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Delito de Opinião

Quando a realidade supera a ficção

Diogo Noivo, 03.01.16

Tenho o hábito de dizer que a realidade supera sempre a ficção. É assim no amor, no desgosto, na angústia, na raiva, no medo. E no ridículo. E ninguém melhor que o nosso Ministro da Cultura, João Soares, para validar esta tensão dicotómica entre o ficcionado e o real – embora não pelas razões que possa imaginar, caro leitor.

O responsável pela pasta da cultura tem um alter-ego escritor. Até aqui nada de extraordinário. A maravilha começa quando temos presente que o faz sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds. Não lhe dizem nada? Não tem importância, o Observador explica: “O primeiro é uma junção de Hans/Johan, o equivalente a João, com Nur (só/somente) Lufts (ares) – João Só Ares, portanto. O mesmo nome que podemos aplicar a John Sowinds.” A destreza criativa investida nos pseudónimos é, no mínimo, sublime. Mas enfim, haja indulgência e entendam-se estes pseudónimos como prova do carácter bonacheirão do autor, bem como da louvável capacidade para não se levar demasiado a sério.

Porém, a história não fica por aqui. A obra de Nurlufts e Sowind é diversificada, há naturalmente muita política, mas não se pode menosprezar a atenção dada ao erotismo. Os exemplos são muitos e só o decoro (e alguma vergonha alheia) me impele a ser parco em transcrições. Ainda assim, atente-se apenas neste pequeno excerto:

 

Pero sólo en Barcelona surgió la oportunidad de que me abriese tranquilamente sus bellas piernas y que me dejase admirar su coño.

En esa época ella se había rapado el vello, de una forma simétrica y rectangular, prolongando en vertical el recorte de los labios de su coño."

 

Em suma, um ministro português chamado João Soares, sob os pseudónimos Hans Nurlufts e John Sowinds, dedica-se à escrita em castelhano (ou assim parece) de cálidas aventuras político-eróticas. Não há mente na ficção literária capaz de se lembrar de um personagem como este.

Em “Morrem Mais de Mágoa”, Saul Bellow escreve “ser visto literalmente drena a humanidade de cada um”. Certo. Mas João Soares certamente não precisava de tanto para escapar do jugo opressor da sua realidade.

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