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Cada discussão que nos afasta do essencial é uma discussão a mais. Sérgio de Almeida Correia publicou aqui dois textos sobre a crise dos refugiados, com duras críticas ao governo húngaro. No primeiro, juntava vagas interpretações com meias-verdades para descrever uma espécie de regime ditatorial. É uma longa conversa, altamente contaminada e que não me interessa. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, tem defeitos: é um conservador populista com visão exagerada do seu país, tem tendência para a franqueza pouco diplomática e para o que considera ser a defesa intransigente dos interesses nacionais. Criticável? Sim, mas incompreensível sem o elemento explicativo de um partido tóxico na oposição de extrema-direita e de outra oposição de esquerda pós-comunista, que levou a Hungria à falência. Na sociedade húngara há discriminados? Sim, os ciganos. Mas é falso que o primeiro-ministro seja anti-cigano.

Podia tentar refutar as questões levantadas no primeiro texto, por exemplo sobre os juízes (existe explicação, mas é complexa) ou sobre a liberdade de imprensa, mas o post a bater no líder húngaro está cheio de preconceitos e não vou convencer o autor. A interpretação política é dele e, para mais, a discussão é lateral, pois na realidade estamos perante uma crise de refugiados sem precedentes e o que está verdadeiramente em causa, do ponto de vista dos europeus, é se cumprem as regras que eles próprios escreveram.

 

O segundo texto do Sérgio é injusto, pois faz um paralelo histórico que só se aplica num contexto de grande hipocrisia. A Hungria já recebeu 200 mil refugiados este ano, sobretudo nas últimas semanas, e tem, neste momento, milhares no seu território. Está a fazer muito mais do que Portugal.

Budapeste esteve mergulhada no maior caos, com grandes quantidades de refugiados a recusarem cumprir a lei, a fugirem em massa ao registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen. Nas fronteiras, houve fugas organizadas por traficantes, os quais controlam a passagem suave de toda a massa humana pelos Balcãs. Por causa desta guerrilha, o país ficou isolado, sem comboios, com auto-estradas interrompidas e acampamentos em estações. Será porventura preferível que as máfias do tráfico humano controlem esta migração? A comparação com 56, insinuando a insensibilidade e a ingratidão dos húngaros, revela a tese sentada no conforto do camarote.

 

E já nos desviámos bastante do assunto. O que não se percebe nas críticas do meu parceiro de blogue é o seguinte: o que devia ter feito a Hungria? Se não fechasse a fronteira, os migrantes passavam sem controlo; se fechasse, estava a ser insensível. O Acordo de Schengen é para cumprir ou para ignorar? Há soluções colectivas para a crise ou os países da linha da frente são abandonados à sua sorte? Aliás, a Hungria não se considera na linha da frente, acha que o registo tem de ser feito na Grécia; as autoridades europeias discordam, sendo isto que está a ser negociado. E há outras perguntas: entra toda a gente na Europa ou apenas os refugiados provenientes de países em guerra? E os países europeus têm o direito de proteger as fronteiras ou estas devem ser uma responsabilidade colectiva?

Por azar, quatro países europeus estão à beira de eleições, é natural que ninguém queira discutir estes problemas. No final, a Hungria parece ter sido o único país a tentar cumprir o Acordo de Schengen, procedendo ao registo obrigatório dos migrantes, o que implica a recolha de impressões digitais e permanência de vários dias em campos sub-financiados. O Governo húngaro diz que gastou 200 milhões de euros e que recebeu apenas 7 milhões da Europa. Muitos migrantes resistiam, com milhares a desafiarem as ordens da polícia. E como interpretar um episódio em que uma multidão assalta à pedrada uma fronteira internacional, tentando passar essa fronteira à força e dizendo que só pretende chegar à Alemanha? Passam todos sem restrições? Podem não cumprir as leis locais? A fronteira não existe? Aquele espaço é de livre circulação? Foi simples desespero de uma multidão sem opções ou um desafio à soberania de um país? Difícil responder.

Em resumo, esta crise é semelhante à crise da zona euro, mas bem mais grave do ponto de vista humanitário. A Grécia não cumpriu as regras da moeda única, elegendo um governo que tentou desafiar as exigências em vigor e que foi forçado a cumpri-las. Na altura, elogiou-se Atenas e criticou-se a Europa. Agora, estamos perante um governo que tentou aplicar o Acordo de Schengen, protegendo as fronteiras e registando os migrantes, mas esse  governo está a ser execrado e a Europa, que não se entende sobre as regras a aplicar no caso, é muito elogiada por não existir.

 

Foto minha, de um motim de migrantes que recusavam registo, em Roszke, na fronteira com a Sérvia

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7 comentários

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De Ali Kath a 17.09.2015 às 11:23

subscrevia inteiramente o texto

anda por aí muito anão a exibir com ostentação:
ignorância
estupidez
má fé

'porrada neles'
'força na verga'

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De zazie a 17.09.2015 às 13:25

Texto inteligente. Cabeça fria e objectiva é coisa que se troca rapidamente por embrulho ideológico pré-fabricado e mais de acordo com o mainstream
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De Anónimo a 17.09.2015 às 14:57

O governo húngaro é execrável e não há desculpas para os actos que está a praticar. O Estado Húngaro não é pessoa de bem e não há palavra que melhor o classifique como Execrável. A Europa e a UE estão a demorar tempo demais a tomar decisões. Não chega, deixar entrar os refugiados, tem de se travar os loucos do lado de lá e para isso, basta parar a venda de armas e isso nem em cima da mesa está. Os do lado de cá destruíram o Iraque e agora como é? Aguentem! Não assumem as consequências dos actos que praticaram? Massacram-se inocentes que não têm outro remédio se não fugir da morte que os persegue por todos os lados e quando fogem e pedem auxílio é o que se vê! A Hungria tem atitudes deploráveis não merece estar na UE porque se vamos todos fazer o mesmo acabe-se já com a UE.
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De cristof a 17.09.2015 às 16:14

Grande trabalho jornalístico; assim vale a pena ter alguém lá. Para repetir e ampliar as narrativas preparadas nas redacções e completadas no café do largo em frente da redacção, já cá e no paraíso dos media de referncia(Inglaterra) já temos que chegue por cá. Obrigado pelo seu profissionalismo Luis Naves.
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De zazie a 17.09.2015 às 18:30

Assino por baixo, cima e lado, o que disse o comentador anterior mas pergunto porque é que estas crónicas desapareceram do Observador.

Já nem falo em jornais com tiragens em papel porque isso é tudo a mesma cantiga.

E estou à vontade para o dizer porque até embirrava com o LN por causa daquela expulsão do Paulo Cunha Porto e outras jacobinices.

Nunca imaginei que conseguisse deixar tudo isso de parte e dar uma verdadeira lição do que deve ser uma reportagem in loco
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De lucklucky a 17.09.2015 às 20:03

"Em resumo, esta crise é semelhante à crise da zona euro."

Está falar da crise de países que se endividaram loucamente com as agências de rating a baixarem a sua avaliação tarde de mais e os países a não querem pagar as dívidas da riqueza artificial criada?

Então está enganado. Esta crise é muito pior que essa. Esta crise vai definir se há sequer Ocidente.
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De Carlos Pimentel a 17.09.2015 às 21:56

Finalmente, uma peça que destaca o Delito de Opinião dos demais e que contrubui de forma muito positiva para a tentativa de gerar consensos sobre esta nova crise europeia. É necessário sangue frio, mais reflexão e menos analogia.

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