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Quando os analfabetos imperam

por Pedro Correia, em 02.04.18

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O analfabetismo funcional está aí, aos olhos de todos, em doses galopantes. Até em folhas e trombetas que fazem gala em examinar à lupa o currículo académico de figuras públicas, várias das quais fariam melhor em adoptar tamanha exigência na própria casa.

Esse analfabetismo faz comprimir o vocabulário até doses ínfimas, adultera a ortografia à mercê de pseudo-normas que ninguém pode levar a sério (ainda ontem, numa série legendada em acordês, li “para aqui” quando pretendia dizer-se “pára aqui”) e põe a sintaxe portuguesa a fazer o pino, à boleia da vulgata brasileira que impera na Rede.

Há dias, uma determinada figura pública presumindo-se culta colou numa mensagem digital uma pomposa citação de Oscar Wilde em tradução brasileira, sem reparar sequer que aquela não é a nossa sintaxe. Pretendia ser coisa séria, mas soou como as velhas dobragens no país vizinho que punham John Wayne a mandar vir com os índios em espanhol.

 

Um excelente romance em língua inglesa traduzido para português torna-se quase ilegível dada a opção do “tradutor” em utilizar o nosso idioma com a sintaxe original, abusando dos pronomes pessoais e possessivos, usados com extrema parcimónia em português, ao contrário do que sucede em inglês – daí resultando frases como “ela esperava que a sua mãe não estivesse a dormir e ficou à espera que a sua mãe abrisse a porta”.

As traduções literalíssimas, atendendo só à forma sem prestar a menor importância ao conteúdo, já levaram a que vin rouge fosse traduzido para “vinho vermelho”. Parece brincadeira, mas não é: deparei com esta barbaridade numa série francesa vista há meses.

E por falar nisto: a nossa maltratada língua sofre entorses diárias com traduções pedestres que adulteram por completo a carga semântica dos vocábulos. De súbito, somos brindados com “demonstrações” como equivalente a manifestações (demonstrations, em inglês) ou “realizar” como surpreendente sinónimo de “entender” ou “perceber”, relegando para longa distância o antiquíssimo significado de empreender ou concretizar. Há mesmo um escritor muito galardoado que povoa as suas páginas de realizar – embusteira tradução literal do to realize inglês.

 

Há umas semanas abriu em Lisboa um muito badalado espaço de culinária gourmet protagonizado pelas figuras do costume, que são sempre as mesmas. Anos atrás chamar-se-iam cozinheiros, hoje só respondem a quem os trate por chef – assim mesmo, sem e final, à francesa.

Esse espaço está a ser promovido nas tais folhas e nas tais trombetas como mostra de “cozinha casual”. E eis que por nova colagem do inglês um adjectivo que no nosso idioma sempre significou imprevisto ou acidental se cola ao significado de importação, que é “informal” ou “descontraído”.

Alguns exemplos, entre tantos outros, do tal analfabetismo militante. Que impera por aí e teima em impor-nos as suas regras. Se não falarmos ou escrevemos como eles querem, ainda nos chamam ignorantes.


26 comentários

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De Anónimo a 02.04.2018 às 12:16

A perceção que tenho é que ninguém liga à correção da Língua.
Basta ouvir e até ler os nossos políticos (a começar pelos ministros da educação) e a intelectualidade em geral. É uma causa e um património estrutural definitivamente perdidos. Já não há recursos, principalmente humanos, para reverter a situação. Desgraçadamente!
(Não me venham cá com a questão do AO, que não tem importância nenhuma, para o caso e para tanta controvérsia.)
João de Brito
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De Pedro Correia a 02.04.2018 às 12:24

"Não me venham com a questão do AO", escreve você.

Venho, sim. Logo na primeira linha do seu comentário, escreve "perceção". Enquanto em Angola ou no Brasil, por exemplo, se escreve percepção. Correctamente.

Basta este exemplo para se perceber a aberração de um "acordo" que se propunha "unificar a ortografia" e afinal veio introduzir ainda mais alterações. Um verdadeiro caos ortográfico: cada um escreve mais que nunca à sua maneira.
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De Costa a 02.04.2018 às 13:19

"(...) cada um escreve mais que nunca à sua maneira." E pode fazê-lo. O que mais abunda, por estes dias, são textos escritos nem em português nem em acordês, antes numa mistura que só não é risível porque dolorosamente decadente. E que só não é caso de má consciência porque a consciência é coisa, neste povo, crescentemente desaparecida em combate. É mesmo ignorância, pura dura e arrogante. Ignorância até dessa nova e tão benfazeja nova norma.

A seu tempo, mais cedo do que tarde, isso ainda será muito útil ao poder. Valerá tudo e o seu contrário (menos o português correctamente grafado; aqui o corrector automático diz que acabo de cometer dois erros!) e teremos excelentes estatísticas de aproveitamento estudantil a língua portuguesa - ou o que quer que por estes tempos se tome como tal -; e srs. ministros e srs. secretários de estado, admitindo que percam um segundo do seu tempo com línguas e humanidades, a proclamar inchados de glória vazia mais uma geração "mais bem preparada de sempre".

Umas após as outras, até ao embrutecimento final.

Costa
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De Pedro Correia a 02.04.2018 às 18:00

Muito bem, caro Costa. Bem pensado.
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De Anónimo a 02.04.2018 às 13:21

E, já agora, escrevo também, também na primeira linha, "correção".
Gasta-se menos tinta e menos tempo.
E não fere nada de estrutural, nada de essencial, na Língua.
Ao contrário de erros sintáticos, cada vez mais numerosos e correntes, a que ninguém, mas ninguém, dá importância nenhuma.
É muito próprio de nós - relevamos o acidente em desfavor da substância.
E pagamos por isso.
Caro!
João de Brito
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De Pedro Correia a 02.04.2018 às 17:58

Meu caro, se o seu problema é poupar no tempo e na tinta, comece por assinar Ão de Ito.

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