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Preconceitos e Judite de Sousa

por jpt, em 07.01.19

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Nos dias actuais vigora a ideia de que não se pode ter preconceitos - algo que parece ser sinónimo do iluminismo, qualquer coisa como o cume da evolução da inteligência humana, da razão. E, assim sendo, urge que deles nos depuremos. E isso deve ser exercido também nas formas de tratamento, como nos dirigimos aos outros, como os nomeamos. Mesmo em relação aos que nos são mais próximos. Pois essas formas estão impregnadas de desvalorizações, relações de poder implícitas ou explícitas, categorizações que nos hierarquizam e a tantos amesquinham, mesmo  violentam. E nisso, por vezes, somos surpreendidos com as oposições que, cândidos, geramos. Muito me lembro do meu espanto quando, há cerca de 15 anos, uma colega antropóloga, feminista radical, me invectivou violentamente por eu ter referido, com evidente desvelo amoroso, "a minha mulher". "É tua propriedade? és dono dela?", clamou, La Pasionaria do género ... Eu ainda tentei contribuir, anunciar a minha certeza (empírica até) de que me seria dedicado aquilo do "o meu marido" (ou até o mais coloquial "o meu homem"). Mas de nada serviu essa tentativa de defesa, e a inexistência da minha auto-crítica pública por esse "desvio de direita (machista)" esfriou o nosso relacionamento.

Parece bonita, sob boas causas, esta depuração da linguagem, o extirpar dos preconceitos que habitam, insidiosos, na placidez das formas de tratamento, reprodutores da ignomínia passada e presente . Mas, em absoluto, não é. Sê-lo-á se com "conta, peso e medida", aquilo do bom senso. Eu faço o culto dos preconceitos e vejo, com agrado ou sarcasmo, consoante quem observo, como os outros o fazem. Quantas vezes inconscientemente. Melhor dizendo, quase sempre inconscientemente.

Exemplifico: detesto o tratamento "tio" se fora da família. Quando os filhos dos meus amigos medraram até à idade púbere lá chegava eu de férias a Lisboa para aturar a pantomina burguesota do "olá tio". Bufava de raiva: fui tio aos 4 anos, tio-avô aos 30, tenho sobrinhos que cheguem, e até sobram (literalmente falando, pois espalhados pelo mundo), não preciso de acrescentos. Cresci, entre esses tais velhos amigos, ensinado a tratar-lhes os pais pelo primeiro nome (na terceira pessoa mas pelo nome). E agora eles educam os filhos na tiozice? Foi difícil ajudar a minha filha a calibrar o entendimento face a esses meus velhos amigos: "tio" é tabu; há aqueles a quem se dá o "tu" e aqueles a quem se dá a terceira pessoa, distinção que é feita caso a caso, de modo fluído, inconceptualizável. Pois esta tiozice, disseminada nos anos 80s na pequena-burguesia (na altura não se dizia classe média), terá razões. Mas não temos que as seguir. Ou seja, podemos seguir outras formas de tratamento. Entenda-se, outros preconceitos ...

Por essa década apareceram outros "marcadores de classe", estratégias ascensionais. Em muito jovem uma muito apetecível beldade da vizinhança informou-me que os homens não podem usar meias brancas (nem dizer peúgas, mas essa era ideia mais antiga). Grassou a piroseira de que só se cumprimenta com um beijo ("dá cá o segundo, que eu sou dos Olivais", disse centenas de vezes) e outras patetices parecidas. E, nestas coisas da fala, algum tempo depois brotou talvez a pior de todas, que me convoca iras sanguinárias, vertigens fuziladoras: a elisão do possessivo relativo aos pais. Da mercearia ao consultório médico perguntavam-me "a mãe precisará de ...?" e eu sempre a resmungar "a mãe de quem?, que por aqui há filhos de muitas mães" (como, e muito bem, aprendi na tropa), ou por todo o lado "então como tem passado o pai?" e eu a embrulhar o peludo palavrão num azedo "o meu pai? (será dele que está a falar?)". Enfim, sempre falei do "meu pai" e falo da "minha mãe" e de certeza que não é palrar sobre "o pai" e "a mãe" que lhes azuleará o sangue ou doirará antepassados e descendência. E, mais, muito gosto de os referir como o "meu pai António" e "minha mãe Marília". Mas esse é o meu gosto. Dirão os que se julgam mais puristas que só se tem um pai e uma mãe, tornando redundante o possessivo. Pobre ignorância, reduzindo parentesco a consanguinidade, incapaz de olhar a sociologia: até pela disseminação do divórcio, e pela sua legitimação moral que é motriz de afectividades, generalizou-se a pluralidade paternal e maternal.

O que acho piada é que todos estes modos são também gozadas por muitos. As "bocas" aos "tios", aos arrivismos, à construção de sotaques - ainda que todos nós construamos sotaques e os moldemos aos interlocutores, procurando fundi-los para episódicas osmoses ou preservando-os para demarcação das distinções. Ora estas reacções negativas, tantas vezes achincalhadoras, são meros preconceitos. Conservadores, e do piorio. Pois estas tais estratégias ascensionais, mesmo que sob formas um bocadinho patetas, até kitsch, mostram a legitimidade da mobilidade social. E essa é boa, é a democracia, a república de cidadãos. Mas, paradoxalmente, convocam a verrina de muito boa gente - que depois também segue outros ademanes identitários -, principalmente, mas não só, num mundo "esquerdinha". Que gozam estas práticas sem perceberem que apenas seguem outros preconceitos. Acima de tudo o que subscreve a sociedade de "antigo regime", isso do "nasceste sapateiro nunca tocarás rabecão" - a não ser que tenhas um extremo talento, aquilo do "génio", que te permita ascender, romper, mas só tu, a natural ordenação de classes. E como tal "nada de falares ou de te comportares acima da tua condição". O que restou da "esquerda que ri" é só isto, preconceituosa, reaccionária. Policiesca.

Vem tudo isto a propósito da sanha generalizada contra Judite de Sousa. A senhora publicou um livro. Fez uma sessão de apresentação. Publicou fotos dessa sessão. Numa delas colocou uma legenda, tipo "em família, eu, mãe, irmã, a senhora cá de casa". Esta última é a empregada doméstica. É negra. Cai o Carmo e a Trindade. Acusações de desrespeito. De racismo. Chego a isto porque o jogador de futebol William Carvalho intervém na querela invectivando a jornalista por não dar nome à senhora em causa. Judite de Sousa não nomeou a mãe e a irmã. Isso está bem - repare-se, por mero preconceito nosso, habituados a que não se digam os nomes dos familiares. E utiliza uma velha expressão, que não tem origem nem conteúdo racial, para descrever empregados domésticos com os quais se têm grande intimidade. O trabalho doméstico é muito complicado, e integra situações muito injustas. Mas essa é uma situação geral, de sociologia (e de direito) do trabalho. Não se pode dizer que seja este caso, que a jornalista tenha um comportamento ilegal (ou imoral) para com a sua funcionária. O trabalho doméstico também muitas vezes cai em relações complexas, de patrocinato (de "paternalismo", como se costuma dizer), que podem violar os direitos dos trabalhadores. Mas também nada disso se pode adiantar neste caso. 

Judite de Sousa apenas usa uma velha expressão, não discriminatória (de facto, já que as pessoas vasculham a língua para imputar sentidos implícitos, saberão o que quer dizer "senhora"?), para integrar a sua "empregada doméstica" no âmbito familiar, as 4 mulheres. As 4 senhoras. Visto de longe é um pequeno acto de ternura, ou companheirismo, que cruza relações contratuais. Mas a outra senhora é negra. E como tal tudo isso se torna condenável, insuportável. Porque é preciso denunciar, seja lá o que for. Principalmente se houver "raça" à mistura.

A reacção generalizada a este pequeno gesto torna o "fait-divers" num óbvio sintoma do estado da arte aí. O policiamento do linguajar, o afã purificador, de facto racista, virou pandémico. Pois grassam os imbecis. Imbecis racistas. E, como é típico da imbecilidade, vão convictos de que não o são. Aturem-nos. Aos negros e aos brancos. E aos das outras cores também (os patetas aos tipos de "outras cores" chamam "étnicos"). E se não tiverem paciência para os aturar? Combatam-nos.

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4 comentários

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De Luís Lavoura a 07.01.2019 às 10:26

Este post confunde, parece-me, preconceitos com convenções sociais.
As formas de tratamento das pessoas ("tio", "senhora da casa", "o senhor", "você", "tua mulher") são convenções sociais. Os preconceitos ("os judeus são bons comerciantes", "uma mulher na menstruação não pode tomar banho") são coisas diferentes.
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De jpt a 07.01.2019 às 11:26

Não Luís Lavoura. Este meu iluminado postal (e convém aproveitar, pois temo não durar para sempre, e assim ter que um dia interromper esta minha preciosa pedagogia) esclarece é que "preconceito" não é algo negativo ou negatizável, como deixa presumir a bruma intelectual de que padece a maioria locutora activista. Mais lhe direi, já que o refere, que isso de, por exemplo, confundirmos sob o nome de "tio" o irmão da mãe com o irmão do pai com o marido da irmã da mãe e o marido da irmã do pai é uma convenção que assente num preconceito, o da indistinção dessas categorias, tão distinguidas entre tantas outras sociedades. Ou seja, as "meras" "convenções" - a quem V. dá tons de neutralidade - nem são neutrais nem desprovidas de significações profundas, legados a serem conceptualizados (deixarem de ser preconceitos).
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De Luís Lavoura a 07.01.2019 às 11:48

(Estou no seu terreno, porque Você é um antropólogo e eu não, mas devo dizer que a antropologia é algo que me fascina.)

as "meras" "convenções" - a quem V. dá tons de neutralidade - nem são neutrais nem desprovidas de significações profundas

Okei, mas, se isso é assim, então, quando Você diz "a minha mulher", está de facto a afirmar um "significado profundo" de que essa mulher lhe pertence. Não está somente a utilizar uma designação convencional, mas de facto a confirmar e aceitar um preconceito, de que a mulher pertence ao homem. Ou não?

Pergunta-se então, que designação alternativa proporá a sua colega para a sua mulher? "Minha esposa" também contém um possessivo - ela é esposa, mas não lhe pertence! Será que ela sugere "a mulher que está casada comigo"? Seria interessante perguntar-lhe!

(Usando um preconceito masculino, eu diria que à sua colega faz falta algo que eu cá sei, mas não posso aqui dizer.)
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De jpt a 07.01.2019 às 12:25

Peço desculpa, o meu comentário ficou incompleto (o sistema do Sapo não permite emendar comentários, é uma pena). Eu quis terminá-lo assim "Ou seja, as "meras" "convenções" - a quem V. dá tons de neutralidade - nem são neutrais nem desprovidas de significações profundas, mas legados a serem conceptualizados (deixarem de ser preconceitos)." e faltou o "mas". Apenas quero dizer isto - se quisermos esgravatar na linguagem ("escavar" é um termo retórico muito em voga) teremos pano para mangas que sobrará. E, para além da mera curiosidade - e, noutro registo, para incremento da cultura (e a falta do latim fere-nos imenso) - há com toda a certeza termos e expressões até aviltantes ou desnecessárias. Mas há limites nisso: eu posso concordar que poderemos deixar cair uma expressão como "pintar a cara de preto", como significando (auto)depreciação mas dá-me vontade de disparar sobre alguém quando vejo - até universitários - a clamarem contra o racismo de "negrume".

Mas a grande questão é se é nesta purificação, no decantar da linguagem, que reside o busílis ou é show-off. E é-o.

Quanto ao que me diz sobre a minha colega (que não vejo há mais de uma década). Nada disso, bonita, jovem, casadíssima com um tipo porreiro. Apenas radical, ainda aos tombos intelectuais. O que ela quereria? Não sei, julgo que apenas protestar. Quanto ao possessivo nos termos maritais não lhes sei a origem - talvez o uso, talvez a consagração da monogamia indissolúvel cristã. Nada posso para além da especulação. A mim interessa-me muito mais as transformações dos usos dos termos. V. faz-me o favor de ir buscar um exemplo magnífico que ilustra este arrivismo sociológico (atenção, não estou a dizer que V. o usa nesse sentido, bem pelo contrário): em Portugal tornou-se mal-visto, socialmente desvalorizador, "classe baixa" como dizem os cagões, dizer "(meu, minha) esposo, esposa". Isso é fantástico: eu nunca tive esposa, nem nunca fui esposo. Casei no registo, não passei pelos esponsais, não creio / não sigo no amor de Cristo Esposo. Mas o interessante é ver que - pelo menos na minha geração e no meu meio urbano (o tal melting pot classe média) - reduziram os casamentos católicos. E ficaram mais pujantes como sinal de distinção social, ligados a algum conservadorismo ideológico e a afirmação de classe média upa, upa. Mas depois esses mesmo que cruzavam os esponsais (ou deveriam cruzá-los), quantas vezes por projecto (próprio ou familiar) sociológico, achavam "brega" (como se vulgarizou o termo brasileiro) dizer o devido "esposo/esposa". A mim dá-me um bocado vontade de rir, nisso de desvalorizar a cagança alheia, neste caso tão evidente - "mais depressa se apanha um cagão do que um paraplégico", é uma boa glosa ... Outros dirão que sou eu o cagão ("olha para ele ali a blogar com a mania que tem algo a dizer"). Se calhar, pois cada um como cada qual

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