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Público e de preferência gratuito

por Luís Naves, em 27.10.14

 

Street-Art-Collection-Banksy-95.jpg

 

Por vezes lemos textos com os quais discordamos, mas que nos fazem pensar. Foi o caso deste artigo de Luís Valente Rosa, na Revista Visão, a propósito de um artista que assina com o pseudónimo Bansky e que se tornou famoso no Reino Unido devido às suas provocações. O texto da Visão parece apoiar a ideia da arte pública e da extrema democratização do acesso, esquecendo que os artistas precisam de ter rendimento ou não haverá obras de arte. O artigo levanta de forma indirecta outra questão, que tem mais a ver com os mecanismos da fama e os truques do comércio.

É curiosa a separação que o autor faz das diferentes expressões artísticas, omitindo que a pintura só é adquirida por pessoas extremamente ricas devido à circunstância de cada obra ser única (por isso se chamam coleccionadores e também há especuladores). As cópias nada valem, até podem dar prisão se forem vendidas como originais, e a boa pintura de autores desconhecidos tem valor quase nulo. A questão das reproduções aplica-se de igual forma na literatura ou na música. Podemos ouvir Bach na grafonola, mas é uma reprodução. Se quisermos ouvir o original, precisamos de uma orquestra, de um coro, de uma organização que forneça as partituras e pague aos artistas. Até podemos complicar: há quem só aceite a interpretação com instrumentos da época. Nem falo da música contemporânea, que é raramente tocada, pois os compositores importantes são desconhecidos do público. Quem é que ouviu obras de Sofia Gubaidolina, Arvo Part ou Gyorgy Kurtag? E só incluí os indiscutíveis*.

  

Na literatura, o manuscrito original leva anos a redigir e, tirando alguns casos, não tem valor: a reprodução dos livros é barata e exige minutos, mas o negócio de a fabricar implica altos riscos, pois um romance tem grande complexidade e é preciso encontrar leitores. A pintura necessita de museus e de coleccionadores que estejam dispostos a pagar os elevados custos da preservação dos quadros e da sua segurança. Bansky é, certamente, um caso singular de um pintor cuja provocação passa pelo uso de espaços públicos para colocar as obras, mas as pessoas só lhe dão muito valor depois de saberem que é um Bansky e ninguém conhece ao certo como vive o artista, se é rico, se é pobre. O que ele expõe não é tanto a obra em si, mas a interrogação da obra, sobretudo o que nos levou a gostar ainda mais, depois de sabermos que era um Bansky.

Deixemos as digressões e vamos ao ponto: muitas pessoas cultas defendem sem hesitar a democratização total da arte: toda a gente devia ter direito a ouvir Bach, ninguém deveria adquirir colecções que escondem a grande pintura do olhar da sociedade e precisamos de bibliotecas públicas em todo o lado. E, no entanto, poucos cidadãos estão dispostos a pagar os custos de manter as instituições necessárias, as bibliotecas, os museus, as orquestras que possam interpretar Bach ao vivo, pois não é a mesma coisa ouvir as gravações. Não discuto aqui a democratização em si, pois isto leva aos problemas de quem escolhe, que já são do domínio da política.

Isto também se aplica à literatura. Em Portugal são publicados 120 romances por ano (o dobro da produção que existia no final da década de 80), sem contar com a auto-publicação. Uma pessoa muito culta lê talvez meia dúzia de obras desta colheita anual de romances portugueses. Os leitores podem achar que há livros a mais, mas esse é um pensamento errado, nunca há livros em demasia, uma literatura nacional é sempre um conjunto. E, no entanto, esta pujante produção de romance e novela perde-se numa enxurrada de mais de mil livros publicados em cada mês, sobre os mais variados assuntos, todos eles tão importantes como a ficção. É por isso que nove em cada dez escritores trabalham de forma praticamente gratuita, sem direitos de autor, como aparentemente faz Bansky. E, tal como é regra em qualquer das três grandes expressões artísticas, comércio e transcendência não andam sempre de mãos dadas **.

O público pouco se preocupa com isso, não é o seu departamento. As pessoas exigem arte gratuita e da melhor qualidade, não toleram falhas no desenho, na afinação ou na escrita. E, no entanto, na hora de pagar, o bilhete do concerto devia ser oferecido, o museu podia ter entrada livre e o livro, a cópia do manuscrito, é sempre demasiado caro. Ninguém tem destas dúvidas quando vai à bola.

 

* Os três compositores são muito considerados no meio musical, não tenho a ousadia de os compreender; Kurtag conheci pessoalmente, devido a um acaso.

** Na semana passada, Modiano andava nos saldos e tinha dado prejuízo às editoras.

 


2 comentários

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De cristof a 28.10.2014 às 18:32

Tambem conta a enorme oferta que a globalização veio colocar . E a web e televisão ainda só agora começaram a ser opção de peso.
(Ex: fui ontem ver uma opera ao S.Luis; cretinamente tinha na véspera visto uma opera encenada no teatro Mariinsky); sem querer adormeci a meio,felizmente tinha ao lado quem me acordou antes de fazer figura triste.
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De lucklucky a 30.10.2014 às 06:25

"E, no entanto, na hora de pagar, o bilhete do concerto devia ser oferecido, o museu podia ter entrada livre e o livro, a cópia do manuscrito, é sempre demasiado caro. Ninguém tem destas dúvidas quando vai à bola."

No campo de futebol da escola também um golo é um golo.
É levado a sério.
Já dentro da salas de aula é tudo muito menos levado a sério.

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