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Pronto, agora já estão como os portugueses

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.16

election-heads.jpg

Numa altura em que ainda estão na memória aqueles belíssimos cartazes da campanha do PS, e enquanto em Portugal se perde o tempo a discutir os méritos e deméritos de uma inqualificável borrada do BE, que para a sua dirigente Catarina Martins é considerado um problema de "incompreensão", que aliás coloca em causa a própria compreensão por parte dos votantes no BE da sua mensagem eleitoral de 4 de Outubro, na Irlanda, na sequência de uma campanha miserável de Enda Kenny e do tandem Fine Gael-Labour, onde até se chegou a ameaçar os eleitores na sua liberdade de escolha com o filme português, também os eleitores irlandeses, sem medo de papões, retiraram o tapete aos partidos do governo.

O exemplo das campanhas de Passos Coelho e Rajoy, que dera tão brilhantes resultados relativamente aos objectivos que haviam definido quanto à manutenção das suas maiorias de governo, foi replicado na Irlanda com os resultados e a teimosia a confirmarem-se. 

O partido outrora maioritário colhe agora os frutos do seu discurso e da tempestade de asneiras que promoveu. E com o Reino Unido a um passo de fazer as malas para sair da UE, deixando o que resta do projecto europeu em pantanas, fruto da mais hipócrita e oportunista campanha de que há memória por parte de um primeiro-ministro e líder conservador, não deixa de ser curioso que os únicos que neste momento estão em condições de poderem apresentar alguma estabilidade à chanceler Merkel e aos mercados sejam, para grande desgosto de Paulo Rangel, os portugueses e a rapaziada da geringonça.

Enfim, coisas da vida, como diriam António Guterres e o Prof. Marcelo.

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14 comentários

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De Septuagenário a 28.02.2016 às 09:48

O movimento Bloquista tanto diz que que Jesus tem os pais que tem, como diz quando lhe interessa, "off-record", que no parlamento a maioria é gay.
E quem cala consente?
A Europa está feita ao bife, que esta gente já chega ao poder.
Quem viver, verá!
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De João de Brito a 28.02.2016 às 12:25

Se ao que acontece na velha Europa juntarmos o que ameaça acontecer na nova América, não podemos deixar de concluir que o mundo está a mudar.
Pessoalmente, não tenho a certeza de que seja para muito melhor.
Mas tenho uma certeza inabalável, alicerçada em factos indesmentíveis, de que mudar é preciso.
Aguardemos.
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De Vento a 28.02.2016 às 13:11

Enfim, tive oportunidade de referir por aqui que António Costa só necessitaria gerir o tempo e a situação que se patenteava em Espanha e noutros países que se lhe seguiriam.

O que está a ocorrer, e o que aí virá, não nos revela qualquer erro de cálculo por parte dos ditos conservadores, mas a ausência nos conservadores de solidez de crenças e ou projectos em questões ideológicas. Aliás, o PR português é o protótipo deste exemplo e um dos mentores da situação que se viveu em Portugal. A ideologia para ele está destinada a morrer com a morte do dito pragmatismo.

Mas existe uma outra revelação que tem que ver com a vaidosa e errónea aritmética de muitos dos economicistas do burgo que sempre andaram a reboque desses outros que lá vão dominando Bruxelas e, também por esta via, salvaguardando os seus próprios mercados.

Devo confessar que este momento que atravessamos a única novidade que me ofereceu foi o facto de compreender que a democracia é passível de ser dominada pela estupidez e cupidez, sendo que a anterior se tem vergado à última. Chamo a atenção para a inversão das palavras precisamente para realçar a importância de um estúpido para um cúpido.

Mas mais grave ainda é o facto de todos esses referidos economicistas que deambulam pelo mundo não compreenderem que os valores pitagóricos são fruto da observação e não surgem por criação própria.
O endeusamento destas personagens narcísicas levou-os a pensar que eram os autores da história passada, presente e futura. Sendo personagens históricos, desvalorizaram as lições da história empurrando uma massa de potenciais (re)criadores para o abismo da indigência, esquecendo que eles mesmo nele cairiam.

Tudo quanto previamente anunciei está a acontecer; e talvez devesse assim acontecer para dolorosamente poder parafrasear Einstein: "Para me punir pelo meu desprezo pela autoridade o destino fez de mim uma autoridade". Incógnito, não vá a carne tentar-me.
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De M. S. a 28.02.2016 às 13:32

Caro Sérgio:
A realidade é lixada, uma verdadeira desmancha prazeres.
Teima sempre em levar a sua avante.
Tem uma lógica muito própria que é discrepante de quantos discursos (apenas assentes nos nossos desejos) lhe queiramos plantar em cima.
Uma sabichona, é o que ela é!
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De ariam a 28.02.2016 às 16:04

"os únicos que neste momento estão em condições de poderem apresentar alguma estabilidade à chanceler Merkel e aos mercados"

Francamente, se a situação financeira mundial não fosse tão grave, juntando um conflito que se pode tornar, facilmente, numa guerra mundial, esta sua frase só daria para rir.
Neste momento, o Reino Unido só deve estar à espera de poder sair, antes que algum rastilho se acenda e, na verdade, são tantos que, a Merkel tem na mão uma geringonça maior que a nossa ou da Irlanda. A Itália, a terceira maior economia do euro tem os bancos a desabar, a Grécia, sempre em risco de falhar pagamentos... até Schäuble anda caladinho porque com o Deutsche bank , completamente nas lonas porque, com os grandes investimentos em petróleo e no Fracking, com as empresas a falir, vai tentando segurar outra geringonça que já tem de défice 67 vezes o PIB anual alemão... realmente, isto de se andar a falar "na maravilha" das pequenas geringonças, é aflitivo.
Quanto maior for a dívida, se rebentar nova crise (agora, pior que 2008), melhor limparão o que restar nos nossos Bancos, ou será que ainda não entenderam os bail-ins? Mesmo que, não alterassem a salvaguarda até 100.000 euros e aqui, 98% dos portugueses poderiam ficar descansados, quem tem mais do que essa quantia? Empresas que têm que pagar stocks, ordenados... ora, o que aconteceria aos empregos?
Se até no Chipre limparam as contas, ainda sem bail-ins, agora, seria como roubar chupas a crianças... pode crer que os mercados estão descansados, têm onde ir buscar o dinheiro.

Quando ouço falar que a confiança do consumidor aumentou em Portugal, quando cai na Europa, especialmente, na Alemanha, onde até os Empresários andam à beira de um ataque de nervos, suponho que a maioria dos portugueses, sem acesso às notícias da net, possa acreditar que isto vá melhorar porque, na TV com os noticiários nos canais nacionais, é uma autêntica lavagem cerebral, começam com futebol, no meio mais futebol, dramas caseiros, notícias do tipo das revistas cor de rosa e, raramente, uma notícia internacional que, quem ande informado, só sai, porque tem segundas intensões...
No comentário do Septuagenário ele diz: "Quem viver, verá!" pois, eu acrescentaria que, antes do final deste ano, quem for vivo, verá muitas coisas e, infelizmente, nenhuma será boa.
Só resta saber o que irão escolher os psicopatas que governam Bruxelas (não os oficiais mas, os que andam nos "corredores") se vamos ter só uma crise financeira, 1000 vezes pior que a de 2008 ou se repetem a História e arranjam uma nova Grande Guerra para tentar disfarçar a crise financeira.
Podia deixar aqui muitas opiniões, no entanto, até no canal Bloomberg, onde os convidados têm sempre de seguir o padrão oficial, às vezes, sai-lhes "o tiro pela culatra"
YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=6UEgsj9UhvM
David Stockman's Bloomberg interview - Japan, stock markets, oil, banking crisis & more
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De Anónimo a 28.02.2016 às 16:19

Peço desculpa se ofendo os mais sensíveis. Mas é que ao ver o cartaz do BE atentatório do respeito que o grupelho deve aos que não o seguem, coloquei nele as "meninas" do Bloco e veio-me logo à memória a recente e bem caçada frase do "grande educador do povo", Arnaldo de Matos: "isto é tudo um putedo!..." Ora toma, meninas...
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De Fernando S a 28.02.2016 às 18:38

Sergio de Almeida Correia : "não deixa de ser curioso que os únicos que neste momento estão em condições de poderem apresentar alguma estabilidade à chanceler Merkel e aos mercados sejam, para grande desgosto de Paulo Rangel, os portugueses e a rapaziada da geringonça."

Qual é o grau de estabilidade de um governo de coligação liderado por um partido de centro-esquerda minoritário no Parlamento mas apoiado por dois partidos de extrema-esquerda ?...
Vamos admitir que é elevado. No fim de contas os 3 partidos entenderam-se para impedir que a coligação mais votada pudesse governar e para manter manter o PS no governo a qualquer preço.
Mas a questão que mais importa não é a da estabilidade.
Claro que a estabilidade governativa é conveniente e desejável para se levarem a cabo as politicas de que o pais precisa.
O que não significa qualquer estabilidade em abstrato.
Os regimes mais totalitários tiveram toda a estabilidade, por vezes de décadas, e o resultado foi, desde o inicio, desastroso.
Na actual situação portuguesa, a eventual estabilidade da geringonça significa que o periodo e o grau de instabilidade e regressão da economia portuguesa vão ser ainda maiores e ainda mais desastrosos.
O que, diga-se de passagem, cada vez mais inquieta os nossos parceiros e os mercados.

A Irlanda está agora como Portugal ?
Até certo ponto, sim. Do ponto de vista de uma mera estabilidade institucional imediata até está pior : das eleições não saiu nenhuma maioria absoluta, nem da coligação do governo nem do principal partido da oposição.
Mas, na realidade, está melhor, bastante melhor.
Por diferentes razões.
Não se pode excluir à partida que os 2 principais partidos, o Fine Gael, até agora no governo, e o Fianna Fáil, até agora na oposição, que juntos reunem uma larga maioria dos lugares no novo Parlamento, se possam entender. É verdade que a rivalidade entre os dois é histórica e grande. Mas também é verdade que são dois partidos de centro-direita, o Fine Gael de tradição mais democrata cristã e liberal-social, o Fianna Fail mais republicano e conservador. Não existem grandes diferenças entre os programas económicos dos dois partidos. Ambos são favoráveis à continuação do ajustamento e da consolidação orçamental. O Fianna Fail, apesar de estar na oposição, não defende o fim imediato da austeridde nem propõe reverter o que foi feito até agora. Neste aspecto, a situação da Irlanda é radicalmente diferente das de Portugal e Espanha. Não existe a possibilidade de uma geringonça à portuguesa. Mas mesmo que os dois principais partidos não se entendam para formar um governo com o novo Parlamento, a Irlanda tem ainda uma vantagem institucional em relação a Portugal : nada impede a realização imediata de novas eleições que podem vir a ter um resultado menos problemático do que o actual.
Ou seja, aconteça o que acontecer, o que é certo é que a Irlanda vai continuar com o rumo de recuperação bem sucedida que tem seguido até agora.
Quem nos dera a nós estarmos agora como os irlandeses !!...
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De Vento a 29.02.2016 às 11:42

Nós estamos como os irlandeses em quase todos os aspectos aspectos:

História de sucesso?
"O sistema partidário está fragmentado apesar da vertiginosa recuperação económica, em parte porque, como argumenta o colunista Fintan O’Toole no Guardian, as instituições públicas irlandesas estão hoje substancialmente mais fracas do que no início da crise. “Os cortes deixaram a polícia em apuros para controlar a violência dos gangues. O serviço de saúde está em crise, caoticamente sobrelotado e com listas de espera muito longas. Os cortes na Educação revelam-se nas crianças da austeridade: jovens entre os 13 e 19 anos na Irlanda estão classificados no 18º lugar na classificação de literacia dos 23 países da OCDE, e em 21º em numeracia [conhecimento matemático]. A pobreza infantil quase duplicou.”

A leitura de O’Toole é consensual à maioria dos observadores na Irlanda, que sublinham a sensação generalizada de que os proveitos da retoma estão mal distribuídos – oito em cada dez irlandeses sentem que o fosso entre os mais ricos e mais pobres se alargou, de acordo com a edição europeia da Politico.

No topo do enfraquecimento das instituições está a ideia, defendida, por exemplo, na revista Foreign Policy por Philippe Legrain, de que a retoma económica irlandesa se deve sobretudo aos mesmos factores que fomentaram o crescimento do “Tigre Celta” – mão-de-obra qualificada, empresas estrangeiras altamente especializadas atraídas pela baixa carga fiscal – do que pela receita recomendada pela troika, que, para além disso, transferiu muita da carga da falência do sistema bancário para o contribuinte comum".

Aqui:
http://www.publico.pt/mundo/noticia/irlanda-o-final-feliz-da-austeridade-preparase-para-rejeitar-governo-1724421

É muito fácil falar em história de sucesso quando se atiram as democracias e as populações para os antípodas dos mais reles sistemas de sobrevivência de expressão africana e latino-americana.
É este o modelo da troika e de quem o implementou.
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De Fernando S a 01.03.2016 às 11:50

A austeridade, na Irlanda como em Portugal, não foi uma opção ideológica, foi uma necessidade, um mal menor para evitar uma bancarrota completa.
A partir daqui, obviamente que a austeridade tem consequencias ao nivel das condições de vida de diversas categorias da população.
Mas estas consequências negativas são normalmente exageradas, senão mesmo por vezes inventadas, por parte dos criticos da austeridade.
Não é verdade que exista um qualquer "consenso" a este respeito. Quanto mais não seja, pelo menos 1/3 do eleitorado na Irlanda e quase 40% em Portugal não teem a mesma percepção.
De qualquer modo, é sabido que certos sectores politicos e ideológicos mais criticos da austeridade sempre consideraram que a miséria e a desigualdade progredia quando o governo era de "direita" ou, mesmo sendo socialista, tinha uma "politica de direita". E isto mesmo nos periodos de maior crescimento e prosperidade. Ou seja, a inoxidável tese marxista da pauperização absoluta e relativa aplicada em permanência e aconteça o que aconteça. A credibilidade das descrições catastrofistas sobre "as consequências das politicas neo-liberais", onde é incluido "o modelo austeritário da troika", é no minimo muito discutivel. Equiparar o que se passou e se passa nos paises europeus que foram resgatados pela Troika aos "mais reles sistemas de sobrevivência de expressão africana e latino-americana" é um bom exemplo destes excessos.
Seja como for, o que é certo é que, graças à ajuda da Troika e à austeridade, a Irlanda pôde recuperar rápidamente de uma situação financeira dificil, conservar o seu modelo de abertura ao exterior e fiscalidade atractiva, e ter um Pib a crescer a taxas espetaculares.
Ora, como é natural, este crescimento do produto, para além de servir para corrigir os desequilibrios que determinaram a crise financeira, acaba também por fazer aumentar o rendimento médio dos irlandeses, que já antes era superior à média europeia.
Se isto não é um "sucesso" então o que é ?... A via "alternativa" à austeridade, à maneira do Syriza, que acaba em ainda mais austeridade ?!...
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De Vento a 01.03.2016 às 16:37

Li-o com atenção. E pondo de parte a componente ideológica sobre as perspectivas de esquerda e de direita, que só importam a sectores bem identificados e a quem busca uma tábua de salvação num modelo com características que nunca se aplicarão, importa referir o que é conveniente.

Quando eu afirmava que a arquitectura das políticas implementadas também em Portugal possuíam a tipologia do faveleiro, melhor, dos fazedores de favelas, eu sabia ao que vinha.
A história prova que 90% dos casos intervencionados de forma pouco inteligente, para não dizer acéfala, originaram a concentração do crescimento económico que se verificou nas mãos daqueles que pretendiam esse modelo de recuperação em detrimento dos padrões de sobrevivência culturais que o homem foi alcançando. Isto, à semelhança do que ocorre na Grécia, em Portugal, em Itália, na Irlanda, sem esquecer a França, e outros mais, ocorreu em África e na América latina.
Repare, a título de exemplo, que Angola acaba de receber dinheiro a taxas de 17%. E garanto-lhe que quem vai pagar esse preço não são os oligarcas locais. Tudo isto ocorrerá pela subtracção dos valores orçamentais que garantam a eficácia de uma sociedade futura.
Significa isto que o esmagamento da população da crise e dos resgates malparidos nos países latino-americanos e africanos eliminou a possibilidade de renovação do sistema pela própria pobreza gerada, aumentando mais e mais o poder herdado dessas oligarquias que foram transmitido aos filhos e mais uns quantos. Adicionalmente verificou-se e verifica-se uma espécie de estado paralelo que é constituído por máfias bem organizadas que se substituem aos deveres do estado para garantir a permanência de seus "militantes". E como o poder monetário é de tal forma incontável possuem capacidade operacional para impor regras em seus territórios e até mesmo "oversea".
Isto não é um sonho, é uma realidade.

Um outro exemplo diz respeito ao desmantelamento da diversidade cultural que coabitava pacificamente em regiões do médio-oriente, que fez progredir essas sociedades a um nível que influenciou em áreas da ciência e da cultura a progresso da ciência e da cultura ocidental, e as estruturas da oligarquia interna e externa que pretenderam dominar os recursos nada redistribuídos também contribuíram para o caos que aí se vive e que afecta-nos de forma global.

Fui buscar estes exemplos precisamente para mostrar-lhe que o instinto de sobrevivência do homem irá procurar formas marginais aos estados, por falta de proverem os meios adequados ao exercício de uma sã convivência alicerçada na dignidade da Pessoa, para garantir sua subsistência e dos seus.

É este o embrião desta Europa da austeridade que seria legitima se não andasse a resgatar a falência de sectores que presumivelmente eram importantes para o funcionamento da economia, mas asfixiaram-na em seu próprio proveito.
Portanto, é mentira que exista um crescimento capaz de contrariar a destruição que tem vindo a ser operada, porquanto esse acrescimento traduz-se em acumulação e concentração e não existem condições de o rentabilizar através da diversificação do investimento em bens produtivos, com excepção para a área alimentar que (já vendo algum desenho) no futuro nos revelará uma outra faceta da ganância.

A situação financeira da Irlanda, tal como a da Grécia, de Portugal e outros mais não está resolvida, pois a dívida mantem-se e os encargos tendem a aumentar por causa da impossibilidade de transferir a especulação para determinadas commodities, como exemplo o petróleo. E será precisamente por estes dois factores, caso não se inverta a situação por via de uma expansão orçamental também, que veremos a situação ainda mais agravada a partir de Julho deste ano.

Fico por aqui, Fernando, uma vez que os argumentos técnicos já os tenho exaustivamente usado faltando-me acrescentar a parte sociológica e até mesmo da antropologia social para vincar minha percepção. O que fiz agora.

Em suma, é mesmo reles os sistema implementado por faveleiros.
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De Fernando S a 03.03.2016 às 17:22

Caro Vento,

Também li com atenção o seu comentário, que agradeço.

Se percebi bem, o Vendo não contesta a necessidade de programas de austeridade mas considera que os que teem sido aplicados, nomeadamente na Europa nos anos mais recentes, teem consequências sociais inaceitáveis e ainda por cima não resultam.
É pena que não tenha explicado como é que a austeridade deveria ser e não tenha dado nenhum exemplo "histórico".
Limita-se a apresentar os resultados das politicas de austeridade e ajustamento como sendo socialmente e económicamente catastróficos.
O que não corresponde à realidade.
No caso português, o pior aconteceu em entre meados de 2011 e meados de 2013 : a produção nacional caiu quase 10% em termos acumulados e o desemprego subiu aos 17%.
Naturalmente que houve consequências sociais negativas. A classe média perdeu rendimento e poder de compra e bem-estar. Os que mais sofreram foram os desempregados, sobretudo os sem subsidio. Mas, ao contrário do que muitos afirmaram, não se verificou nenhum desastre social generalizado. Na verdade, a austeridade até poupou em boa medida os rendimentos mais baixos e a perda de rendimento da classe média foi limitada deixando-a com niveis absolutos dos finais dos anos 90 (não consta que nesta altura as pessoas viviam na miséria e estavam desesperadas, antes pelo contrário).
Aqui é bom que se recorde que esta situação, por pior e de lamentar que tenha sido, não foi da responsabilidade de quem aplicou uma politica de austeridade e ajustamento, indispensável para evitar um mal muito maior, mas antes de quem ao longo de anos e anos seguiu politicas que levaram o pais para a quase bancarrota.
É ainda importante que se diga que a politica de austeridade e ajustamento, para além de ser inevitável, foi uma condição necessária para que a economia se reajustasse e para que fossem restabelecidos os principais equilibrios macro-económicos.
Efectivamente, a partir de meados de 2013, a economia inverteu a tendência recessiva e retomou o crescimento do produto e do emprego. Mas agora de forma sustentada, sem déficits e aumentos da divida excessivos, com uma balança comercial reequilibrada e até excedentária, com mais investimento nas empresas e um aumento controlado do consumo privado.
Diz o Vento que este crescimento, que não pode negar, não é nem qualitativamente nem quantitativamente adequado e suficiente.
Não é adequado em termos do direccionamento do investimento para actividades mais produtivas.
Não é suficiente para evitar que a divida aumente, para que esta seja sustentável, para que os respectivos encargos aumentem.
Não é o que mostra a realidade.
O ajustamento, em parte provocado pela própria austeridade, consistiu precisamente na libertação de recursos até então aplicados em actividades e sectores produtores de bens e serviços não-transaccionáveis (sector público, mercado interno, etc) e na utilização de mais recursos produtivos em actividades e sectores de bens e serviços transaccionáveis (exportações, substituição de importações, agricultura, industria, etc). Ou seja, o sistema produtivo nacional é hoje mais equilibrado do que era.
Obviamente que crescimento dos últimos 2 anos não foi ainda suficiente para recuperar o que foi perdido com a crise provocada pela quase bancarrota do pais. Descer é muito mais rápido do que subir. Mas para lá caminha (ou caminhava !...).
Também não foi ainda possivel parar por completo o crescimento da divida pública em valor absoluto. Pudera !... Enquanto tivermos déficits orçamentais negativos a divida pública só pode mesmo aumentar. O que é certo é que não pode diminuir com mais gastos públicos e mais déficits. Mas importa não perder de vista um resultado muito importante : a divida pública portuguesa está hoje controlada (relativamente ao Pib está estabilizada e começou mesmo a descer) e é sustentável. Por estar controlada e ser sustentável é que os juros da divida nos mercados estão hoje estabilizados a um nivel bastante baixo (se não fosse assim o BCE não compraria divida portuguesa). Assim sendo, também não é verdade que os encargos financeiros com a divida "tendem a aumentar" : estão estabilizados, aumentam naturalmente com o stock mas baixaram com a baixa dos juros e com a restruturação feita nos mercados.
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De Vento a 12.03.2016 às 13:07

Aqui estou a responder-lhe após mais uma de minhas ausências.

Austeridade: o problema da austeridade tem que ver com as questões sociais. Só ó sistema de favelas, implementado pela troika portuguesa (PSD/CDS e PR), juntamente com a outra, não compreende que a questão social mal pensada gera elevados custos à ecónomia dos países. Na medida em que não só não existe a renovação criativa dos sistemas económicos, com as ditas elites a asfixiarem essa renovação, como também a existência de uma economia paralela funcionando marginalmente retira a sustentabilidade de manutenção de uma sociedade baseada no célebre princípio do bem comum (Saúde, Educação, Investigação, Alimentação...).
Significa isto que quer a economia marginal quer a do favorecimento das elites possuem a mesma tipologia e andam de mãos dadas no que respeita ao seu fim último. Ambas são um cancro a debelar, mas a primeira resulta dos privilégios dados à última.
Os países ricos que conheço não são os que possuem riquezas naturais no seu solo e subsolo, mas os que são capazes de estruturar a sociedade segundo o princípio do equilíbrio. Exemplos: Áustria, Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, Luxemburgo.
Fui buscar o exemplo destes países para demonstrar-lhe que a grandeza de uma nação está nos recursos humanos e não nas elites.
Por outro lado a austeridade acéfala com o objectivo de resgatar um sistema financeiro e bancário fez com que a economia, que é feita por pessoas (diz-se agora consumidores) e não pelas empresas, retraísse e originasse tais desequilíbrios.

No caso português (reportando ao período que refere) a recuperação do emprego que também refere deu-se pela seguinte via: despedimentos para contratar por preço mais baixo. Isto é, as empresas despediam e despedem um tabalhador a ganhar 800.00 para contratar por 500,00 e em regime de estágio com o estado a suportar tais custos.
Portanto, é uma falácia a recuperação de emprego e da economia. Até porque esta recua 1,4% e só apresenta crescimento no último trimestre por ser uma análise comparativa com igual período do ano anterior.
Ver aqui:
http://www.dn.pt/economia/interior/economia-portuguesa-recuou-14-em-2013--3686278.html

Quanto aos défices, estes, como certamente saberá, só ficaram em linha depois dos valores terem sido corrigidos. Eles andaram a ajustar o alvo para que o tiro parecesse certeiro.
Mas os défices estarão aí por muito tempo, adicionando-lhes os valores dos resgates bancários. Isto foi algo que o anterior governo não quis fazer relativamente ao caso BES.
Quero demonstrar-lhe que o défice resulta também do plano de austeridade, para poder concluir: a austeridade impõe-se quando existem ciclos económicos naturalmente em quebra e não quando este ciclos são agravados por resgates bancários um pouco por todo o mundo. A título de exemplo, os regates ao sistema bancário europeu ascenderam a mais de 600 MIL MILHÕES; e ainda não estão concluídos.
O que nós assistimos é algo assim, em termos de imagem: uma família composta por pais e cinco filhos é obrigada a retirar o alimento a três filhos continuando todos os outros com privações para pagar a sobrevivência de um não sei quem. Resultado, morrem 3 e os restantes viverão em estado anémico.

Como esta situação se tornou gravosa agora é necessário injectar liquidez para que a economia cresça, uma vez que o sistema financeiro não poderá recuperar dívidas e juros se não existir produção.

No caso português, a economia em 2014 tem um crescimento marginal (0,9%), por via do recuo no consumo interno. Mas houve aumento da dívida e dos encargos com o serviço da dívida.
http://economico.sapo.pt/noticias/economia-portuguesa-cresceu-09-em-2014_212028.html
Em 2015 assistimos à desaceleração dos mercados externos e a um ligeiro aumento do consumo interno, ou seja, a economia cresce 1,5%: um aumento de 0,6% face a 2014:
http://www.dn.pt/dinheiro/interior/economia-portuguesa-cresceu-15-em-2015-5053088.html

Fernando, são estes os números. Os juros actuais têm vindo a crescer como eu anunciei. Acabando-se a especulação com o petróleo, ferro, aço e outras commodities os "mercados" vêm à carga e obrigam o BCE a intervir. Em suma, não houve reajustamento nenhum.

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De Fernando S a 03.03.2016 às 17:23

Ou seja, o crescimento económico em curso e previsto (pelo menos até à chegada da geringonça), embora ainda incipiente e modesto, é já suficiente para que a divida portuguesa seja gerivel e sustentável e para que os portugueses recuperem progressivamente o nivel de vida e bem-estar que tinham antes da bancarrota em 2011.
Mas, obviamente, tudo isto no pressuposto de que não se verifique uma inversão substancial da politica que vinha sendo seguida, algo que neste momento está muito longe de estar garantido, antes pelo contrário, pela actual governação de "frente de esquerda".
Esta é a verdadeira razão para que se possam ter sérios receios de que, como diz o Vento, "a partir de Julho deste ano", se assista a um "agravamento da situação" !!
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De Vento a 12.03.2016 às 13:44

Eu escrevi isto:
"E será precisamente por estes dois factores, CASO NÃO SE INVERTA A SITUAÇÃO POR VIA DE UMA EXPANSÃO ORÇAMENTAL também, que veremos a situação ainda mais agravada a partir de Julho deste ano".

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