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Delito de Opinião

Quando a mentira se torna compulsiva

Pedro Correia, 10.09.25

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Ninguém me contou: eu ouvi na CMTV. No dia 5, André Ventura anunciou aos portugueses que a tragédia ocorrida na Calçada da Glória 48 horas antes era «o terceiro pior acidente da história do país». Insistindo: «O terceiro pior da história do país toda. Toda!»

Nem numa altura em que ainda permaneciam por identificar algumas das 16 vítimas mortais deste desastre o líder do Chega conseguiu falar verdade, recorrendo às habituais hipérboles sem fundamento, no pior estilo trumpista.

Longe de mim armar-me em “polígrafo”, mas seria bom que Ventura não torcesse demasiado os factos nem insultasse a inteligência de quem o escuta.

Não é preciso recuar ao terramoto de 1755, que ele certamente incluiu entre os três piores acidentes da história do país. Fiquemo-nos pelos últimos 80 anos.

 

Fevereiro de 1941: Um grave ciclone devastou vastas áreas do País, provocando sobretudo vítimas em Lisboa, Alhandra e Sesimbra - muitas das quais por afogamento devido a inundações registadas nas áreas ribeirinhas. Mais de cem mortos.

Setembro de 1954: descarrilamento do comboio rápido do Algarve em Santa Clara (Odemira). 54 mortos.

Maio de 1961: avião DC8 que fazia a ligação Roma-Lima caiu na Fonte da Telha (Caparica), pouco após descolar de Lisboa. 61 mortos.

Maio de 1963: queda da cobertura das plataformas da estação ferroviária do Cais do Sodré, soterrando mais de uma centena de pessoas. 49 mortos.

Julho de 1964: reboque de passageiros solta-se do comboio em que circulava na Linha do Porto e choca contra um paredão em Custóias: 90 mortos.

Setembro de 1966: combate a um incêndio descontrolado na Serra de Sintra marcado pela tragédia. 25 mortos, todos militares.

Novembro de 1967: dramáticas inundações na Grande Lisboa, de Alenquer ao Dafundo, após horas consecutivas de chuva intensa que viriam a transformar a cintura da capital num mar de lama. 462 mortos oficiais.

Setembro de 1976: avião C-130, da força aérea da Venezuela, cai quando ia aterrar nas Lajes em escala para Espanha. Sem sobreviventes. 68 mortos.

Novembro de 1977: Boeing 727-200 da TAP oriundo de Lisboa falhou aterragem no velho aeroporto de Santa Catarina, no Funchal, partindo-se em dois. Parte da aeronave caiu na praia, a 130 metros de altura, e foi consumida pelas chamas. Era, à época, a maior tragédia aérea em Portugal. 131 mortos.

Janeiro de 1980: sismo na Terceira, com magnitude de 7,2 na escala de Richter. O pior em 200 anos nos Açores. 73 mortos.

Abril de 1984: colisão entre um autocarro e uma automotora junto ao apeadeiro de Recarei-Sobreira (Paredes). 17 mortos.

Setembro de 1985: choque de comboios em Alcafache (Mangualde), na Linha da Beira Alta, entre o Sud Express que seguia para Paris e um regional com destino a Coimbra. Foi o maior desastre ferroviário em Portugal. Cerca de 150 mortos.

Maio de 1986: colisão entre um comboio suburbano e outro de serviço rápido, oriundo da Covilhã, na estação da Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira). 17 mortos.

Fevereiro de 1989: Boeing 707 da Independent Air, que fazia escala na ilha de Santa Maria em viagem de Itália para a República Dominicana, embate no Pico Alto, sem sobreviventes. Foi o maior desastre aéreo em Portugal. 144 mortos.

Dezembro de 1992: avião da companhia holandesa Martinair, vindo de Amesterdão, partiu-se em dois ao tentar a aterragem em Faro. 56 mortos.

Dezembro de 1999: avião da SATA despenhou-se após embater no Pico da Esperança, na ilha de São Jorge, num voo regional. Desastre sem sobreviventes. 35 mortos.

Março de 2001: colapso da secular ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios (Castelo de Paiva), quando nela circulava um autocarro de passageiros. 59 mortos.

Fevereiro de 2010: forte aluvião em quatro concelhos da Madeira, devido à precipitação com valores inéditos na ilha, redundou em catástrofe. 51 mortos.

Junho de 2017: dramático incêndio florestal em Pedrógão Grande alastrando aos concelhos vizinhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Ansião. No mesmo dia, as chamas devoraram vastas áreas na Sertã, Penela, Pampilhosa da Serra, Góis e Arganil. 66 mortos.

Outubro de 2017: 440 incêndios, 33 dos quais de grandes dimensões, em dezenas de concelhos no pior dia desde sempre registado em fogos florestais no País. 50 mortos.

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