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Quanto vale um secador de cabelo?

por Rui Rocha, em 23.04.14

 

Gabo já tinha publicado algumas obras. Apesar disso, a vida corria-lhe com aperto, restrições e penúria. Naquele ano de 1967, consumia-se no esforço de encontrar editor para o novo livro. As portas, todavia, mantinham-se fechadas. Que era demasiado longo. Que não era aquilo que as pessoas procuravam. Por essa altura, na Argentina, Luis Herss concluíra um ensaio sobre os dez escritores mais representativos da, assim se dizia, Nova Literatura. É possível que no mesmo momento em que Herss abriu a porta do gabinete de Paco Porrúa para lhe apresentar o seu trabalho, a milhares de quilómetros dali mais uma porta de um editor se estivesse a fechar na cara de Gabo. Servir-lhe-ia certamente de consolo saber que alguma coisa, chamemos-lhe providência, se tinha já posto em marcha para alinhar os cordelinhos que vão tecendo o futuro em proveito do seu enorme talento. Todavia, esse ainda não era o tempo de Gabo. Para já, a única certeza que tinha era que aquele livro tão grande era um grande livro. Tudo o resto, era angústia. Paco Porrúa, esse conhecia já nove dos dez escritores referidos por Herss. Quis conhecer o décimo. As rodas dentadas da engrenagem que levariam Gabo ao sucesso continuavam a mover-se lentamente. O contacto com Porrúa foi estabelecido, apesar das dificuldades. Os trâmites burocráticos foram vencidos. A certa altura, a luta de Gabo pela publicação do novo livro estava à distância do envio do manuscrito pelo correio. Uma e outra vez tomamos o sucesso pela sua manifestação no momento em que se concretiza. Como se não houvesse caminho, pedras para desviar, dúvidas, escolhas dolorosas, fracassos e redenções. Para um escritor a quem a roda da fortuna ainda não tinha favorecido, o envio de um manuscrito com centenas de páginas pode constituir um escolho quase insuperável. O custo do correio, do México para a Argentina, pode ser bem mais do que aquilo que alguém pode pagar quando no bolso tem apenas a fórmula mágica que permite dar sentido às palavras e desorganizar o mundo. Foi preciso escolher. Para reduzir o custo, o manuscrito seria dividido em duas partes. Seguiriam os primeiros dez capítulos num primeiro envio. Depois, logo se veria. Mesmo assim, era maior o peso da encomenda do que os pesos mexicanos que Gabo tinha na carteira. Mercedes ficaria sem secador, vendido em estado de necessidade a alguma vizinha para completar a importância necessária. À saída dos correios, Mercedes não pode evitar um comentário: olha, Gabo, agora só faltava que a novela não prestasse... Ao que parece, com a atrapalhação própria de quem pressente um encontro com a história, no momento do envio Gabo trocou os volumes e acabou por seguir, por engano, a segunda metade do livro. Tal não impediu que Porrúa assumisse definitivamente as rédeas do futuro e que acelerasse os passos necessários à publicação. O que lera bastara para se convencer de que estava perante uma obra prima. Agora que Gabo perdeu a memória,  podemos até duvidar que as coisas se tenham passado exactamente assim. Mas, se apreciamos o realismo mágico da escrita, não há motivo para não acreditar que a magia da realidade tenha sincronizado o espaço, o tempo e estas circunstâncias nos dias que precederam a publicação de Cem Anos de Solidão. E que o facto de o livro não se ter perdido com a memória do seu autor se deve, em boa parte, ao valor em pesos mexicanos do secador de Mercedes. 

 

* republicado.

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11 comentários

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De Pedro Correia a 15.07.2012 às 18:36

Muito bem, Rui. Razão tinha o velho Plutarco: «O acaso é Deus quando viaja incógnito.»
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De Rui Rocha a 16.07.2012 às 12:27

Nem mais, Pedro.
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De Tiago Cabral a 15.07.2012 às 21:38

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, Buendía lembra-se da viagem que fez com o seu pai a conhecer o gelo... o começo de "cem anos de solidão"(não assim mesmo, mas a frase tinha este sentido).
Gabo foi e é o escritor, dos que já li, mais mágico. Consegue levar-nos e levar-nos... escreve com sabor, dá-nos a ler prosas que pensávamos impossíveis de ler. O universo dos seus livros além de mágico, transcende o real, o nosso real. Conseguimos viajar além das palavras, permite-nos sonhar e sonhamos, cada leitor, com só e apenas o que Gabo nos deixa. Que é tanto.
Cem anos de Solidão, e acima de tudo, O amor nos tempos de colera, dão-nos a magia de voar, voar... o ficar "ad eternum" a vaguear pelo rio, a viver um amor enterno... Já passou a filme, mas nada se compara ao livro. Nunca nenhum filme se comparará ao que Gabo transmite, escrevendo. Lembro-me de ler Saramago a justificar, não autorizar qualquer filme com base no Memorial do Convento. - E que cara iria ser Blimunda? dizia Saramago. Também as personagens dos livros de Garcia Marques são apenas e só de cada leitor. Eu tenho o meu Aureliano Buendía.
Fico desolado com esta notícia. Esperava ainda a segunda parte das suas memórias. Será que as escreveu?
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De Rui Rocha a 16.07.2012 às 12:29

Sobre a doença de Gabo, a melhor frase que vi por aí é a de alguém que afirma que não sofre de demência, mas de realismo mágico.
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De Ana Vidal a 16.07.2012 às 18:09

Rui e Tiago, a família de Gabo já desmentiu a notícia da falta de memória. Ainda bem, mas, para mim, tudo o que ele escreveu até agora já chega e sobra para me deixar em estado de graça.
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De Ana Vidal a 16.07.2012 às 18:10

Gostei imenso do teu texto, Rui. Não conhecia a história. Realmente, bendito secador de cabelo!
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De Rui Rocha a 16.07.2012 às 18:23

Aqui tens a história relatada na 1ª pessoa, Ana:

http://yodavid.wordpress.com/2009/12/31/como-se-publico-cien-anos-de-soledad/

No texto, segui uma versão próxima que tinha lido há uns tempos em algum lugar que não consegui identificar.
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De Ana Vidal a 16.07.2012 às 22:27

Obrigada pelo link. :-)
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De Rui Rocha a 16.07.2012 às 18:18

Ainda bem, Ana. Tinha-me escapado. Assim ainda podemos manter a esperança de vir por aí mais algum escrito extraordinário.
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De Vento a 23.04.2014 às 22:51

Mermão,

não há dúvida nenhuma que a Mercedes é um Rolls Royce de mulher e companheira. Já para não falar na imagem que é sempre importante para uma Senhora ou, melhor, é mais importante para elas. É que nesse tempo um secador de cabelo custava um pipa do caneco e era difícil de transportar. Ó Gabo olha que gabo mesmo esse gesto do AVIÃO, perdão, da Mercedes. É por coisitas destas que sempre aprecio uma mulher. Bem, também aprecio noutros aspectos, mas não é da mesma maneira.
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De Miguel a 25.04.2014 às 01:25

Já tinha lido a história algures antes, mas acho-a sempre maravilhosa.

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