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Delito de Opinião

Quando o comentário ultrapassa a notícia

Pedro Correia, 17.01.22

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O PCP, que tanto diz pugnar pelas «micro, pequenas e médias empresas», rejeitou figurar nos debates televisivos com os micro, pequenos e médios partidos em pequenos e médios canais. Se existe facto digno de realce na campanha para as legislativas é este: os comunistas apenas admitem ser confrontados pelos dois partidos maioritários, em sinal aberto. Excluindo os canais por cabo. Sem debaterem com Catarina Martins, André Ventura, Francisco Rodrigues dos Santos, Cotrim Figueiredo, Inês Sousa Real e Rui Tavares.

Devido à pandemia, a campanha volta a desenrolar-se quase em exclusivo na televisão. Aí se mobilizam os indecisos, não as claques que até votariam numa ventoinha eólica se fosse ela a liderar o rebanho. Desprezar os canais por cabo, hoje à disposição de quase todos os portugueses, é incompreensível para um partido que tanto se queixa de ser discriminado nos meios de informação.

No confronto com Jerónimo de Sousa, infelizmente retirado da campanha por doença dias depois, Costa endureceu o tom, sem complacência: nessa noite, na TVI, o PS deve ter pescado alguns milhares de votos ao PCP. Tal como sucedeu nas autárquicas de 2017 e 2021. É um problema estrutural nas fileiras vermelhas, que não se resolve com outro secretário-geral. Um problema de modelo e de projecto. Somado à imensa dificuldade em justificar o que levou o partido a precipitar esta crise política.

Será por isto que os comunistas abdicam dos confrontos nas pantalhas que podem ditar o destino das legislativas? As legiões de comentadores ali acampados deviam elucidar-nos, mas encolhem os ombros como se fosse a coisa mais normal do mundo ver um partido derrotado por falta de comparência.

Merecem também registo as fracas prestações do líder laranja face aos homólogos do Chega e do Livre: Rui Rio passou boa parte do tempo a escorregar nas cascas de banana que André Ventura e Rui Tavares lhe lançavam. Tentou replicar as ideias dos outros em vez de exprimir ideias próprias. Com fraco resultado, como se viu na trapalhada em que se enredeou a propósito da prisão perpétua. Nem parece alguém com 40 anos de traquejo político.

Custa igualmente perceber que os canais de televisão reservem pouco mais de 20 minutos a cada confronto destes, na comparação com o tempo que dedicam a qualquer programa com gente a debitar irrelevâncias sobre futebol. E espanta ver moderadores – como João Adelino Faria, na RTP – que parecem estar ali só enquanto cronometristas, sem pulso para coordenar debates. Ao contrário de Clara de Sousa, na SIC, e Rosa Oliveira Pinto, na SIC Notícias.

Usemos então o cronómetro. Ao frente-a-frente Costa-Jerónimo, que durou 22 minutos, seguiram-se 34 minutos com quatro comentadores a perorar sobre o debate. Depois dos 24 minutos de tête-à-tête entre Catarina Martins e Rui Tavares na SIC Notícias, dois “analistas políticos” mastigaram durante meia hora o que foi dito. Desproporção total entre uma coisa e outra.

Quando o comentário se torna notícia, imprime-se o comentário. Devem soar alarmes: algo vai mal no reino do jornalismo.

 

Texto publicado no semanário Novo

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