Presidenciais
Na aldeia há apenas dois restaurantes, um de cada lado da rua principal. São ambos muito frequentados, sendo o mais antigo maior e com mais farta clientela.
O prato mais conhecido num são as tripas à moda do Porto, bastante apimentadas; e no outro a língua estufada com ervilhas e puré.
Os clientes tendem a ter perfis diferentes: No mais pequeno sobretudo motoristas de camião, vendedores de feira e negociantes de gado, no maior funcionários, quadros de empresas, profissionais liberais e pessoas gradas da terra.
Dentro de cada um quase todos se conhecem, salvo o turista de passagem. E lá onde está a gente mais composta não se ignoram os podres de muitos velhos clientes. Há também alguns intelectuais, normalmente de farta cabeleira e com duas fundas rugas de preocupação cavadas nas fontes inspiradas. Suscitam respeito e algum temor de, em vez de comerem, se dedicarem a prédicas sobre revolução social que os restantes ouvem calados e entediados.
Os donos são também diferentes: Um, o mais recente e jovem, espalha-brasas iracundo que gesticula muito, fala alto e atira dichotes para o outro lado da rua; e o outro um profissional sereno, à antiga, filósofo desencantado à sua maneira.
Gosto de tripas e não rejeito o picante; e, ainda que apreciando língua, naquele sítio põem-lhe demasiada cenoura e puré foi coisa que apreciei muito mas era quando tinha seis meses.
Onde vou então, habitualmente? Ao das tripas não, que há o risco de intoxicação e o barulho é insuportável. E no da língua bem gostava de não pôr os pés.
Mas a gente tem de comer em algum sítio, se não quiser ficar em casa a dialogar com as paredes.

