Presidenciais (5)

A CAMPANHA QUE NÃO EXISTE
Estas presidenciais pós-natalícias têm vindo a transformar-se num nítido nulo, totalmente dominadas pela pandemia em curso. Os protagonistas políticos cederam palco aos virologistas. Existe apenas um vago ruído de fundo nos fugazes intervalos da monotícia Covid. A democracia segue dentro de momentos.
Ligada ao ventilador, em estado comatoso, esta campanha que já nasceu moribunda esteve ontem à beira de ser eutanasiada. Com o candidato favorito das sondagens, Rebelo de Sousa, a anunciar ao País que era portador de infecção. Quase todos os outros, que tinham estado com ele em dias anteriores, entraram em estado de prevenção profiláctica, recolhendo ao domicílio. E a campanha parecia ter congelado de vez.
Esta era a notícia da noite de ontem. A notícia desta manhã contradisse a anterior: Marcelo voltou a submeter-se ao teste e desta vez acusou negativo ("acusar negativo", neste caso, é positivo, o que simboliza bem o quadro geral de trapalhada em que vivemos). O jornalismo mais cortesão pode respirar de alívio: como noutros tempos se escrevia, «Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes».
O destino parece sorrir ao hipocondríaco Marcelo, positivo-negativo. Os adversários estão anestesiados, a militância política ficou reduzida a quase nada, o quadro sintomatológico do País é alarmante - o que favorece a benevolente figura do Chefe do Estado, zelador e cuidador do reino.
Quando o inquilino de Belém se constipa, os portugueses sentem-se engripados. Marcelo já atraía eleitores de vários géneros - agora atrai também o eleitor comovido que ontem sentiu um susto ao supô-lo atingido pelo malfadado vírus. Incluindo ainda alguns dos quase 700 mil compatriotas que em 1976 votaram em Pinheiro de Azevedo, à época internado numa unidade de cuidados intensivos devido a um enfarte de miocárdio.
Ao voto por antecipação, que este ano deve ser mais elevado que nunca, junta-se o voto por comiseração. Os adversários de Marcelo têm motivos para tremer. E não é do frio.

