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Presidenciais (32)

por Pedro Correia, em 22.01.16

Em recente entrevista à SIC Notícias, o primeiro-ministro disse abertamente que não teria tomado a iniciativa de promover o chamado "acordo ortográfico" e lembrou que a ortografia continua a não ser aplicada de modo uniforme pelos países de língua oficial portuguesa, o que aliás basta para anular o suposto mérito do dito (des)acordo.

António Costa é outro resignado - como tinha sido Passos Coelho antes dele. Discorda, mas acha que não deve mexer-se naquilo porque já está. Não dá um passo para defender o que não merece defesa.

 

É, de resto, cada vez mais difícil encontrar algum entusiasta da escrita acordística, como ficou bem patente nesta campanha presidencial. Vários candidatos em liça são declaramente contra o (des)acordo. Basta ler os textos programáticos que divulgaram para perceber isso. Edgar Silva, Henrique Neto, Marisa MatiasPaulo de MoraisSampaio da Nóvoa utilizam a grafia pré-acordística sem rodeios nem complexos. Tal como sucede no site eleitoral de Maria de Belém.

Nas próprias declarações públicas proferidas antes ou durante a campanha ficou bem patente a distância que diversos protagonistas desta corrida presidencial mantêm face às normas contidas no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90).

 

acordo-ortográfico-620x270[1].jpg

 

"A minha posição é contrária ao novo acordo por considerar que a questão não foi suficientemente discutida na sociedade portuguesa, mas também nos órgãos de poder", afirma Henrique Neto.

"Sou contra. Acho que a língua não muda por decreto. É por isso que continuo a escrever sem as normas do acordo", considera Marisa Matias.

"Sou claramente contra. A língua é que se deve impor às normas e não o contrário. É uma matéria sobre a qual o Parlamento tem de se pronunciar rapidamente e se houver necessidade faz-se um referendo", observa Paulo de Morais.

"Conhecidas que são opiniões divergentes e as reticências de alguns países na sua aplicação, não pode deixar de ser ponderada a necessidade de alterações profundas no processo de elaboração e dos conteúdos do AO90 ou mesmo uma eventual desvinculação de Portugal", conclui Edgar Silva.

"[O acordo] deve ser reavaliado com muita determinação", sustenta Sampaio da Nóvoa.

"Tem de ser feita uma reavaliação do AOLP", defende Maria de Belém.

 

Mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, único candidato que revela alguma simpatia pela grafia pseudo-unificada, confessou: "Ainda escrevo como escrevi toda a vida. Não vou mudar."

Chega e sobra para avaliar o grau de popularidade do dito "acordo": quase ninguém consegue vislumbrar a menor vantagem na sua aplicação. Não fosse este um país onde por sistema se pensa uma coisa e se pratica outra, já há muito o AO90 tinha sido revisto ou revogado.

 

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10 comentários

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De M. S. a 22.01.2016 às 13:15

Caro Pedro:
Nas declarações de circunstância (eleitoral) têm dito isto, mas fá-lo-iam se fossem presidentes?
Duvido.
Abaixo o Aborto Ortográfica, JÁ.
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De Pedro Correia a 22.01.2016 às 19:06

Caro M.S.:
Não especulo.
Prefiro sublinhar que seis dos sete candidatos que se pronunciaram sobre o tema são contrários a este AO90. E o sétimo diz ser favorável àquilo mas escreve como se o não fosse.
O que não deixa de ser claramente representativo do sentimento geral dos portugueses face a este "acordo" (que só pode ser escrito entre aspas).
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De Luís Lavoura a 22.01.2016 às 14:59

Se a ortografia apenas mudasse para conforto dos atuais adultos, ainda estaríamos a escrever como no tempo de Fernão Lopes: é sabido que pessoas adultas dificilmente ou nunca alteram a sua ortografia.
E se a ortografia fosse feita de acordo com a língua, como defende a Marisa, estaríamos na maior confusão, com pessoas a escreverem "menistro", "desanho", "câijo", "catchorro" ou "Abeiro".
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De Pedro Correia a 22.01.2016 às 19:09

Tomáramos nós que houvesse hoje muita gente a escrever tão bem como Fernão Lopes escreveu.
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De Bonito, bonito! a 22.01.2016 às 15:14

…E o António Costa por entre os pingos sem se molhar, ele é que sabe.

Embrulhou os socialistas todinhos, como que limpa o dito a criancinhas.

Foi para Caboverde ver o Tarrafal e só vem para botar o voto no Martelinho, que é o que lhe interessa.
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De Pedro Correia a 23.01.2016 às 00:50

Não se molhou nos pingos de chuva. Já Maria de Belém levou com uns pingos de solda nesta semana final de campanha.
Deve ter doído.
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De Octávio dos Santos a 22.01.2016 às 15:59

As «resignações» de António Costa são, porém, selectivas - e nisso, aliás, não é o único. Não mexe no AO90 porque «já está», mas não hesita em (tentar) mexer na privatização da TAP apesar de esta também «já estar». Digamos que há coisas mais reversíveis do que outras... Os acordistas mencionam amiúde os (alegados) custos elevados de o «acordês» ser abandonado (patético «argumento»...) No entanto, a eventual «re-nacionalização» da companhia aérea poderá ser tão ou mais cara do que mandar para a reciclagem livros e documentos cheios de erros.
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De Costa a 22.01.2016 às 19:15

Esses elevados custos de abandonar o acordês , coisa muito convenientemente ignorada quando da sua imposição, mas que bem se sabe quanto negócio gerou, bem poderão ser a eventual razão para esse mesmo abandono. Não argumentos de ordem cultural ou científica. Um povo estúpido, governado por hipócritas venais, despreza reiterada e orgulhosamente a cultura, a ciência e, no que a valores nacionais concerne, fica-se pelo futebol.

Imagine-se, ficando-nos pelo mais óbvio, o que representaria para certas editoras deste país a produção em massa de novos manuais escolares, do básico ao universitário, por conta do abandono desta deletéria, irresponsável e criminosa experiência. Imaginemos isso e não nos espantemos se a seu tempo certas disponibilidades para o expedito tratamento do assunto, havendo "vontade política", se manifestarem.

Mas abandono do AO90 , temo, só se for por essa via. E por uma vez, a ter que ser explorado, abusado, a ter que dar dinheiro a ganhar a outros em negociatas gravitando em torno de decisões governamentais, que seja por tal decisão!

Costa
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De tgy a 26.01.2016 às 23:14

O Costa obedece. E se não obedece ele directamente, obedece quem o rodeia. Por isso se chamam "obediências" e não é em vão.
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De gty a 26.01.2016 às 23:07

O acordês não está a ser imposto por inércia ou por esquecimento. O acordês está a ser imposto activamente, porque corresponde ao ideário político da organização que o impôs em 1911 (e à qual já tinha pertencido o Verney), organização que, hoje, tem poder efectivo em todos os partidos portugueses, exceptuado o PCP.
Dúvidas? "«O entendimento entre todos os falantes da língua portuguesa e a sua divulgação constituem o instrumento indispensável na resolução de problemas de coesão social, desenvolvimento, democracia e segurança. Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (...) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP.» (cit. aqui http://emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.pt/2008/06/sr-ministro-da-cultura-por-favor_17.html
Estado mundial?
Por seu lado, Malaca foi bem claro num entrevista ao Espresso, declarando que a questão da ortografia não era linguística mas política.
Enquanto não se perceberem os meandros do acordo e quem o impõe - e sabota qualquer discussão verdadeira - não vamos lá.

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