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Delito de Opinião

Pós-eleitoral (8)

Pedro Correia, 31.05.14

Na semana em que o centro-direita sofre a maior derrota eleitoral de sempre, o PS celebra tal facto entrando em processo acelerado de desagregação interna.  Apesar de ter alcançado a segunda vitória nas urnas em oito meses.

Nas eleições locais, em 30 de Setembro, conquistou 150 câmaras municipais - a maior vitória autárquica de que há registo.

Nas europeias de domingo, mesmo em contraciclo com a dura penalização de que foram alvo os dois blocos políticos tradicionais à escala europeia, sobe cinco pontos percentuais em relação ao anterior escrutínio, realizado em 2009. Obtendo o terceiro melhor resultado para a família do socialismo democrático em países da zona euro.

O PS foi mesmo a única força política do centro-esquerda a registar progresso eleitoral nos países sujeitos a resgate financeiro. Contrariando o colapso dos trabalhistas irlandeses (5,3%), o quase desaparecimento do PASOK na Grécia (8% em coligação) e a derrota histórica do PSOE em Espanha (23%).

 

 

Logo, porém, se levantou um exaltado coro de notáveis. Porque entenderam que a vitória era "curta". Entre esses notáveis, estão João Cravinho, que encabeçou a lista do PS derrotada (com apenas 28,5%) nas europeias de 1989. E Vital Moreira, o cabeça-de-lista derrotado de 2009, agora amargurado com a "frustrante vitória eleitoral" socialista. E José Sócrates, que liderava o PS humilhado há cinco anos nas europeias contra o PSD de Manuela Ferreira Leite (sem coligação com o CDS). Sem então ter sentido necessidade de "clarificação" da situação interna através de um congresso extraordinário, como hoje sustenta.

O mais notável de todos é Mário Soares. Que recusou fazer campanha pelo PS, apareceu num cartaz de propaganda do Syriza (o Bloco de Esquerda grego) e surge agora a incentivar o BE, que "não deve desanimar". Depois de no Verão passado - a dois meses das autárquicas - ter ameaçado o líder socialista de enfrentar um processo de "cisão" no partido. Algo inimaginável no tempo em que ele próprio era secretário-geral e conduziu o partido a três derrotas consecutivas, nas legislativas de 1979, nas autárquicas de 1979 e nas legislativas de 1980.

Temos portanto o maior partido da oposição novamente virado para si próprio, e não para o País. Mergulhado num conflito fratricida que seguramente deixará profundas marcas internas.

Depois de duas vitórias, repito. Não de duas derrotas.

 

Entretanto, o que se passa no país real? O Tribunal Constitucional chumbou três medidas fundamentais do Orçamento do Estado já em vigor - o sétimo chumbo em pouco mais de dois anos.

Algo que, noutro contexto, faria tremer o Governo. Mas com a guerra pelo poder no PS em primeiro plano da actualidade noticiosa, o Executivo continua a passar pelos pingos da chuva.

Disse António José Seguro que a moção de censura do PCP foi um "frete ao Governo". O que não dirá ele do processo de convulsão interna em que mergulharam os socialistas?

Espero que ao menos Passos Coelho tenha a delicadeza de lhes enviar um cartãozinho a agradecer...

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