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Quando a abstenção decide eleições

por João Pedro Pimenta, em 15.07.20

 

Três meses e meio depois a França lá conseguiu realizar a segunda volta das eleições municipais, que tinham ficado a meio por causa da pandemia, após a polémica primeira volta (por não ter sido adiada).

Como resultado, os ecologistas tiveram vitórias retumbantes, conquistando Bordéus, Lyon, Besançon, Tours, Poitiers, tomando parte na manutenção de Paris por parte da esquerda e na sua conquista de Marselha.

O Partido Socialista resiste à queda na irrelevância mantendo Paris, além de outras cidades e parte da banlieue da capital. Depois de anos terríveis, com a perda da presidência, de quase todos os deputados e até da histórica sede da rue Solférino, e da sangria de militantes, os herdeiros de Mitterrand e da SFIO ganham aqui algum fôlego.

A direita tradicional gaulista dos Republicanos ganha muitos municípios mas de escassa importância, com excepções como Toulouse ou Metz, e revela também um declínio crescente, depois de durante décadas ter sido a grande força política francesa.

À esquerda do PS mantêm-se alguns bastiões tradicionais do PCF à volta de Paris e no Sudoeste.

A extrema-direita ex-FN mostra que as municipais também não são o seu terreno favorito, conservando alguns municípios no Sudeste.

E por fim o centro, dominado pela Republique en Marche, do Presidente Emmanuel Macron, revelando fracos resultados e escassa implantação local, confirmando que é um movimento ultra personalizado na figura do(s) seu(s) líderes. Teve como escasso sucesso a eleição de Édouard Philippe por Le Havre e pouco mais.

 

Dois factores fulcrais nesta eleição, um que não é surpreendente, e outro que, sendo-o, talvez se relaccione com o outro. O primeiro é a abstenção, esperada dada a prevalência da pandemia, embora num clima menos pesado do que o da primeira volta. O segundo são os resultados extraordinários dos ecologistas.

Poderá a abstenção ter jogado a seu favor? É bem possível. Note-se a queda dos Republicanos, por exemplo, e a perda de importantes domínios municipais. É um partido assente em eleitores normalmente mais velhos, fiéis ao partido ou às suas sucessivas existências. O mesmo se poderá dizer do Partido Socialista, que até sofreu uma sangria em forma de pequenos movimentos formados pelas alas mais jovens.

Quanto à ReM, como se disse, está demasiado centrado em Macron e tem escassa representação local. Assim, e por causa do receio da epidemia, muitos eleitores mais velhos optaram por não votar.

Os ecologistas recebem por norma um voto mais jovem, e com a ida às urnas de gerações mais novas, é bem possível que a balança se tenha inclinado para o seu lado. Neste caso, o receio da situação terá levado a que parte do eleitorado se abstivesse, permitindo assim uma mudança política (e em parte geracional).

 

É uma nota interessante e ao mesmo tempo ligeiramente inquietante: pode uma situação extra-política levar a uma alteração numa eleição? Há o caso de Espanha em 2004, quando o PP, já pronto a ganhar as eleições, acabou por perdê-las na sequência dos atentados de Atocha e da forma como o seu governo geriu a situação. Mas aí ainda dependia dos próprios. Aqui não, uma situação alheia influencia uma parte do eleitorado e dá azo a alterações políticas de alguma monta.

Repare-se que nas eleições dos últimos dias na Polónia (presidenciais) e em Espanha (regionais) a votação até subiu e ganhou quem já lá estava. O oposto do que se passou em França. É por isso razoável pensar que um evento extra-politico pode mesmo mudar o curso de uma eleição, seja porque é retumbante e altera o sentido de voto, seja porque leva a que uma parte do eleitorado não vote.

 

Entretanto, fica a nota, os ecologistas ajudaram a esquerda a conquistar Marselha, antes reduto dos Republicanos. Mas na cidade da Provença a figura que domina as atenções da cidade não é nenhum político, nem sequer a nova maire. Nestes tempos de epidemia, o infecciologista e académico Didier Raoult, dos mais reputados na área, tem ganho uma especial proeminência, pelas suas declarações pouco ortodoxas, por ser um dos teóricos do tratamento à base de hidroxicloroquina e pela sua figura bizarra, que lhe valeu a alcunha de Panoramix.

Se se candidatasse à chefia do município de Marselha, ganharia decerto com enormíssima maioria. Até já serve de motivo para tatuagens.

 

Actualités | Le 18:18 - Le professeur Raoult toujours dans le cœur ...


8 comentários

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De cheia a 15.07.2020 às 11:10

As vitórias dos ecologistas já fez com que Macron se tornasse ecologista.

Bom dia
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De João Pedro Pimenta a 15.07.2020 às 18:30

Sim, logo no dia seguinte Macron apresentou logo um conjunto de medidas ecológicas.
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De Luís Lavoura a 15.07.2020 às 11:26

Não entendo. Então em França a abstenção é decisiva, na Espanha e na Polónia não é?
Qual é a teoria deste post, que as pessoas tinham motivos para se abster em França, mas na Espanha e na Polónia não?
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De João Pedro Pimenta a 15.07.2020 às 18:32

A teoria é a de que a abstenção pode realmente alterar o curso de uma eleição. A maior abstenção em França (em relação às anteriores, e provavelmente causada pelo receio do covid) e as menores em Espanha e Polónia são factuais, não teóricas. Se acha estranha, veja os números.
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De Elvimonte a 16.07.2020 às 00:11

E quando não é a abstenção a decidir ou a influenciar eleições?

"Dr Robert Epstein testifies Google sent 2.6 million+ votes to Hillary Clinton"
https://newtube.app/user/Fragalicious/bfI7cVU

O Prof. Didier Raoult "tem ganho uma especial proeminência pelas suas declarações pouco ortodoxas"?

É bem capaz. Ortodoxia e ciência nunca combinaram bem. Copernico, Einstein, Feynman, Mullis e tantos outros nunca foram ortodoxos e nunca precisaram de consensos, temos que reconhecer. Quando na ciência se invocam a ortodoxia e os consensos, é porque a prova não é sólida.

E os artigos científicos em defesa da "malvada" hidroxicloroquina continuam aí a resistir à retractação, ao contrário daquele artigo publicado no The Lancet, em que a "malvada" era diabolizada. Eis alguns exemplos:

"THE EFFICACY OF CHLOROQUINE DERIVATIVES IN COVID-19: A META-ANALYSIS BASED ON THE FIRST AVAILABLE REPORTS"
(https://www.mediterranee-infection.com/the-efficacy-of-chloroquine-derivatives-in-covid-19-a-meta-analysis-based-on-the-first-available-reports/)

"Full-length title: Early treatment of COVID-19 patients with hydroxychloroquine and azithromycin: A retrospective analysis of 1061 cases in Marseille, France"
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1477893920302179)

"Hydroxychloroquine and azithromycin plus zinc vs hydroxychloroquine and azithromycin alone: outcomes in hospitalized COVID-19 patients"
(https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.02.20080036v1)

"Outcomes of 3,737 COVID-19 patients treated with hydroxychloroquine/azithromycin and other regimens in Marseille, France: A retrospective analysis"
(https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1477893920302817)

"Treatment with hydroxychloroquine, azithromycin, and combination in patients hospitalized with COVID-19"
(https://www.ijidonline.com/article/S1201-9712(20)30534-8/fulltext)

É claro que a hdroxicloroquina, a azitromicina e o zinco são genéricos baratos cujas margens de lucro estão completamente esmagadas, não podendo, por isso, dar origem a lucros fabulosos.

É claro que, se me viessem "oferecer" 500 000$ para conduzir um ensaio clínico destinado a demonstrar a ineficácia e a toxicidade da "malvada" e ainda por cima ameaçassem matar toda a minha família se o não fizesse, não teria forma de recusar a "oferta".

E seria fácil conduzir um ensaio clínico desse tipo: ou administrava a "malvada" a todos os entubados, cuja probabilidade de sobrevivência, faça-se o que se fizer, ronda os 5%, ou iniciava o tratamento com uma dose de 4000 mg, muito para além do limiar de toxicidade. Por incrível que pareça, houve ensaios clínicos onde se fez isso mesmo. É só procurar por "covid trials" e ler os protocolos.


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De João Pedro Pimenta a 17.07.2020 às 19:31

"Quando não é a abstenão" não é objecto deste post.
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De jo a 16.07.2020 às 10:53

"É uma nota interessante e ao mesmo tempo ligeiramente inquietante: pode uma situação extra-política levar a uma alteração numa eleição?"

Não não pode, porque tudo é política, não há situações extra-políticas. As eleições não são um campeonato de futebol.
Não percebo a pergunta, qual a surpresa de que uma catástrofe possa levar os eleitores a decidir mudar as suas preferências?
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De João Pedro Pimenta a 17.07.2020 às 19:33

"Tudo é política" Se o lucklucky lê isso vai logo chamar marxista a esse comentário.

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