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Durante anos, recomendei aos estagiários a quem dava formação em exercício que tivessem sempre presente uma das regras básicas da profissão de jornalista: «Não tens de ser o primeiro a divulgar a notícia. Só deves ser o primeiro a dar a notícia certa, devidamente comprovada.»

Acontece que esta regra se tornou obsoleta. Hoje, na desenfreada "caça ao clique" e perante a propagação acéfala do que quer que seja através das redes sociais, a salvaguarda mínima da veracidade das notícias foi empurrada para a borda do prato - tantas vezes não por culpa dos jornalistas que assinam a peça mas pelos superiores hierárquicos que incentivam a sua publicação imediata, trocando o rigor dos factos pelo algoritmo "viral".

Andam alguns por aí a justificar a crise do jornalismo no desinteresse crescente do receptor, quando deviam apontar o dedo ao emissor. Sexta-feira passada, registou-se uma das mais chocantes adulterações do jornalismo, pervertido pela ânsia da "publicação imediata", sem cuidar da veracidade do que se publica. Ao fim da manhã, um jornal digital garantia ao País, em estrondosa manchete, que Bruno de Carvalho reassumira a presidência do Sporting por determinação judicial.

 

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«Tribunal terá dado razão a Bruno de Carvalho. (...) Trocado por miúdos, o antigo líder volta a ser presidente», rezava a putativa notícia, intitulada «E o impensável aconteceu: Bruno de Carvalho é de novo presidente do Sporting.»

Repare-se na caótica distribuição das formas verbais. O título proclama um categórico «é», que não admite dúvidas. A primeira frase da pseudo-notícia mostra-se dubitativa: o tribunal «terá dado razão» a Carvalho, destituído da presidência do clube pelos sócios que acorreram à assembleia geral de 23 de Junho. No final, regressavam as certezas: «O antigo líder volta a ser presidente.»

O jornal escreveu e publicou estas linhas incendiárias sem documentação, sem possibilitar o exercício do contraditório, sem ler o despacho judicial a que fazia referência: tudo errado. Baseou-se apenas na suposta técnica do "bitaite" soprado por aquele a quem interessava que o boato se transformasse em notícia: o próprio Bruno de Carvalho.

 

Foi quanto bastou, nesse dia, para fazer mudar os alinhamentos de todos os telediários da hora do almoço.

A SIC, por exemplo, abriu o seu Primeiro Jornal com uma repórter presente no estádio José Alvalade a debitar isto: «Bruno de Carvalho veio trazer uma providência cautelar que cancela, que anula, a assembleia destitutiva realizada a 23 de Junho.»

A TVI colocou o tema logo em segundo lugar no seu Jornal da Uma. Também com uma "enviada" a Alvalade, que nos comunicou em tom categórico: «Este documento judicial anula essa assembleia geral. Essa reunião magna não é válida.»

A RTP, mais prudente, remeteu a peça só para o minuto 17 do seu Jornal da Tarde. Mas lá estava também o repórter junto às instalações do Sporting, embora neste caso o tom fosse visivelmente cauteloso: «Fomos informados de que Bruno de Carvalho teria na sua posse um documento do tribunal que colocaria em causa algumas das decisões tomadas na assembleia destitutiva.» Confessando o jornalista, com assinalável honestidade, não ter visto documento algum: daí ter colocado todos os verbos no condicional.

Entretanto, não faltou quem convocasse para comentar em estúdio os habituais tudólogos, especialistas em comentar o que não conhecem.

 

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Durante mais de duas horas, o boato foi tomado como verdadeiro e transmitido como facto a todos os cantos do País. Sem ninguém conhecer o teor concreto daquilo em que era suposto basear-se a notícia. Só interessavam os cliques e a corrente "viral" que potenciam receitas publicitárias.

O fenómeno contagiou quase todos os títulos jornalísticos, baseado noutra nova regra que passou a imperar na profissão desde o predomínio do digital: "Se os outros falam, nós falamos também."

Até que houve quem percebesse enfim que tudo não passara de um rebate falso, propagado pelo primeiro dirigente desportivo demitido pelos sócios em 112 anos de história do Sporting. Não havia tribunal nenhum a dar-lhe razão, o voto emitido na assembleia geral continuava válido e os actuais órgãos sociais leoninos, de carácter provisório até às eleições de 8 de Setembro, têm plena validade jurídica.

Centenas de linhas e milhares de palavras depois, lá surgiu o volte face. Imprimiu-se a notícia de teor oposto, desta vez num título quilométrico: «Bruno de Carvalho tentou apresentar providência mas era fumo sem fogo: continua suspenso de sócio e ex-presidente.»

Um fumo sem fogo que gerou imensos cliques. E que ajuda a explicar, de modo eloquente, a grave crise reputacional do jornalismo português.

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45 comentários

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De Pedro Neves a 21.08.2018 às 11:19

Bom dia Pedro,
É um exemplo perfeito da facilidade com que alguém mais mal-intencionado pode manipular facilmente a sede mediática por desenvolvimentos "impensáveis" em cima da hora. O pior é que seria de esperar que, ao fim de tantos desenvolvimentos "impensáveis" à volta da pessoa que causou esta comoção toda, os média já estivessem de sobreaviso para tentativas destas de manipulação e lançamento de confusão.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:53

Tens toda a razão, Pedro. O facto de isto se ter passado com o protagonista que sabemos torna o circuito do boato-transformado-em-notícia ainda mais imperdoável.
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De Sarin a 22.08.2018 às 12:07

Perdão pela intromissão, mas...

... a figura em causa já deveria ter criado imunização, sem dúvida. Ainda para mais recordando todos os destratos e destemperos com que brindou jornalistas e órgãos de comunicação.
Esta ausência de imunização torna a não notícia ainda mais digna de acusação, e a flexibilidade da coluna vertebral dos órgãos que a ecoaram acrescenta-lhe o escabroso.
Mas a "notícia" em si é apenas mais uma igual a tantas outras que pululam nas notícias-ao-minuto.

Lembro-me de quando um directo demorava horas a chegar ao local da notícia.
A notícia agora cria-se onde estiver a equipa de... de... bolas, de quê?! Não lhe posso chamar "de reportagem", posso? Ah, sim, "equipa de exteriores".
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De Anónimo a 21.08.2018 às 12:02

Exactíssimo "... quando deviam apontar o dedo ao emissor...". Afinal para quem é até bacalhau bastava.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:54

O problema está no emissor. Voltarei ao assunto, naturalmente.
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De Rão Arques a 21.08.2018 às 12:07

Falou quem sabe escancarando o indesmentível, cala-se quem devia pedir desculpa pela enxurrada de atropelos.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:55

Enfim, muito mais haveria a dizer sobre este caso - infelizmente tão emblemático. Por enquanto, fico-me por aqui.
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De Anónimo a 21.08.2018 às 12:52

"Fake News", "Notícias Falsas" portanto.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:54

Notícias falsas travestidas em "verdade". Pós-verdade.
Nada que se recomende. Mesmo nada.
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De António a 21.08.2018 às 14:01

Há muitos anos Howard Stern revolucionou a forma de fazer rádio, dizendo o que não se devia dizer, ou não se podia dizer. Esteve a um passo de ser despedido, mas foi salvo pelas audiências. Curiosamente, quem detestava Stern passava mais tempo a ouvi-lo. E ouviam também mais publicidade, no fundo, o que interessava à companhia. Stern ficou.
Décadas depois, nada mudou. Os discursos de ódio, as falsas notícias, os comentários rancorosos geram tráfego. Não surpreende que a imprensa procure sofregamente a última desgraça, é preciso vender danoninhos.
A mim dá-me nojo interromperem notícias de gente que morreu queimada com anúncios de protector solar, ou de gente a morrer de fome com anúncios ao mon chéri. Mas é este o nível.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:56

Infelizmente (como diz), é este o nível.
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De Eduardo Louro a 21.08.2018 às 15:18

A figura é, de resto, toda ela uma criação da "crise reputacional do jornalismo português". É bom lembrar todo o suporte "jornalístico" da sua estratégia, e como os jornalistas se deixaram seduzir e instrumentalizar. E lembrar Nuno Saraiva e (o infeliz) Fernando Correia. Ou até a forma como, mesmo já "cadáver", juntava toda a comunicação social em Alvalade, para dela dispor como entendia.
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:58

"Conferências de imprensa" em directo, durante três horas, sem direito a perguntas dignas desse nome mas com "direito" a tempo de antena garantido. Enquanto ia insultando jornalistas e os colegas do lado nem tugiam nem mugiam. Aliás, nem os próprios insultados saíam da sala.
Como é que alguém pode respeitar uma classe profissional que se comporta assim?
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De Sarin a 22.08.2018 às 01:27

Como é que uma classe profissional aceita ser tratada assim? A resposta massiva e massiça traduz a qualidade do jornalismo - cujos porquês vimos falando há muito e sobre os quais me parece que, infelizmente, continuaremos a falar...

Relembro que jornalismo inclui editores, chefes de redacção e, de há uns anos a esta parte, investidores. Em proporção inversa a redactores e a revisores, acho...
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De Pedro Correia a 22.08.2018 às 07:56

Um jornalismo que não se faz respeitar não pode ser respeitado. Nem pode usufruir da consideração social que já teve.
Outros tempos, outros modos. Não por acaso, tivemos em tempos anteriores, na direcção de jornais, figuras como Vitorino Nemésio, Agustina Bessa-Luís, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, António Alçada Baptista, Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Vicente Jorge Silva. Hoje, é o que há. Muito diferente.
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De Sarin a 22.08.2018 às 11:43

Não sei como lidariam hoje Nemésio ou Batista-Bastos com a voracidade da rede e com a liberdade de expressão das plataformas.
Mas quando estudei as básicas bases do jornalismo no (então como agora 6. ano de escolaridade, as retive - e durante toda a adolescência e princípio da adultícia as vi cumpridas, até nos jornais em que o exagero e a dúvida faziam parte do estilo. As revistas tinham reportagens e crónicas, as outras chamavam-se Maria - uma inovação na forma de informar (não necessariamente melhor). E depois o CM mudou o paradigma e os investidores mudaram as regras. E a www destruiu o que sobrava. E nós deixámos tanto quanto fomos a reboque e empurrámos a máquina, Pedro. Alternadamente. Como alternadeiras.
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De V. a 22.08.2018 às 15:04

Era o mundo de então que permitia a existência de Nemésios e Baptistas desses. O mundo de agora não fabrica senão aquilo que ali está.

Isto anda tudo ligado ;)
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De Anónimo a 21.08.2018 às 15:37

O que refere na sua mensagem não é bem uma notícia - é um segmento de "Live Show" pelo que as regras de jornalismo não se aplicam.
Os média não noticiam, relatam como os locutores de relatos desportivos. A coisa tem sempre hora marcada, pois os palcos aparecem previamente acolchoados por equipas de operadores de câmara e locutores, e o sr. de Carvalho comporta-se como uma especie de Kardashian em que a derrama dos seus estados de alma e a divulga (e o divulgar-se..) das confabulações mais alarves nas "redes sociais" não são para informar, mas para ressoar. Em vez das volumetrias da Sra. D. Kim e dos seus adereços ou invócrulos, permanece a ressoar nos receptores incautos, a voz abagaçada articulada com uns "smashes" e "smarties" sobre a Ordem Juridíca, os "Estatutos", as mulheres, filhas e outras criancinhas, ou os afectos por atletas, todos eles largamente não correspondidos.

Existe solução? Não saberei - talvez, a nível de editoria jornalistica, perceber-se que tão grande profusão de solturas se pode ir atenuando ou diluindo puxando mais vezes o autoclismo em vez de andar sempre a discutir tanto os 'aromas' do pivete.
Ou então dar-lhe um programa de "debate", por exemplo, formato 'tête-á-tête' com aquele senhor "do outro clube" da 2a. Circular que se apresenta em 'debates' com badocha "valise" cheia de "prints" de 'frames' e citações de encómios a um "sr. Presidente" que não o Prof. Marcelo ou mesmo o sr. Medina. Tal 'transmissão' poderia ir para o ar em concorrência com os tempos de antena dos "talking heads" do Bloco de Esquerda (ou seja, garantida difusão diária praticamente em 'prime time') ou então nos intervalos de transmissões de "wrestlng" americano com opção de "podcast" na 'darknet' e arquivo no 'wikileaks'.

Jorg
Jorg
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De Pedro Correia a 22.08.2018 às 00:08

Nunca me tinha ocorrido comparar De Carvalho com uma Kardashian. Mas, vendo bem, não me parece mal pensado.
E geram muitos cliques, ele e elas. Tudo farinha do mesmo saco "comunicacional".
Nada a ver com jornalismo.
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De Anónimo a 22.08.2018 às 15:06

O BdC é um infiltrado do Benfica e a outra é burra e tem um rabo horrível descomunal. Eu não consigo é deixar ver a relação óbvia entre estas duas coisas.
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De Luis Eme a 21.08.2018 às 15:52

Concordo com praticamente tudo, Pedro.

Como é possível tanta gente ser enganada pelo mesmo "aldrabão", depois de tudo o que aconteceu...

É mesmo a "febre de ser o primeiro" e não o "melhor"...
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:59

A criatura continua a ter o tempo de antena que quer, com o beneplácito de títulos jornalísticos supostamente respeitáveis. Que transformam esta fonte mais que inquinada em fonte "credível".
Como pode ser respeitado um jornalismo que se comporta assim, Luís?
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De Maria Natalia Diogo a 21.08.2018 às 16:00

100% de acordo, cada vez são menos, os jornalistas a quem o nome representa a veracidade da noticia, Parabéns pelo comentário.
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De Pedro Correia a 22.08.2018 às 00:00

Obrigado, Maria Natália. Voltarei ao tema.
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De sampy a 21.08.2018 às 16:24

Só para lembrar que estamos em Agosto...
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De Pedro Correia a 21.08.2018 às 23:59

Não explica tudo. Aliás, não explica quase nada.
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De sampy a 22.08.2018 às 19:09

Calhou-me aguentar com três Agostos seguidos, quando andava entretido na imprensa regional. E ainda hoje me lembro do que o director dizia aos que ficavam a penar: "O jornal tem de sair todos os dias e com x páginas; o que meteis lá dentro é convosco. Aqui está a pasta dos telexes que ficaram de molho, ali está a pasta das receitas de culinária... Telefonai para a polícia, para os bombeiros, para os hospitais, para os cangalheiros... E evitai ir para a rua, que vai estar demasiado calor. Até Setembro!"
Imagino que nos media nacionais haja um pouco mais de profissionalismo. Mas será pouco mais...

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