Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Pouca terra

por João Campos, em 20.08.18

Já não será talvez notícia o descalabro do serviço ferroviário da CP. São os atrasos diários e as supressões frequentes de comboios, com nenhum aviso e poucas alternativas. São as saunas forçadas nos dias mais quentes, em composições cujos sistemas de ar condicionado não funcionam quando as temperaturas exteriores ultrapassam os 40º (algo que, convenhamos, não é exactamente incomum em boa parte do país durante os meses de Verão). É a falta de limpeza de estações e carruagens - ainda há umas semanas, na viagem que fiz no Intercidades que liga Lisboa a Faro, deparei-me com uma casa-de-banho acabada de abrir coberta, literalmente, de mijo e merda. É a falta de manutenção dos comboios e a utilização de automotoras dos serviços Regionais em percursos feitos pelos Intercidades, sem que a redução de qualidade seja acompanhada pela redução do preço do bilhete*. E, claro, é a indiferença generalizada de quem está no poleiro para com a degradação evidente e inegável dos comboios de Portugal. Como disse, talvez nada disto seja notícia - mas nem por isso deve deixar de ser noticiado. Merece por isso destaque o Público pelas excelentes reportagens que tem vindo a publicar sobre o assunto, como se pode conferir na etiqueta comboiosDurante esta semana serão publicadas cinco reportagens sobre o serviço em algumas linhas de comboio, no dossier  "A ver passar comboios" - arrancou hoje com a ligação cada vez mais precária no que resta da Linha do Alentejo*, num texto que deve ser acompanhado por esta excelente reportagem fotográfica. Aguardo pelas restantes com expectativa.

 

* No início do Verão, e quando o serviço da CP já estava a descarrilar, houve quem fosse para a comunicação social reclamar pelo fim da concessão à Fertagus - que presta um bom serviço, ainda que caro, aos habitantes da margem Sul do Tejo - e pela entrega desse percurso... à CP. Ele há coisas do arco da velha. 

** Sobre a linha do Alentejo, convém não esquecer que a ligação directa por Intercidades entre Beja e Lisboa acabou no início de 2011, e a linha entre Beja e a Funcheira - e o Algarve, portanto - foi suprimida no final de 2011. Curiosamente, em 2011 foi inaugurado o Aeroporto... de Beja. Isto talvez já nem seja do arco da velha. 


8 comentários

Sem imagem de perfil

De Bea a 20.08.2018 às 22:48

A história dos comboios portugueses vive neste momento um descalabro e, por muito que se imagine, ninguém calcula o transtorno diário de quem não tem outro meio de transporte. Entre tudo que o governo apregoa e todos sabemos que é menos do que diz porque conta a meia verdade que lhe convém, esquece muita coisa que está como a CP, em fim de linha. Se é verdade que este governo não pode fazer tudo, repor tudo que está em falta, também é verdade que há prioridades e urgências. Mas parece que é tudo muito lento e só daqui a três anos, se renovam os comboios e que entretanto alugamos alguns a Espanha...o que significa melhorar mas pouco. Quem mal está, mal vai continuar. É de uso.
Imagem de perfil

De João Campos a 20.08.2018 às 23:25

Se é certo que a culpa do descalabro não é apenas deste Governo - o estrago vem sendo feito há algumas décadas -, já a desfaçatez e o assobiar para o ar são da inteira responsabilidade. Mas desfaçatez e assobiar para o ar são praticamente o ar que António Costa respira. A táctica é a de sempre: não se passa nada, a culpa é de quem esteve antes, e com jeitinho dá para empurrar a coisa até o problema ser de outro governo.

Entretanto, cá vamos andando em comboios atrasados, esperando por comboios suprimidos, e agradecendo à sorte quando as casas de banho das ligações de longo curso não estão demasiado sujas.
Sem imagem de perfil

De Bea a 21.08.2018 às 08:06

É, tristemente - e sempre - essa a regra do que de mau acontece neste país. Mas tal ramerrame não me deixa mais conformada. E ainda espero que o hábito mude, se não de todo, pelo menos em parte mais larga. Entretanto, o cansaço vence-nos por ezes, mas penso que seja natural à amargura solitária de um povo que não é perfeito mas mantém a esperança em governantes autênticos e que, quem sabe, um dia, pensem nele de verdade.
Imagem de perfil

De João Campos a 21.08.2018 às 20:06

O problema é que esses governantes a existir rasparam-se para parte incerta. Se calhar ainda estão no apeadeiro à espera de um comboio atrasado.
Perfil Facebook

De Rão Arques a 21.08.2018 às 09:11

E nós a vê-los passar.
Imagem de perfil

De João Campos a 21.08.2018 às 20:04

... quando vemos. Quando não são suprimidos.
Imagem de perfil

De Sarin a 24.08.2018 às 18:19

Gosto de ver o país em alerta com a degradação da CP, das ligações, da ferrovia.


Mas confesso que me assalta um triste meio-sorriso de cinismo ao ver como todos estão indignados agora que perdem comboios...
A linha do Oeste sempre foi a parente pobre das linhas e serviços ferroviários, nascendo no Oeste e morrendo no Oeste, zona industrializada com praias e turismo, povoada e populosa, mas com ligações ferroviárias a outras linhas apenas "eventuais", e via Coimbra. Quando, há trinta anos, nos começámos a manifestar por melhores condições, os utentes das outras linhas assobiaram para o lado. Afinal, tínhamos o IC2, e mais tarde a A8 e a A17... estávamos servidos, argumentavam comissões de utentes de outras linhas, que pediam prioridade para mais comboios na sua zona. Como se os transportes públicos não devessem ser uma prioridade para todo o território, uma forma de combater o isolamento e a desertificação...

A linha do Oeste não morreu por falta de utentes. A linha do Oeste matou os seus utentes ao longo de 30 anos, com o beneplácito dos utentes de outras linhas que queriam comboios de meia em meia hora. As alternativas, por cá, continuam a passar por ter carro próprio.

E assim vamos caminhando, olhando o nosso umbigo. Até ao dia em que percebamos que o umbigo é de cada um mas a placenta é de todos.
Imagem de perfil

De João Campos a 24.08.2018 às 23:29

Não conheço a linha do Oeste, tirando uma ou outra viagem curta entre Entrecampos e Sete Rios em automotoras que sobre as portas ainda têm o mapa ferroviário do Algarve. Mas conheço as linhas do Baixo Alentejo, ou o que resta delas, e vi a CP terminar o antigo Inter-regional que ligava o Barreiro a Vila Real de Santo António (no qual viajei a cada duas semanas durante os meus primeiros anos de universidade em Lisboa) para o substituir por um regional entre o Pinhal Novo e Faro, eventualmente descontinuado após a procura escassear perante alterações de horário incompreensíveis. Para nem falar na ligação Funcheira - Beja, extinta em no final de 2011, ou a ligação directa entre Beja e Lisboa, substituída por automotoras precárias no início do mesmo ano.

É um facto que a destruição da ferrovia portuguesa não começou em 2015. Nem sequer em 2011. Talvez seja tarde para nos indignarmos, mas se a indiferença a roçar o autismo dos labregos que nos governam *agora* não serve para mais nada, então que sirva para a indignação, por inconsequente que seja. Pode ser (é) pouco, mas sempre é melhor que nada.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D