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Delito de Opinião

Presidenciais (3)

Pedro Correia, 10.01.21

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DEBATE GOMES-VENTURA

Há quem se admire por esta campanha presidencial suscitar tanto desinteresse. Mas que emoção subsiste numa competição onde só o segundo lugar permanece em aberto? É como ver um filme com desfecho já conhecido.

Ana Gomes e André Ventura, valha a verdade, nem tentam disfarçar esta condição de actores secundários. O que ficou bem evidente no debate moderado por Pedro Mourinho que os colocou frente-a-frente, na noite de anteontem, na TVI 24. Ela exibindo esgares que lhe traíam o nervosismo, ele a debitar lugares-comuns em tropel contínuo. 

 

A candidata apoiada pelo PAN e pelo Livre tem muito mais experiência de campanhas do que o seu antagonista, mas é incapaz de ombrear com ele no domínio dos códigos televisivos. Com longo tirocínio no canal do Benfica e na CMTV, Ventura traz para a política o traquejo das discussões futeboleiras temperadas com o "livro de estilo" do canal da Cofina: falar em ritmo acelerado, levantando a voz para impedir o discurso alheio. Nesta peculiar linha de comunicação, a pausa e o silêncio são vistos como inimigos.

Em comparação, a escola do MRPP - onde Gomes recebeu o baptismo da militância partidária - pertence à era da pedra lascada. A antiga embaixadora de Portugal na Indonésia continua a cometer erros lapidares. Grita pela ilegalização de um partido avalizado pelo Tribunal Constitucional, acabando assim por fazer-lhe publicidade. Diz que não responde às provocações de Ventura, mas passa o tempo a descascar os amendoins que o caudilho do Chega lhe atira.

Pior ainda: proclama que o seu rival é Marcelo Rebelo de Sousa, esquecendo-se por completo de criticá-lo, como aconteceu neste debate. O único reparo ao campeão das sondagens veio de Ventura, mesmo a fechar: «Ficou muito mal a Marcelo Rebelo de Sousa colocar-se no debate comigo como Presidente e não como candidato e revelar conversas privadas no Palácio de Belém.»

Não custa dar-lhe razão nisto.

 

«Este senhor tem truques para tentar arrastar para a lama quem aqui vem debater com ele, para ficar parecido com ele. Não será o meu caso», jurou a candidata. Sem cumprir. Daí a nada já trocava galhardetes com o antagonista ao nível da subcave. Ele lançava anátemas contra Paulo Pedroso, director de campanha da ex-eurodeputada socialista. Ela trazia para a discussão «o amigo deste senhor, Luís Filipe Vieira», que «pregou calotes ao Estado português».

Inesperadamente, quem também ficou de orelhas a arder foi José Sócrates - como se fosse adversário de ambos no combate presidencial. Declarou o pleonástico Ventura: «Esta senhora andava aos beijinhos com ele há uns anos atrás!» Ripostava Gomes, visando o deputado com ar de nojo: «Um sujeito que, como funcionário da Autoridade Tributária, ajudou o patrão de Sócrates, Paulo Lalanda de Castro, a não pagar um milhão de impostos!»

 

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Parecia 2011, não 2021. Incapaz de subir ao nível de Marcelo, Ana Gomes optou por descer ao nível de André Ventura. 

O maior triunfador deste confronto de segundas linhas foi assim o grande ausente: Rebelo de Sousa. Aconchegado por todas as pesquisas de opinião e pela clamorosa inépcia dos adversários, o presidente recandidato só tem a recear uma abstenção elevadíssima.

Mas houve um segundo vencedor, que também não estava lá: António Costa. Cada vez mais gente percebe hoje por que motivo o primeiro-ministro recusou ungir a sua camarada Ana Gomes como candidata do PS, declarando apoio a Marcelo.

«O poder não é nada sem autoridade», diz a Rainha Isabel II interpretada pela actriz Olivia Colman na quarta temporada da magnífica série The Crown. Vejam-na, se puderem. Ensina mais sobre política do que todos os debates presidenciais.

 

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Frases do debate:

 

Gomes  - «Eu tenho aqui uma marca na cara que foi duma vergastada dum pide... uma cicatriz.»

Ventura  - «O nosso desafio é derrubar esta esquerda que tem dominado nos últimos 46 anos.»

Gomes - «Trabalhei durante 45 anos pela democracia e pela liberdade no nosso país.»

Ventura - «O meu partido está em terceiro nas sondagens, por muito que lhe custe.»

Gomes - «O partido deste senhor quer destruir a democracia! A democracia não pode ser tolerante com os intolerantes.»

Ventura - «Tem pouca gente a apoiá-la. Também, com as coisas que diz, não é de espantar.»

Gomes - «Este senhor nem no próprio partido dele manda, tanto que teve de impor a  lei da rolha aos seus próprios militantes, tal é o medo que tem do que eles possam dizer sobre a sua direcção.»

Ventura - «Você nem o apoio do seu partido teve, valha-me Deus! E vem aqui dizer que eu não tenho apoio. Os portugueses devem estar a rir em casa...»

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