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Delito de Opinião

Primárias

Sérgio de Almeida Correia, 29.09.14

1. Tirando o caso da Guarda, que não serei eu a explicar, e o facto de no dia 29 de Setembro às 00:08 ainda estar a receber "sms" do queixoso, dizendo que contava comigo, vá-se lá saber porquê, os resultados correspondem ao esperado.

 

2. Aquilo que foi divulgado até agora não permite, penso eu, fazer a separação entre o resultado da votação dos militantes e a dos simpatizantes. Isso era fundamental para se perceber até que ponto o partido estava com o secretário-geral demissionário e estabelecer a comparação com o que se pensava fora do círculo restrito dos militantes. Não sei se será possível vir a apurar esse dado; como também ignoro se o facto dos votos aparecerem misturados ainda é o resultado de uma estratégia destinada a criar e arrastar a confusão durante três meses ou uma consequência da pressa do processo. Aproximando-se este acto do seu final, seria bom desde já repensar todo o processo das primárias. O ideal era que isso fosse feito nos próximos dias, corrigindo para futuro os desfasamentos já identificados e mostrando aos portugueses que se as primárias vieram para ficar importa que sejam sempre sérias, rigorosas e não dependam de ajustamentos de conveniência. 

 

3. As primárias podem ser um primeiro passo para a emissão da certidão de óbito do sinistro "aparelho". Se a ideia era fazê-lo funcionar, o resultado agora verificado pode ter acabado com ele.

 

4. Se os resultados das recentes eleições para as federações podiam de algum modo dar um sinal da força que secretário-geral demissionário e da separação de águas dentro do partido, os dados hoje conhecidos desequilibraram decisivamente os pratos da balança a favor de António Costa, dos simpatizantes e da maioria silenciosa em que Seguro apostava. O resultado de António Costa, avaliado na sua globalidade, demonstra que praticamente todas as federações que apoiaram Seguro estavam erradas e não souberam ler os sinais que chegavam de todos os lados do país. Por conveniência ou teimosia.

 

5. António José Seguro não perdeu sozinho. Com ele perderam os analistas e comentadores que saíram em sua defesa perante a óbvia mediocridade da sua liderança, invocando o direito ao prémio de se apresentar às legislativas pelo simples facto de ter "aguentado" o partido durante quase três anos. Como se o PS ou o país, no estado em que estão e entregues a grotescos e reconhecidos carreiristas, ainda pudessem suportar o pagamento desse tipo de prémios. Uma carreira política não pode ser o resultado da contagem da antiguidade partidária, do pagamento de quotizações e do número de fretes assumidos até que chegue a hora de se sentar na cadeira do poder.

 

6. Com António José Seguro perderam também Passos Coelho e Miguel Relvas. A sua derrota é a machadada final no modo sonso de estar na política, distribuindo afectos e sorrisos, ou abrindo portas e agilizando negócios, sem um percurso académico, político, ético e profissional que não ofereça dúvidas e com os quais as pessoas normais se revejam e reconheçam o mérito.

 

7. Seria bom que o Congresso do PS fosse marcado para a data mais próxima possível, de maneira a que todo este conturbado processo das primárias atinja o seu fim e o PS estabilize, se reorganize e possa pensar nas questões que importam a todos, a tempo de poder propor uma alternativa política de mudança susceptível de ser devidamente avaliada, ponderada e discutida pelos portugueses até às próximas eleições legislativas.

 

8. O resultado de António Costa - esmagador perante aquele que foi até há 48 horas o discurso alucinado de Seguro e dos seus apoiantes - é também um golpe vigoroso contra a teoria do coitadinho e a rejeição de todos aqueles que supunham que era possível dividir o país entre a gente boa, honesta e trabalhadora vinda do interior e da periferia, pobre e desertificada, e os malandros ociosos que vivem à tripa-forra na capital. Ou entre os filhos do povo e os de boas famílias. Os portugueses, sejam simpatizantes do PS ou de qualquer outro partido, não são estúpidos, detestam que façam deles uns tontos e abominam a criação ou agudização de clivagens para justificarem os fracassos que só aos fracassados podem ser imputados.

 

9. A partir de hoje, a eleição do secretário-geral do PS será o cumprimento de uma mera formalidade que se destinará, fundamentalmente, para dar a conhecer aos militantes e aos portugueses as propostas do PS para o futuro. Quaisquer que sejam deverão fugir ao modelo eleiçoeiro do tipo "cem medidas por semana para animar a malta". Os portugueses anseiam por ter gente séria nos partidos e na politica como de pão para a boca e estão fartos de folclore. Seria bom que António Costa tivesse isto sempre presente na hora de escolher os seus futuros colaboradores. 

 

10. O elevado e sem precedente nível de participação neste processo - sinal de que as pessoas não estão tão alheadas da política quanto alguns insistem em fazer crer - deve levar o Presidente da República a reavaliar, em especial face ao non liquet dos casos que envolvem o primeiro-ministro e a sua descredibilização completa (Pinto da Costa disse-o com todas as letras a propósito do caso BES), as suas condições de governabilidade e se perante o estado calamitoso a que chegaram algumas áreas da governação se justifica a manutenção em funções do actual elenco governativo até que se cumpra o calendário eleitoral regular.

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