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Pós-eleitoral (5)

por Pedro Correia, em 28.05.14

1. Domingo, falaram as urnas: Passos derrotado. Segunda, falaram os "analistas": houve empate. Terça, falaram as pulsões autofágicas no PS: Passos venceu. Razão tinha o outro: o mundo muda muito em 48 horas.

 

2. 32% será resultado "frouxo". Mas o que diremos dos escassos 14% obtidos pelo Partido Socialista francês, de François Hollande, outrora proclamado por Soares e tutti quanti como um dos faróis da esquerda europeia?

 

3. A um ano das legislativas, e após ter andado a carregar o piano desde 2011, ninguém imagina Seguro a ceder um milímetro a solistas de violino. Mesmo que venham ungidos do Vau e aspergidos de Nafarros. Óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues.

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34 comentários

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De Pedro Correia a 28.05.2014 às 09:53

O piano é, desde logo, o modelo em profunda crise da social-democracia europeia, meu caro. Não esqueçamos a dimensão europeia deste voto. O PS de Hollande fica quase com metade da percentagem da FN. Milleband, o 'wonder boy' do trabalhismo pós-Blair, queda-se pelos 26%. O outrora poderoso PSOE afunda-se para o pior resultado de sempre, 26%, não capitalizando nada em dois anos de feroz oposição ao Governo conservador. Até o SPD alemão não ultrapassa uns exíguos 27%.
É certo que Ferro Rodrigues obteve 44% há dez anos. Mas os tempos eram outros, à esquerda e à direita. Alguém imagina um Marinho Pinto emergir então com a força que agora obteve? Alguém supunha que um grupo inorgânico como o Podemos, fenómeno emanado das redes sociais, surgisse como quarta força mais votada em Espanha e terceira em Madrid, como agora aconteceu? E em qualquer outro contexto Beppe Grillo chegaria a obter um quarto dos votos em Itália?
Somos muito sebastianistas: pensamos sempre que um homem faz a diferença. Mas neste caso não faz, Sérgio. O problema é mais grave e mais fundo: as duas principais famílias políticas europeias estão gravemente feridas, Estão talvez feridas de morte.
Já antes tinha sucedido, na década de 90, com os comunistas na sequência da desagregação do bloco Leste e com o essencial dos democratas-cristãos, após os escândalos de corrupção que afundaram o sistema político em Itália.
Estes tempos são maus. Mas talvez ainda venhamos a ter saudades deles.
Olhar para os 32% do PS contra a direita unida (PSD+CDS) e ver neles um sinal imperioso para fazer rolar cabeças no partido vencedor é passar ao lado do essencial. Além de injusto para Seguro: foi um dos socialistas que se aguentaram melhor em toda a Europa. Amarrado como estava ao memorando de entendimento (que não assinou), amarrado como está ao Tratado Orçamental (queres dois pianos de cauda mais pesados que estes?)
Duvido que qualquer outro no seu lugar fizesse melhor.
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De Sérgio de Almeida Correia a 29.05.2014 às 03:32

A crise do socialismo democrático é um facto, como é a da direita civilizada tradicional. A obrigação de um líder é saber contornar os sinais negativos e incutir esperança, coisa que AJS não consegue.
Alguns dos resultados lá fora (e com o mal dos vizinhos posso eu bem) explicam-se pelo crescimento de forças anti-sistema, designadamente à direita, coisa que em Portugal não se verificou, ou com o crescimento de sentimentos anti-UE, o que por Portugal também não se verifica. See stes fenómenos tivessem dimensão em Portugal, ops partidos tradicionais já teriam colapsado.
Depois, se com uma abstenção tão grande Seguro só consegue 31,5, como poderá ele descolar desse número em legislativas?
Também não me esqueço que o resultado das autárquicas ficou muito aquém do que seria possível devido aos erros graves de estratégia que cometeu (basta pensar no entendimento pré-eleitoral e apoio que negou a Rui Moreira, da desastrada e inexplicável escolha que fez em Cascais ou o que aconteceu em Faro, onde depois de tudo o que se passou com Macário Correia conseguiu perder as eleições, numa altura em que o PSD até Loulé perdeu).
As duas famílias políticas europeias estão feridas porque não têm tido lideranças à altura e têm estado "enroladas" em esquemas aparelhísticos que protegem as mediocridades.
Injusto não é AJS sair. Injusto é não ter líderes políticos com dimensão, com craveira intelectual e política, que sejam capazes de fazer escolhas claras, de terem um discurso coerente e consistente, em vez de navegarem à vista de costa, manietados pelas cumplicidades criadas no aparelho, com arranjos de ocasião que lhes permitam continuar à tona ou lhes garantam lugares em futuras listas.
Houve uma altura em que ainda pensei que seria possível AJS fazer alguma coisa. Mas depois do que aconteceu em Braga, com a feitura das listas para os órgãos nacionais, fiquei logo esclarecido sobre o que se seguiria. Os resultados entram pelos olhos.
Quanto a AC vou esperar para ver, mas que é de outra estirpe, disso não tenho dúvidas.
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De Pedro Correia a 29.05.2014 às 08:45

Meu caro Sérgio: com os males dos outros podemos nós bem, sim. Mas o mal europeu é já o nosso mal também. Não adianta iludir-nos, olhando para a árvore viçosa enquanto a floresta está a arder.
O problema central, no PS como no PSD, não é hoje de personalidades. Esse era um problema que correspondia a uma fase diferente, já ultrapassada.
Há hoje uma crise profunda do sistema representativo na Europa. Uma crise que afecta os dois principais blocos políticos que construíram a Europa unida: o centro-esquerda e o centro-direita. Tal como na primeira metade do século XX, voltamos a ver as forças extremistas, eurófobas, a capitalizar o descontentamento popular invocando a seu favor o pior da natureza humana para fins políticos. Refiro-me aos egoísmos nacionais.
O que está hoje em voga não é ser moderado: é ser extremista. Uns tornam-se "radicais" porque sim, outros porque têm mesmo um projecto político incorporado, à esquerda e à direita.
Na Grécia o bipartidarismo tradicional vale hoje 30%. Em Espanha, não ultrapassa 48%. Chega aos 46% no Reino Unido. Em França nunca esteve tão baixo, rondando os 35%.
E em Portugal? Atinge os 48%, em linha com a tendência europeia, embora numa expressão ainda não tão dramática.
É certo que as eleições para o Parlamento Europeu potenciam como nenhumas outras o voto de protesto: uma grande parte do eleitorado que ficou em casa é moderado, não tenho qualquer dúvida. Resta ver se é resgatável para a democracia. Porque a trincheira hoje na Europa, como foi durante décadas no passado, volta a ser a da democracia contra as forças centrífugas que a desvalorizam a todo o passo invocando a falta de "carisma" dos dirigentes políticos. Sabemos bem onde nos conduziu esta pulsão carismática, mas persistimos em ignorar as lições da História.
Indo ao concreto. Concebo mal que 36 horas depois de uma vitória eleitoral (a segunda em oito meses) o político que triunfou seja contestado nas próprias fileiras apenas porque o achismo dos tudólogos com lugar cativo na TV entendem que outro é mais fadado para tais lides. Sobretudo num contexto em que a família política a que todos pertencem naufragou praticamente à escala continental.
Mais décima menos décima, ninguém teria feito melhor. Claro que é sempre mais fácil, num país de treinadores de bancada, imaginar que o paraíso mora ao lado. A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha. Sugiro-te, a propósito, que ouças uma excelente entrevista que o Francisco Assis deu ontem à RTP, muito bem conduzida pelo Vítor Gonçalves: o essencial fica dito nesta entrevista, de que tenciono falar aqui mais demoradamente.
Também Assis - cuja 'sagesse' ninguém contesta - entende que a crise não é do PS: é do modelo socialista à escala europeia. E que a crise que vivemos é mais funda do que parece: é uma crise da democracia representativa. E que, no essencial, não se trata de nenhum problema de "liderança" que uma brisa messiânica possa resolver.
Outros poderão estar nos lugares dos actuais. Mas os problemas de fundo permanecem. E nunca como agora tivemos tanto a noção de como somos dependentes de terceiros para manter o estilo de vida a que nos habituámos - no plano político, económico, social e cultural. "Não quero que a democracia volte a ser um parêntesis na história de Espanha", disse o ex-primeiro-ministro espanhol Adolfo Suárez nas semanas dramáticas que antecederam o golpe de Estado de Tejero Molina que conduziu ao sequestro do Parlamento. Palavras que foram lapidares e são hoje ali recordadas com frequência.
Não queremos que a democracia volte a ser um parêntesis na história de Portugal - e da Europa. Olhemos para a floresta.

Um abraço amigo.

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