordava com a parte do não votar, começo a pensar se ele, realmente, não terá razão.
Faz todo o sentido que o problema esteja nos cidadãos e não nos políticos porque, cidadãos egoístas e ignorantes, só podem eleger aquilo que a própria sociedade produz... políticos egoístas e ignorantes.
Muitos, devem-no conhecer mas, estes 3 minutinhos e 19 segundos do vídeo que aqui vou deixar em referência... fazem todo o sentido neste poste do Rui.
YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=07w9K2XR3f0
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:47

Yep. Vale a pena ver o vídeo.
Imagem de perfil

De Luís Naves a 22.11.2015 às 18:35

Que texto tão certeiro, parabéns. Acho que está aqui tudo.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 18:47

Obrigado pela leitura, Luís.
Sem imagem de perfil

De Lufra a 22.11.2015 às 18:59

É só para lembrar: Hoje é o decimo primeiro dia!
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 22:32

Certo. Mas nem todos foram úteis.
Sem imagem de perfil

De G.A. a 22.11.2015 às 19:20

Não há dúvida, trata-se de uma cambada de imbecis!
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 22:32

Tenho dificuldade em contrariar essa visão.
Sem imagem de perfil

De queima beatas a 22.11.2015 às 19:45

Captado no DN on-line, autoria de comentador identificado como A raiz da partidocracia:

1/2

1) Desde a instauração da "democracia", a qualidade dos partidos em Portugal tem caído constantemente, estando hoje ao nível do lixo. Os portugueses não têm controlo sobre os seus políticos. A "casa da democracia" é na realidade a casa da partidocracia. O chamado "julgamento nas urnas" é um logro, pois os candidatos das listas perdedoras têm garantia prévia de que se mantêm no parlamento, duma maneira que não tem relação com a vontade dos eleitores. Na verdade, os eleitores nem sequer têm oportunidade de se pronunciar sobre os candidatos. Podem ser agentes secretos, maçons ou outra coisa qualquer, não interessa: a ida para o parlamento não depende do seu voto. A causa profunda do problema é a ausência do voto nominal no sistema eleitoral.

2) Os portugueses têm menos direitos democráticos que os outros europeus. As chefias partidárias fazem listas cuja ordem é essencial, mas é imposta. As listas não figuram no boletim de voto e é impossível votar num membro da lista sem os anteriores terem sido já "eleitos". Surgem os "lugares elegíveis", que dão aos candidatos dos maiores partidos a GARANTIA de que vão ser deputados, independentemente dos votos. Em cada eleição, o cenário é sempre o mesmo: semanas antes de ser deitado o primeiro voto, parte do elenco parlamentar já está decidido. Como não existe uma relação entre o voto e a atribuição dum lugar de deputado, os deputados NÃO representam os eleitores. Seguramente representam alguém, mas não é quem vota.

3) As consequências deste sistema são muitas e graves
(A) Os barões dos principais partidos vivem na impunidade. Sabem que não podem ser desalojados do parlamento pela via dos votos. Mesmo com baixas intenções de voto, têm muitos "lugares elegíveis" para onde se refugiar. Isto influencia o seu comportamento de maneira decisiva.
(B) Corrupção: os lóbis contornam o eleitorado e agem diretamente sobre os oligarcas do parlamento para fazer valer os seus interesses. Na prática, são os lóbis que têm representação no parlamento, não os eleitores.
(C) Cria-se um "fosso" entre cidadãos e políticos e um (forte e crescente) sentimento de desprezo e ressentimento dos cidadãos para com os políticos portugueses.
(D) A ausência de voto nominal bloqueia a renovação interna dos partidos. 4) 4)

4) "Renovação" é uns serem substituídos por outros. É o papel do eleitorado dizer quem vai e quem fica. A maneira natural e democrática de conduzir a renovação é os novos políticos que têm mais votos ascenderem gradualmente às chefias dos partidos. Porém, como o sistema eleitoral impede os eleitores de expressar preferências dentro duma lista, o sistema está na realidade a impedir o eleitorado de exercer o seu papel na renovação partidária. Atualmente, as chefias partidárias eternizam-se e só os que têm o seu beneplácito sobem nas estruturas partidárias.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 22.11.2015 às 22:33

Não é um comentário. É um ensaio.
Sem imagem de perfil

De queima beatas a 22.11.2015 às 23:58

Desconhecia esse calibrador.
Sem imagem de perfil

De Eleitor Livre a 23.11.2015 às 04:08

Exatamente por tudo isto, nós que ainda acreditamos na democracia temos a obrigação de apoiar iniciativas cidadãs como o Livre.
Faz também falta algo do género no centro-direita.
Houve debate aberto sobre o programa eleitoral, os candidatos a deputados foram ordenados consoante os resultados de uma votação livre, os estatutos do partido garantem o seu caráter de movimento cidadão em completo contraste com a "partidocracia mafiosa tradicional" de rosinhas e laranjadas.

Em 5 milhões de eleitores, só eu e outros 39 mil votámos numa verdadeira mudança democrática.
Resultado: lista cidadã 0 - boys 229.
(e vamos ver no que dá o PAN)

Como repito frequentemente: Portugal não é hoje o país que mereço ter, mas é a amostra de país que a maioria dos ignorantes escolhe.

Comentar post


Pág. 1/3



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D